Por José de Alencar (1857)
— Não sei!... Fui escarnecida! respondeu Isabel balbuciando.
— Como?
— Cecília fez-me acreditar que este bracelete vinha de seu pai para me fazer aceitá-lo; pois se eu soubesse...
— Que vinha de minha mão? Não aceitaríeis?
— Nunca!... exclamou a moça com fogo.
Álvaro admirou-se do tom com que Isabel proferiu aquela palavra; parecia dar um juramento.
— Qual o motivo? perguntou depois de um momento.
A moça fitou nele os seus grandes olhos negros; havia tanto amor e tanto sentimento nesse olhar profundo, que se Álvaro o compreendesse, teria a resposta à sua pergunta. Mas o cavalheiro não compreendeu nem o olhar nem o silêncio de Isabel: adivinhava que havia nisto um mistério, e desejava esclarecê-lo.
Aproximou-se da moça e disse-lhe com a vez doce e triste:
— Perdoai-me. D. Isabel; sei que vou cometer uma indiscrição; mas o que se passa exige uma explicação entre nós. Dizeis que fostes escarnecida; também eu o fui. Não achais que o melhor meio de acabar com isso, seja o falarmos francamente um ao outro? Isabel estremeceu.
— Falai: eu vos escuto, Sr. Álvaro.
— Escuso confessar-vos o que já adivinhastes; sabeis a historia deste bracelete, não é verdade?
— Sim! balbuciou a moça.
— Dizei-me pois como ele passou do lugar onde estava, ao vosso braço. Não penseis que vos censuro por isso, não; desejo apenas conhecer até que ponto zombam de mim.
— Já vos confessei o que sabia. Cecília enganou-me.
— E a razão que teve ela para enganar-vos não atinais?
— Oh! se atino... exclamou Isabel reprimindo as palpitações do coração.
— Dizei-ma então. Eu vo-lo peço e suplico!
Álvaro tinha deitado um joelho em terra, e tomando a mão da moça implorava dela a palavra que devia explicar-lhe o ato de Cecília, e revelar-lhe a razão que tivera a menina para rejeitar a prenda que ele havia dado.
Conhecendo esta razão talvez pudesse desculpar-se, talvez pudesse merecer o perdão da menina; e por isso pedia com instância a Isabel que lhe declarasse o motivo por que Cecília a havia enganado.
A moça vendo Álvaro a seus pés, suplicante, tinha-se tornado lívida; seu coração batia com tanta violência que via-se o peito de seu vestido elevar-se com as palpitações fortes e apressadas: o seu olhar ardente caia sobre o moço e o fascinava.
— Falai! dizia Álvaro; falai! Sois boa; e não me deixeis sofrer assim, quando uma palavra vossa pode dar-me a calma e o sossego.
— E se essa palavra vos fizesse odiar-me? balbuciou a moça.
— Não tenhais esse receio; qualquer que seja a desgraça que me anunciardes, será bem-vinda pelos vossos lábios; é sempre um consolo receber-se a má nova da voz amiga! Isabel ia falar, mas parou estremecendo:
— Ah! não posso! seria preciso confessar-vos tudo!
— E por que não confessais? Não vos mereço confiança? Tendes em mim um amigo.
— Se fôsseis!...
E os olhos de Isabel cintilaram.
— Acabai!
— Se me fôsseis amigo, me havíeis de perdoar.
— Perdoar-vos, D. Isabel! Que me fizeste vós para que vos eu perdoe? disse Álvaro admirado.
A moca teve medo do que havia dito; cobriu o rosto com as mãos.
Todo este diálogo, vivo, animado, cheio de reticências e hesitações da parte de Isabel, tinha excitado a curiosidade do cavalheiro; seu espírito perdia-se num dédalo de dúvidas e incertezas.
Cada vez o mistério se obscurecia mais; a princípio Isabel dizia que tinham escarnecido dela; agora dava a entender que era culpada: o cavalheiro resolveu a todo transe penetrar o que para ele era um enigma.
— D. Isabel!
A moça tirou as mãos do rosto; tinha as faces inundadas de lágrimas.
— Por que chorais? perguntou Álvaro surpreso.
— Não mo pergunteis!...
— Escondeis-me tudo! Deixais-me na mesma dúvida! O que me fizestes vós? Dizei!
— Quereis saber? perguntou a moça com exaltação.
— Tanto tempo há que suplico-vos!
Álvaro tomara as duas mãos da moça, e com os olhos fitos nos dela esperava enfim uma resposta.
Isabel estava branca como a cambraia do seu vestido; sentia a pressão das mãos do moço nas suas e o seu hálito que vinha bafejar-lhe as faces.
— Me perdoareis?
— Sim! Mas por quê?
— Porque...
Isabel pronunciou esta palavra numa espécie de delírio; uma revolução súbita se tinha operado em toda a sua organização.
O amor profundo, veemente, que dormia no intimo de sua alma, a paixão abafada e reprimida, por tanto tempo, acordara, e quebrando as cadeias que a retinham, erguia-se impetuosa e indomável.
O simples contato das mãos do moço tinha causado essa revolução; a menina tímida ia transformar-se na mulher apaixonada: o amor ia transbordar do coração como a torrente caudalosa do leito profundo.
As faces se abrasaram; o seio dilatou-se: o olhar envolveu o moço, ajoelhado a seus pés, em fluidos luminosos; a boca entreaberta parecia esperar, para pronunciá-la, a palavra que sua alma devia trazer aos lábios.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. O Guarani. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1842 . Acesso em: 26 jan. 2026.