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#Ensaios#Literatura Brasileira

Memórias da Rua do Ouvidor

Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)

Mas a Chiquinha desprezando apreensões de provável perseguição subseqüente, e mostrandose toda dedicada a Ledo, prestou-se fiel e exaltadamente ao plano de sua fuga.

Querem alguns que Joaquim Gonçalves Ledo tivesse saído de uma casa da Rua do Hospício disfarçado com hábito de frade franciscano, e que se dirigisse dali diretamente à praia para embarcar.

Que ele saiu de amiga e fraternal hospedagem na Rua do Hospício, é certo; tenho porém informações fidedignas de que foi da casa da Chiquinha que seguiu para o seu embarque, e bastando esse fato para assinalar imprudência, não creio que ele provocasse reparos e suspeitas entrando já vestido de frade na casa de má reputação.

Prefiro por isso esta outra versão.

Na aprazada noite, Ledo foi sob qualquer disfarce despedir-se da Chiquinha, objeto de sua apaixonada afeição em 1822, e ali no pequeno sobrado da Rua do Ouvidor chegada a hora da partida tomou o preparado hábito de frade franciscano (que lho perdoem os religiosos dessa ordem), imprimiu na face da Chiquinha seu último e fervoroso beijo, já nesse momento ainda mais fervoroso - beijo de frade - e partiu.

Também pretendem alguns que o ilustre perseguido político fora embarcar, disfarçando-se com vestidos de mulher; isso não é verossímil, não é; conheci pessoalmente Ledo; não era homem de alta estatura, mas representaria mulher gigantesca, excitadora de observações e de curiosidade importuna.

Ele incorreu no escândalo de sair simulado de frade da casa da Chiquinha.

E foi indo em direção ao mar, a descer vagaroso e grave pela Rua do Ouvidor.

Não houve quem disputasse o passo ao frade.

Aquele tempo não era o de hoje. Então o frade ainda era grande coisa, e o hábito franciscano ainda tinha o prestigio de S. Carlos, de Sampaio, de Montalverne e de outros luminares da tribuna sagrada.

E Ledo recebido em escaler, cujo improvisado patrão era um irmão que o esperava, foi levado para o navio mercante, onde ceou com alguns outros irmãos, e no dia seguinte saiu barra afora para Buenos Aires.

Quem não achar muito bonita esta conspiração antioficial, este generoso auxílio da maçonaria, é incapaz de compreender o belo na sociedade, e na vida dos homens.

A Chiquinha passou o resto daquela noite de despedida a chorar saudosa e tristemente; no outro dia ainda chorou; mas no seguinte recomeçou a rir e a cantar modinhas e lundus, como dantes.

Sina das que são Chiquinhas, como ela o era.

A devassa contra os supostos conspiradores e revolucionários continuou, e é triste lembrar que entre as testemunhas comprometedoras dos patriotas desterrados e de Joaquim Gonçalves Ledo se contaram companheiros dos mesmos na revolução gloriosa da Independência, e que uma dessas testemunhas da devassa foi o poeta Bernardo Avelino.

Quando cerca de dois anos depois Ledo voltou para o Rio de Janeiro, se ainda conservava lembranças da Chiquinha, teve o desgosto de não encontrá-la mais nem na Rua do Ouvidor, nem em alguma outra da cidade.

A bonita, mas pobre e infeliz rapariga, seguindo seu mísero destino, um dia batera as asas, e como não tinha de quem despedir-se, ninguém soube para onde ela voou.

A Chiquinha foi um pirilampo na Rua do Ouvidor.

Não sei bem determinar qual foi a pequena casa térrea onde morou o poeta Bernardo Avelino, e por isso não a indico.

De lado esquerdo da rua e perto do Largo hoje Praça de S. Francisco de Paula mostra-se o grande sobrado, que é desde muitos anos ocupado pelo Hotel Ravot.

Foi essa casa propriedade de José Luís de Carvalho e Melo e ainda o é de seu digno filho do mesmo nome e título nobiliário.

Luís José de Carvalho e Melo, deputado da Constituinte brasileira, Ministro dos Negócios Estrangeiros a 15 de novembro de 1823, conselheiro de Estado e um dos colaboradores e signatários do projeto da Constituição que foi jurada a 25 de março do ano seguinte, Visconde da Cachoeira e Senador do Império, foi jurisconsulto de alta reputação, magistrado probo e justo, e varão de muito merecimento e de virtudes.

Conservou-se no ministério com a pasta dos negócios estrangeiros até 1825 e faleceu em 1826.

De 15 de novembro de 1823 até sua morte o Visconde da Cachoeira sofreu quebra considerável de sua popularidade, porque o partido liberal do Brasil não lhe perdoou o ter entrado para o ministério três dias depois da dissolução da Constituinte (da qual fora membro distinto e muito considerado), tomando por esse fato manifesta responsabilidade daquele desastroso golpe de Estado.

Como o Visconde da Cachoeira também o Marquês de Caravelas (José Joaquim Carneiro de Campos) igualmente deputado da Constituinte, Conselheiro de Estado e colaborador do projeto da Constituição em 1823, ficou suspeito aos liberais que retiraram dele todas as suas simpatias e toda a confiança.

(continua...)

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