Por José de Alencar (1875)
Entendeu êle que Marcos Fragoso já tinha ajustado casamento com outra moça. Êste fato o contrariou; mas porisso mesmo, bem longe de demovê-lo do projeto de casar o mancebo com D. Flor, mais o afirmou nessa resolução. O seu orgulho não sofria que o homem por êle escolhido para marido de sua filha, fosse capaz de recusar tão grande honra e favor, e preferir outra aliança ainda mesmo quando já estivera tratada.
Outro sentimento porém, e tão forte como êste, reagiu no fazendeiro. Foi o desgôsto pela jactância do Marcos Fragoso dando como certa a sua vitória sôbre o barbatão. O senhor de Quixeramobim sentia-se profundamente ofendido com essa presunção, que de algum modo o amesquinhava na pessoa daquele boi, que era como que uma glória dos seus vastos domínios, e cuja fama fazia de algum modo parte de sua importância.
— Ora! ora!… exclamou o capitão-mór com um grosso riso de mofa. Eu me obrigo a assar no dedo a carne que o senhor tirar do Dourado; mas também, se não pegar o barbatão, o que é certo, há de ter paciência que lhe mande um mamote para tirar a sola das tais chinelas. Está ouvindo?
— Topo, sr. capitão-mór, retorquiu Fragoso, picado ao vivo pela zombaria do fazendeiro; e juro-lhe que hei de fazer hoje melhor montearia do que pensa vossa senhoria.
Arnaldo, cuja atenção estava alerta, notou a inflexão particular com que o mancebo proferira as últimas palavras, e surpreendeu-lhe o olhar irônico lançado ao capitão-mór.
Também Agrela tinha observado êste pormenor; mas o atribuira a leve ressentimento causado pelo motejo do fazendeiro.
Não se imagina o esfôrço que desde o encontro das duas cavalgadas fazia Arnaldo para não precipitar-se contra Frgoso, quando êste aproximava-se de D. Flor e lhe dirigia os seus redimentos corteses ou fitava nela os olhos namorados.
Nunca êle tinha sofrido as dôres, que então o trespassavam, nem pensara que homem as pudesse curtir.
IV – O sorubim
As vaquejadas do gado bravio, ou montearias como ainda as chamavam à moda portuguesa e clássica, pouca diferença tinham quanto ao modo das que se fazem ainda agora no sertão, durante o inverno e depois.
Naquele tempo é certo que o gado barbatão multiplicava-se com prodigiosa rapidez; e os vastos campos incultos, bem como as florestas ainda virgens, ofereciam às manadas selvagens refúgios impenetráveis.
Daí provinham essas famosas correrias tão celebradas nas cantigas sertanejas, e nas quais os vaqueiros gastavam semanas e meses à caça de um boi mocambeiro, que êles perseguiam com uma tenacidade incansável, menos pelo interêsse, do que por satisfação de seus brios de campeadores.
O José Bernardo, portanto, havia espalhado sua gente de modo a fazer com o seio do rio o cêrco da várzea, tomando as saídas por onde o gado podia evadir-se. Êsse cordão vivo supria os muros das coitadas e fechava um vasto âmbito, no qual os cavaleiros podiam correr um ou mais touros e gozar assim das emoções da caça!
Tomadas estas disposições, correu o vaqueiro do Bargado a prevenir seu patrão de que podiam dar comêço ao divertimento.
— Então, senhores?… O campo está seguro, diz o meu vaqueiro, exclamou Fragoso.
— Pronto! acudiu Daniel Ferro, que ardia por mostrar a valentia dos filhos de Inhamuns.
— O senhor capitão-mór dará o sinal, tornou Fragoso com um gesto de deferência.
O velho Campelo afirmou-se na sela, e sobraçando à direita a vara de ferrão, soltou o brado estridente do vaqueiro ao disparar, voz que traduz-se aproximadamente por esta interjeição:
— Ecou!…
Ao grito do capitão-mór, outros reboaram; e os seis cavaleiros arremessaram-se da ladeira abaixo no encalço do Dourado.
O touro barbatão respondera ao grito dos vaqueiros com um mugido manhoso e afastara-se à meia carreira, como para poupar as suas fôrças ou medir as do inimigo. De vez em quando voltava a cabeça para ver o avanço que levavam os cavaleiros.
As senhoras ficaram na eminência, guardadas pela escolta e acompanhadas do padre Teles, que viu com um suspiro afastarem-se os outros e lembrou-se com saudades dos tempos, em que na ribeira do Choró êle campeava os garrotes e novilhos barbatões, montando em pêlo no primeiro cavalo que apanhava dos magotes soltos pelo campo.
Padre Teles tinha um tanto da polpa dêsses padres sertanejos, de que houve tão grande cópia até 1840; sacerdotes por ofício, êles envergavam a batina como uma couraça; e lá se iam pelo interior à cata de aventuras. O capitão-mór, porém, era formalista e não admitia costumes profanos em seu capelão.
Também D. Genoveva, se não fosse o recato de seu sexo, de que o marido não a dispensava, ainda mais em presença de estranhos, tomaria parte na montearia, para que se julgava com ânimo e disposição. Era ela destemida cavaleira; e de-certo desempenhar-se-ia melhor da emprêsa do que o Ourém e o Correia, moradores da cidade, e não afeitos a êsses exercícios dos nossos campos.
—Vamos nós também divertir-nos, Flor, disse a dona, lançando o cavalo avante.
— Anda, Alina! exclamou a donzela, seguindo a mãe.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.