Por Adolfo Caminha (1893)
Zuza tinha aberto a vidraça para consultar o tempo. Os telhados, defronte, estavam úmidos e o céu de uma cor esmaecida de safira, arqueava-se, sem uma nuvem na penumbra da antemanhã. Passava um fiscal da Câmara com o seu boné, jaqueta com botões dourados, chapéu de chuva debaixo do braço, assoando-se com estrondo.
— Tudo fechado ainda, com efeito! pensou o Zuza. Entretanto já tinham dado seis horas.
Entrou e pôs-se a reler as cartas de Maria do Carmo, trincando a ponta do bigode.
“Meu querido Zuza...”
Nesta a normalista jurava como não tinha ido ao Clube Iracema; que era uma calúnia o que tinham dito ao estudante...
“Tua querida Maria”.
Zuza meneou a cabeça com um ar de riso e abriu outra.
“Zuza do meu coração...”
Nesta outra Maria lamentava que o rapaz não tivesse aparecido na Escola Normal na véspera.
“Tu já não me amas, Zuza; não queiras matar-me de saudades. Todo os dias peço a Deus por ti e tu nem sequer te lembras da tua futura esposa!”
E assim, uma a uma, o futuro bacharel releu toda a série de cartas da normalista, enfeixando-as depois, dobradinhas, com um cadarço.
Que horror, meu Deus, quanta banalidade! E ela a tomar a coisa a sério! A gente sempre faz asneiras de criança nessa idade!...
E guardando o maço de cartas no fundo da maleta: “— Magnífico rol de asneiras para fazer rir a rapaziada de Pernambuco.”
As horas passavam vertiginosas. A larga claridade do sol penetrava no quarto pela janela aberta, como uma visita sem-cerimônia, anunciando um dia seco e esplêndido.
Já lá fora, na rua, recomeçava a labuta quotidiana. Um barbeiro, que morava defronte, amolava as navalhas assobiando um trecho de Fandango, com as pernas cruzadas, de frente para a rua. Passavam burricos com cargas de água, procurando as coxias. Meninos apregoavam o Cearense.
José Pereira ficara de vir almoçar com o Zuza, mais cedo que de costume, para seguirem juntos ao ponto de embarque.
D. Sofia andava numa faina, da sala para a cozinha, com os olhos empanados de lágrimas, esquecendo as suas dores de útero para pensar no Zuza, no seu filho que se ia embora.
O coronel, esse não se alterava, calmo, consultando o relógio de vez em quando, bem-humorado nesse dia, passeando o seu grande ar de homem independente.
Cerca de 10 horas entrou o redator da Província anunciando a chegada do vapor.
— A que horas sai? perguntou o estudante.
— Está marcado para as duas. Em todo caso é prudente ir mais cedo...
— Sem dúvida. Ao meio-dia, o mais tardar, devo estar a bordo. Qual é o vapor?
— O Espírito Santo.
— Diabo, uma carroça!
José Pereira entrara para o quarto do Zuza, e, sentado na larga rede de varandas encarnadas, perna traçada com desembaraço, passeava o olhar morosamente naquele tabernáculo de rapaz solteiro, agora em desordem, como um ninho abandonado, enquanto o estudante acabava de fazer a toalete no aposento contíguo.
Na frente das duas malas, uma grande e outra menor, lia-se em letreiros impressos e nítidos — José de Souza Nunes — Recife. Perto estava um caixote com livros e o mesmo dístico no alto.
— Dez e meia! Fez o redator levando o relógio ao ouvido.
Imediatamente surgiu o Zuza lépido, esfregando as mãos, como se saísse de um banho de perfumes.
— Prontinho, disse ele.
E misteriosamente:
— Então, com que a canalha tem-se divertido à minha custa, hein?
— Como assim?
— Oh! homem, inventaram por aí que eu deflorei a Maria do Carmo. Não leste o Pedro II e o Cearense?
— E tens culpa no cartório?
— Não, com os diabos, mas isso é um horror! Ninguém pode mais gracejar, ninguém tem mais o direito de chegar-se a uma rapariga honesta sem intenções malévolas. Cada vez me convenço mais de que isso é uma terra de selvagens, seu José Pereira! Isto é um país de bárbaros. Vocês da imprensa devem civilizar este povo, devem ensinar esta gente a pensar e a ter juízo, do contrário...
— Mas, fala a verdade, interrompeu o outro com um ar de riso malicioso; tu nunca...
— Palavra como não! É verdade que lhe dei alguns beijos, mas o nosso namoro nunca foi além disso, mesmo porque, tu compreendes a minha responsabilidade... Depois, só fui à casa do padrinho umas três vezes, no máximo.
Calúnia, simples calúnia...
— É. Este povo é muito indiscreto...
— Indiscreto não — alcoviteiro, mentiroso, ignorante e besta, é o que ele é.
E depois de uma pausa:
— Bem, vamos almoçar que deve ser hora.
Uma vez instalado a bordo, no seu camarote do lado do mar, o futuro bacharel, de binóculo a tiracolo e boné, respirou a todo o pulmão e foi assistir da tolda à manobra do vapor que suspendia o ferro.
Eram duas horas em ponto. O tempo estava magnífico. Ventava forte e o mar em ressaca atirava sobre o quebra-mar uma toalha de espuma que se desmanchava em poeira tenuíssima irisada pelo sol. A cada golpe de mar havia uma algazarra na praia coalhada de gente. Escaleres navegavam para terra puxados a remo, destacando a bandeira do escaler da Capitania do Porto.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. A normalista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16512 . Acesso em: 27 mar. 2026.