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#Romances#Literatura Brasileira

O Mulato

Por Aluísio Azevedo (1881)

Os devotos e devota respondiam cantando em todos os tons:

— Ora... pro... nobis!

E este bis fina ia longe!

— Christe eleison! — Ora pro nobis!

Destacava-se a voz grossa e avinhada do Cordeiro, que sempre demorava no canto e arrastava escandalosamente o bis.

— Diabo do herege!... resmungou Amância, sem desfazer a sua atitude beata.

— Pater de caelis, Deus, miserere nobis!...

— Ora pro nobis!... insistia o coro

— Fili Redemptor mundi, Deus miserere nobis. — Ora pro nobis!

E o pobre Lamparina, no fim de um quarto de hora desta música, sentia-se plenamente no seu elemento, entusiasmava-se, cantava, marcando frenético o compasso com o pé, e quase dançando Já não espera pelo “Ora pro nobis”, ia gritando:

— Santa Maria!

— Santa Dei genitrix!

— Santa virgo Virginum! — Mater puríssima!

E o coro, e a musica, a correrem atrás dele, a toda a força.

Mas o especialista das ladainhas teve de interromper o seu entusiasmo, porque, em torno de Maria do Carmo, levantava-se um zunzum.

— Que terá minha tia?!... exclamou Etelvina a alvoroçada.

— Mamãe outrinha! Jesus! Valha-me Deus!

— O que é?

— Que foi?

— Que tem?

— Que sucedeu?

Ninguém sabia. Entretanto, Maria do Carmo ajoelhada hirta, com o queixo enterrado entre as clavículas, tinha uma imobilidade aterradora no olhar. — Credo! gritou Amância, benzendo-se.

As sobrinhas puseram-se logo a chorar ruidosamente; Ana Rosa Eufrásia e Lindoca imitaram-nas no mesmo instante.

Correram todos para o lugar sinistro; os músicos com os instrumentos debaixo do braço; Lamparinas com o manual de rezas marcado pelo indicador da mão direita.

Ouvia-se roncar estranhamente o ventre de Maria do Carmo. Raimundo abriu caminho, chegou onde ela estava, suspendeu-lhe a cabeça e, ao soltá-la de novo, uma golfada de vômito podre jorrou pelo corpo da velha.

— E um vólvulo! disse ele, voltando a cabeça.

— Do latim — volvulus — segredou-lhe o Freitas, que o acompanhara até lá.

Maria do Carmo foi carregada para o quarto. Estenderam-na em uma marquesa. Pingava-lhe de todo o corpo um suor copioso e frio; tinha o ventre duro como pedra. Raimundo fez darem-lhe azeite doce e aconselhou que mandassem comprar, quanto antes, eletuário de sena. Correu-se a chamar o médico na cidade.

A doente voltou a si, mas sentia cólicas horríveis, comichão por todo o corpo; queixava-se de grande secura, e delirava de instante a instante. Daí a meia hora vieram de novo os vômitos; cresceram-lhe as agonias; aumentavam-lhe os rebates intestinais. A pobre velha arranhava a palhinha da marquesa, cravando as unhas na madeira.

Em tomo dela fazia-se um silêncio aterrador. Afinal chegou-lhe a reação: deu um arranco dos pés à cabeça e ficou logo imóvel.

Raimundo pediu um espelho; colocou-o defronte da boca de Maria do Carmo, observou-o depois e disse secamente:

— Está morta.

Foi um berreiro gera,. Etelvina caiu para trás, estrebuchando num histérico; Manuel arredou a filha daquele lugar Acudiram todos os de casa Os ânimos que o vinho entorpecia, acordaram como por encanto. A situação incontinente tornou-se lúgubre.

O Cordeiro, já em seu juízo perfeito, ajudou a carregar o cadáver, afastou cadeiras, arrastou uma cômoda, e preparou a encenação da morte. Invadiram o quarto. Os pretos do sítio chegavam-se com medo apavorados, resmungando monossílabos guturais; o olhar parvo, a boca aberta.

Em menos de duas horas, Maria do Carmo estava estendida em um canapé, iluminada por velas de cera, lavada, vestida de novo e penteada Sobre a cômoda, perto dela, a inalterável imagem de São João Batista, e, ajoelhado no tijolo, com o olhar fito no santo, o cônego, de braços abertos, balbuciava uma oração.

Manuel expediu recados para a cidade; seus caixeiros partiram todos; Maria Bárbara fechara-se no quarto e pusera-se a rezar com desespero de beata velha. A agitação era comum. Só Amância conservava o sangue-frio; estava no seu elemento - ia e vinha, deva ordens, dispunha tudo, aconselhava, ralhava, chorando quando era preciso, consolando os desanimados, dizendo rezas, citando fatos, governado, repreendendo aos que não obedeciam, e pondo ela mesma em prática as suas prescrições.

As dez horas da noite, uma rede de algodão, enfiada numa taboca de muitas cores, cujas extremidades dois pretos vigorosos sustentavam no ombro, conduzia o cadáver de Maria do Carmo para o sobrado do Largo das Mercês, com grande acompanhamento de homens e mulheres. Benedito ia na frente, iluminando o fúnebre cortejo à luz ruiva de um enorme archote alcatroado que ele erguia sobre a cabeça.

Lamparinas caminhava atrás furioso, fazendo voar ante seus pés as pedrinhas soltas da estrada, e dando-se aos diabos pela má observância do antigo e confortador provérbio: “O padre onde canta lá janta!”

CAPÍTULO IX

Logo depois da partida do cadáver, Maria Bárbara e Ana Rosa desceram do sitio, em um carro que se mandou buscar; foram diretamente para o Largo das Mercês. Manuel e Raimundo vieram de bonde e seguiram para casa. Mas o rapaz, apesar de fatigado, não conseguiu repousar. Precisava de ar livre. Mudou de roupa e tomou a sair.

(continua...)

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