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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

Eram quatro horas da manhã. Espessa neblina erguia-se do rio, cobrindo as árvores da beira, onde despertavam à primeira claridade da aurora as barulhentas ciganas, enquanto a água corria mansamente e a meio adormecida, apenas agitada de vez em quando por algum tucunaré que sem ruído vinha à tona respirar a brisa da manhã. Padre Antônio de Morais, sentado sobre a tolda da igarité, via desaparecer pouco a pouco o casario branco da pitoresca Silves, reclinada à beira do lago Saracá entre verduras eternas. Por último sumiu-se a torre da Matriz. Havia meses que chegara a Silves, cheio de entusiasmo e de fé, dedicando-se ao trabalho de reforma de uma paróquia sertaneja, e já dali se partira, desiludido e triste, mas ardendo no fogo de um novo entusiasmo, porventura mais bem fundado. Mas não era a recordação do que passara em silves, nem tampouco a preocupação do fim da viagem começada, que naquele momento lhe enchia a alma de gratos sentimentos. Achava-se bem, gozava uma delícia, haurindo a pulmões cheios o ar vivificante da madrugada, embalsamado pelo agreste perfume das matas da beira do rio. Sentiase renascer no meio da natureza que o cercara na infância, e ora lhe avivava a lembrança de um passado já longínquo, de que o separavam sete anos de estudos e de trabalhos, e mais do que isso, a profissão adotada e as ambições da sua alma poderosamente sacudida por duas correntes contrárias que o levavam, todavia, ao mesmo resultado.

Via-se em pleno rio, numa embarcação pequena, surpreendendo o sol no aparato da vestimenta matutina. Ouvia o ruído confuso da natureza mal desperta, e tinha ímpetos de tirar fora a batina, de tomar um grande banho purificador, de nadar atravessando o rio, de ir depois secar-se ao sol sobre algum cedro perdido, e de internar-se então no mato até perder-se no vasto sertão, onde passaria a vida a comer frutos silvestres e a vagabundear pelas campinas, numa orgia de ar e de liberdade.

Era assim na meninice, na fazenda natal do Igarapé-mirim, onde para fugir à presença tristonha e chorosa da mãe e às brutalidades do pai, refugiava-se no campo, nas matas, na solidão do rio, só, sem companheiro, face a face com a natureza. Desse viver ao mesmo tempo ardente e tranqüilo o fora arrancar a solicitude do padrinho, para o meter consigo na galeota de negócio e conduzi-lo ao Pará, obrigando-o a viver entre gente estranha, constrangendo-lhe a índole expansiva, sopitando o ardor do temperamento campônio para reformar as idéias e os sentimentos, adquirir nova concepção do mundo e da vida e formar um ideal novo de espiritualidade e meditação, contra o qual se rebelara embalde o sangue de Pedro de Morais que lhe corria nas veias.

Com que dor de coração se despedira da fazenda!

A mãe debulhada em lágrimas, envergonhada e tímida, transmitira-lhe no último beijo o vago terror das coisas novas com que se ia enfrentar. O pai, indiferente e grosseiro, insinuara-lhe o desprezo dos homens e a filosofia do gozo, acompanhando-o até a galeota com os olhos enxutos, os lábios sardônicos, a palavra cética e dura. A ama de leite, a boa mãe-preta que o criara e protegera, na fraqueza da mãe desmoralizada, contra os irmãos legítimos e naturais, dando-lhe o apoio da sua influência sobre a domesticidade da fazenda, abraçara-o ao embarcar, pondo-lhe ao pescoço um bentinho milagroso e dando-lhe conselhos para evitar os diversos males que por arte diabólica afligem a pobre humanidade.

(continua...)

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