ASSIS, Machado de. Esaú e Jacó. Rio de Janeiro: Garnier, 1904.
Por Machado de Assis (1904)
Por mais que ele olhasse pela vida dentro, não achava igual obséquio do Céu, ou sequer do inferno. Mais tarde, se alguma jóia lhe levou os olhos, não lhe levou as mãos. Tinha aprendido a respeitar o alheio, ou ganhara com que o comprar. A nota de dous mil-réis... Um dia. ousando mais, chamou-lhe presente de Nosso Senhor.
Não, leitor, não me apanhas em contradição. Eu bem sei que a princípio o andador das almas atribuiu a nota ao prazer que a dama traria de alguma aventura. Ainda me lembram as palavras dele: "Aquelas duas viram passarinho verde!" Mas se agora atribuía a nota à proteção da santa, não mentia então nem agora. Era difícil atinar com a verdade. A única verdade certa eram os dous mil-réis. Nem se pode dizer que era a mesma em ambos os tempos. Então, a nota de dous mil-réis eqüivalia, pelo menos, a vinte (lembra-te dos sapatos velhos do homem); agora não subia de uma gorjeta de cocheiro. Também não há contradição em pôr a santa agora e a namorada outrora. Era mais natural o contrário, quando era maior a intimidade dele com igreja. Mas, leitor dos meus pecados, amava-se muito em 1871, como já se amava em 1861, 1851 e 1841, não menos que em 1881, 1891 e 1901. O século dirá o resto. E depois, é preciso não esquecer que a opinião do andador das almas acerca de Natividade foi anterior ao gesto do corredor, quando ele agasalhou a nota na algibeira. tanto duvidoso que, depois do gesto, a opinião fosse a mesma.
CAPÍTULO LXXV
PROVÉRBIO ERRADO
Pessoa a quem li confidencialmente o capítulo passado, escreve-me dizendo que a causa de tudo foi a cabocla do Castelo. Sem as suas predições grandiosas, a esmola de Natividade seria mínima ou nenhuma, e o gesto do corredor não se daria por falta de nota. "A ocasião faz o ladrão", conclui o meu correspondente.
Não conclui mal. Há todavia alguma injustiça ou esquecimento, porque as razões do gesto do corredor foram todas pias. Além disso, o provérbio pode estar errado. Numa das afirmações de Aires, que também gostava de estudar adágios, é que esse não estava certo.
—Não é a ocasião que faz o ladrão, dizia ele a alguém — o provérbio está errado. A forma exata deve ser esta: "A ocasião faz o furto; o ladrão nasce feito".
CAPÍTULO LXXVI
TALVEZ FOSSE A MESMA!
Nóbrega saiu enfim do corredor, mas foi obrigado a deter-se, porque uma mulher lhe estendia a mão:
—Meu senhor, uma esmolinha por amor de Deus!
Nóbrega meteu a mão no bolso do colete e pegou um níquel, entre dous que lá havia, um de tostão, outro de dous. Pegou o primeiro, mas indo a dar-lho, mudou de idéia; não deu o níquel; disse à velha que esperasse, e entrou mais fundo no corredor. De costas para a rua, introduziu a mão na algibeira das calças e sacou um maço de dinheiro — procurou e achou uma nota de dous mil-réis, não nova, antes velha, tão velha como a mendiga que a recebeu espantada, mas tu sabes que o dinheiro não perde com a velhice.
—Tome lá, murmurou ele.
Quando a mendiga voltou do espanto, Nóbrega acabava de restituir o maço à algibeira e ia a querer sair. O que a mendiga então disse veio entremeado de lágrimas:
—Meu senhor! Obrigada, meu senhor! Deus lhe pague! A Virgem Santíssima...
E beijava a nota, e queria beijar a mão que lhe dera a esmola, mas ele a escondeu, como no Evangelho, murmurando que não, que se fosse embora. Em verdade, a palavra da mendiga tinha um som quase místico, uma espécie de melodia do Céu, um coro de anjos e fazia bem fitar-lhe os olhos encarquilhados, a mão trêmula, segurando a nota. Nóbrega não esperou que ela se fosse, saiu, desceu a rua, com as bênçãos da mulher atrás de si; dobrou a esquina, a passo rápido, e aí foi pensando não se sabe em quê.
Atravessou a praça, passou a catedral e a igreja do Carmo, e chegou ao Carceler, onde entregou as botas a um italiano para que lhe engraxasse. Mentalmente, olhava para cima ou para baixo, para a direita ou para esquerda, — em todo caso para longe, — e acabou murmurando esta frase, que tanto podia referir-se à nota como à mendiga, mas provavelmente era à nota:
—Talvez fosse a mesma.
Nenhum obséquio, por ínfimo que seja, esquece ao beneficiado. Há exceções. Também há casos em que a memória dos obséquios aflige, persegue e morde, como os mosquitos; mas não é regra. A regra é guardá-los na memória, como as jóias nos seus escrínios; comparação justa, porque o obséquio é muita vez alguma jóia, que o obsequiado esqueceu de restituir.
CAPÍTULO LXXVII
HOSPEDAGEM
A família Batista foi aposentada em casa de Santos. Natividade não pôde ir a bordo, e o marido estava ocupado em "lançar uma companhia"; mandaram recado pelos filhos que a casa de Botafogo tinha já os quartos preparados. Desde que o carro se pôs a andar, Batista confessou que ia ficar constrangido por alguns dias.
—Numa casa de pensão era melhor, até que nos despejassem a de S. Clemente.
—Que queria você? Não havia remédio senão aceitar, ponderou a mulher.
(continua...)
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