Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
Pois bem, aí tendes um amor e uma amizade: o primeiro, filho do temperamento ou da simpatia, ou do que quiserdes; o filho, em suma, de um curto momento em que não houve nem reflexão nem vontade; a segunda, sentimento refletido, criado pela dedicação, amamentado pela virtude, educado cuidadosamente durante muitos anos.
Aí tendes a amizade, virgem encantadora cheia de pureza, de formosura, de graça e de castidade; e o amor, menino impertinente, audacioso, exigente, importuno, teimoso... para dizer tudo, menino malcriado.
O que é que acontece no correr da vida de ambos?...
Acontece que o filho do momento, que devia ser o mais fraco, é o mais forte; que o menino malcriado, que devia ser menos tolerado, é de quem se sofre. muito mais.
A amizade para viver precisa que a ajudem: é a lâmpada do templo, cuja luz se extingue se lhe falta o óleo; é necessário que a dedicação, o desinteresse, a paciência, que já tanto se provaram, vão sempre de seu existir dando novas provas, para que a amizade subsista; para que a virgem não fuja envergonhada.
E o amor?... amai, e vede: aquilo mesmo que destruiria para logo a mais antiga e enraizada amizade, é quase sempre um incentivo que dá mais vigor e mais fogo ao filho do momento.
Amai, e vede: a mulher que vos plantou no coração esse sentimento, vos desafia com seus rigores; vos faz escravo de seus caprichos; com um desdém arranca lágrimas de vossos olhos, e com uma lágrima vos faz dobrar os joelhos.
Na amizade, a traição faz esquecer; no amor, a traição faz enlouquecer.
As diferenças que existem entre os dois sentimentos continuam ainda; e, como devia acontecer, compensam finalmente os triunfos que sobre a amizade dão no princípio ao amor.
O orgulhoso que de si mesmo tirava suas forças, que vivia de seus caprichos, de desdéns e de lágrimas, devia por força cansar mais depressa do que a virgem modesta, que caminhava cuidadosamente à sombra de mil cuidados e guiada pela virtude e pela dedicação.
O tempo é portanto a vida da amizade e a morte do amor.
E assim como vimos há pouco, que aquilo mesmo que podia instantaneamente matar a amizade, era para o amor incentivo que lhe dava mais vigor e lhe tornava mais intenso o fogo; veremos agora, em compensação também, que o princípio que anima a primeira é causa do resfriamento e morte do segundo.
Queremos falar do gozo, porque, embora de natureza distinta, tanto o amor como a amizade têm o seu.
Dois amigos gozam-se com a troca de seus sentimentos e de seus cuidados, gozam-se partilhando mutuamente os pesares e os prazeres um do outro, ajudandose na prosperidade e nos trabalhos da vida; e esse gozo anima o fogo do sentimento que o dá, enraíza ainda mais a amizade que o promoveu.
Agora o que acontece com o amor, perguntai a todos os esposos. Interrogai principalmente a todas essas belas moças, a quem se jurou paixão eterna; interrogai a essas... um ano depois de casadas.
Elas vos dirão o que desde muito tempo já foi dito – “o desejo é a medida do prazer”.
Ou, o que pouco mais ou menos exprime a mesma coisa – “a morte do amor está no gozo”.
Mas enquanto se não goza, flameja um desejo imenso que acende a imaginação, e os menores encantos são perfeições angélicas, e tudo é engrandecido e divinizado no objeto que se ama. Da mulher se faz um anjo.
Não há mais nada de terrestre nela. Houve uma metamorfose operada pela imaginação.
O desejo suspira às vezes como um favônio que brinca com as flores de manhã cedo; e logo depois brame como a tempestade, como o vento enraivado varrendo a floresta virgem.
Se há um abismo, o homem lança-se dentro dele; se lá dentro... se lá embaixo ele viu o rosto da mulher que ama...
Se há um muro de bronze, o homem trabalha uma vida inteira para lançá-lo por terra.
E nem os anos, e nem a ausência podem fazer esquecer a mulher que se ama.
Porque não houve gozo.
E pode a mulher ser caprichosa e ligeira; pode zombar, pode parecer inconstante, pode desdenhar, podem mesmo asseverar que ela é falsa; o homem estará preso a seus pés como um mísero escravo.
Porque não houve gozo.
É, com isto, e mercê destas considerações mil vezes já enunciadas de modo mil vezes melhor, que se explicava o amor extremoso e irresistível de que o jovem Henrique se achava possuído pela filha de Anacleto.
Henrique era um exemplo que se podia dar dos dois sentimentos que acabam de ser discutidos.
Laços de uma pura e virginal amizade o ligaram a Carlos. Grilhões de um amor tirânico e invencível o prendiam aos pés de Mariana.
A amizade porém dos dois mancebos era mais velha que o amor de um deles; e Carlos, com o zelo de um amigo fiel, tinha acompanhado todo o correr desse amor, que durante muito tempo se lhe figurou em abismo.
Com franqueza a lealdade combatera esse sentimento de Henrique durante seus primeiros tempos; apoiara sua viagem à Europa, e, apesar de ler o nome de Mariana em todas as cartas de seu amigo, só começara a falar dela nas suas quando começara também a viuvez da filha de Anacleto.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.