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#Romances#Literatura Brasileira

Luzia-Homem

Por Domingos Olímpio (1903)

A sua imaginação desvairada volviam, com esses pensamentos tristes, as figuras de Alexandre e Luzia: ela caminhando para a praia, confundida no êxodo, conduzindo a mãe estropiada; ele, feliz, bem colocado no emprego e apoiado na confiança dos Comissários. E não se conformava com o romance passional sem desenlace, empatado pelo egoísmo de ambos.

Desviando-se, insensivelmente, Teresinha foi ter ao sobpé da encosta íngreme cerrada pelos rochedos, chamados Fortaleza, nos quais terminava o renque de casas da Leonor, onde morava Rosa Veado. Aí o caminho, que era uma breve ladeira cavada entre pedrouços, estava obstruído por um grupo de três indivíduos, uma família que subia a passo tardo, tangendo um velho burro, pelado e esquelético, carregando duas malas e, no meio da carga, os utensílios domésticos e o oratório de cedro envernizado, cheio de santos. Um velho, de longas barbas brancas, puxava o animal pelo cabresto; ao lado, ia a mulher, também idosa, de formas cheias; atrás, marchava uma rapariga loira, de corpo franzino e flexível, acusando o despontar da adolescência. O burro, de grandes orelhas bambas, vacilava a cada passo, e era animado pelos seus condutores com palmadas carinhosas nas ancas, estalidos de lábios soando como largos beijos, e vozes de estímulo. Mas o mísero bufava, arquejava, e mal se podia equilibrar sobre as patas corridas de suor, trêmulas, hesitantes.

— Que maçada! – resmungava Teresinha, obrigada a seguir o moroso grupo, parar quando ele parava, a marchar com ele, bem chegada à mocinha loira – Esta só a mim acontece...

Entretanto, o animal, vergado de fadiga, tirava-lhe funda piedade. O oratório, encimado pela pequena cruz singela, a balançar surgindo dentre o amarrado de cordas de crina, evocava meiga saudade, fantasmas de anjos esvoaçando através de sua memória obscurecida, recordações vagas, místicas comoções, talvez provocados pela parte dos santos no infortúnio dos adoradores, aquela família de crentes, que não os abandonava, como tutelares do lar vazio.

— Vamos, vamos! – dizia a mocinha ao animal – Caminha mais um bocadinho; estamos quase em riba.

Essa voz tinha sonoridade consoante às recordações de Teresinha; era a de uma pessoa querida, morta, ou, havia muito, ausente, depois de feliz encontro na sua carreira aventurosa pelo mundo. Quem seria? Onde ouvira falar aquela criatura, que lhe alvoroçava o coração? E à revolta contra o obstáculo, sobreveio intensa curiosidade de ver a mocinha, de saber quem era.

O burro, com supremo esforço, deu mais alguns passos e chegou ao cimo da pequena ladeira, junto dos grandes molhes de granito retangulares e erguidos a prumo, como ameias de uma fortaleza. Aí, como se houvesse esgotado o alento, vacilou, respirou com força; soltou um surdo gemido doloroso e caiu aniquilado, contemplando com os grandes olhos súplices, o velho que puxava o cabresto para lhe suspender a cabeça, ao passo que a moça tentava erguê-lo pela cauda.

— Aliviemo-lo da carga – ordenou o velho – Está afrontado, pobre Macaco... Também há três dias que nem retraços tem comido.

O caminho estava desobstruído e franco; mas Teresinha apiedada do pobre animal, estacara trêmula e lívida, cosida aos rochedos, numa postura de horror, pregando o olhar esgazeado no grupo sugestivo, a poucos passos de distância.

— Macaco! Será possível! – gaguejou ela, espavorida.

Vendo-a ali parada, a mocinha se dirigiu a ela:

— Minha senhora, faça a esmola de nos dar uma mãozinha para tirarmos a carga daquele pobre.

— Maria da Graça! – bradou Teresinha.

— Sra dona conhece-me? Minha Nossa Senhora!... É... é...

Maria recuou, transida de susto, mal confiando nos seus olhos.

— Que é?... – perguntaram, a um tempo, os dois velhos, muito empenhados em tirar o oratório de cima do burro, imóvel, estirado no chão.

— É... é a Teresa – respondeu a mocinha, com um grande gesto de espanto.

— Teresa! minha filhinha!... – exclamou a velha, num grito de surpresa alegre, no qual retumbava a ternura toda do coração de mãe. – Tu!... tu aqui?

E, atirando-se à filha, enlaçou-a nos braços, beijando-a com apaixonado frenesi na face, na fronte, nos cabelos, como quem sacia longa e cruel sede de amor.

Hirta e gelada, desfigurado o rosto por violentas contrações de estupor, e lívida como um morto, Teresinha não pôde fazer um gesto; mas, a carícia maternal lhe agitava todas as febras do coração, e todo o seu corpo tremia convulsionado. Só os olhos espantados, viviam, cintilando com uma lucidez ingênita.

—Teresa, filha da minha alma, - continuou a mãe – Deus te abençoe! Minha Virgem Santíssima, é ela mesma!... Seu Marcos, veja, é a nossa filha!...

O velho erguera-se. As grandes barbas, alvejando à luz do sol poente, davam venerando relevo ao esquálido rosto, macerado, tostado pelo mormaço do sertão. Os pequenos olhos azuis, de um azul de céu empoeirado de neblinas, brilhavam no fundo das órbitas sombrias, com um bruxuleio de lâmpada de santuário. Na postura, nos andrajos e na voz soturna e firme, corporizava a nobreza da miséria da miséria superior.

(continua...)

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