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#Romances#Literatura Brasileira

O Coruja

Por Aluísio Azevedo (1895)

Durante o café conversaram. O homem declarou que era muito desgraçado: fora trabalhar, tinha o ofício de ferreiro, mas estava preso havia mais de três anos e só agora conseguira fugir, depois de frustradas tentativas, que só lhe renderam novas penas e novos castigos. - Por que o prenderam?

- Porque eu matei minha mulher. Havia muito tempo que andava desconfiado dela, um dia escondi-me, e vi entrar um homem no meu quarto e, quando a descarada apareceu para se deitar com ele, meti-lhe uma faca na barriga!

- E o sujeito?

- O sujeito ficou atrapalhado, atirou-se, sem saber o que fazia, por uma janela e foi cair embaixo meio morto. Um diabo de um vizinho que eu tinha, foi quem me entregou à Polícia. Fui preso na mesma ocasião. - E agora, você o que tenciona fazer?

- Não sei. Dizem que o Brasil vai ter guerra com o Paraguai, eu marcharei para a guerra. Fugi. Porque todos os dias pensava em fugir e afinal apareceu uma ocasião. Anteontem, às Ave-Marias, o carcereiro foi à minha célula buscar como de costume a tigela em que ele dá comida à gente; mas, em bem o cabra não se tinha abaixado para a apanhar, ficou mais roxo que uma beringela e caiu de focinheira no chão, sem tugir, nem mugir. Eu peguei-lhe assim pelo braço e vi que o bruto estava mole; então saquei-lhe fora esta farda, que é a que ele lá usam, vesti as calças do bicho, pus o boné na cabeça, e por aqui é o caminho! Mas um diabo de um guarda desconfiou da marosca e eu - Pernas para que te quero! Foi o meu mal! Abri pelo corredor, ganhei a rua, mas o demônio do guarda atrás. Enfiei pela primeira porta que encontrei, era a casa de uma quitandeira, varei até o quintal, havia um muro, saltei-o, estava em um cortiço, havia um cercado, atravessei-o nem sei como, e vi-me de repente em um curral; havia um telheiro, trepei-me para ele e dai passei a um telhado mais alto. Atravessei quatro ou cinco telhados, correndo como um gato e em risco de me levar o diabo a cada instante! Afinal ouvi gritar na rua: "Ali está ele!" E vi seis soldados que escoravam a casa. Então, segurei-me a uma goteira, desci, pilhei-me em outro telhado e deste passei adiante; mas os policiais me acompanharam da rua, apitando, cercando os quarteirões, entrando pelas casas e, quando eu dei fé havia povo por toda a parte, nas chaminés, nas árvores, nos muros, e atiravam-me pedras e pedaços de pau enquanto outros se divertiam com a minha pelotica! Já estava para ser agarrado, porque não tinha mais forças e via-me cercado, quando por um acaso do céu escorreguei pelo telhado dessa casa que fica ali ao pé e vim ter àquela janela por onde entrei!

O assassino tomou fôlego e acrescentou depois, mudando de tom:

- Quis Deus que eu encontrasse uma alma boa; aqui estou e não me vexo de dizer a verdade. Vossemecê pode agora fazer de mim o que entender; não lhe fico querendo mal por isso!

- Pode ir em paz, respondeu o Coruja; mas, se quiser ouvir o meu conselho, espere um pouco, não saia já. Olhe, ali tem uma bacia com água; lave-se, que você está sujo de sangue; depois tire essa roupa que o compromete, e vista a que lhe vou dar. Naquele toucador há pente. escova e óleo para o cabelo; arranje-se, durma um pouco e depois então saía. Para a sua viagem não lhe posso dar muito, mas aqui tem cinco mil réis.

- Vossemecê algum dia foi criminoso? perguntou o assassino.

- Criminoso somos todos nós, respondeu o Coruja.

- Mas nunca matou ninguém?

- Creio que não...

- Deus o conserve assim, moço!

O assassino lavou-se e vestiu uma roupa do Caetano e, depois de guardar o dinheiro que lhe dera André, beijou as mãos deste e saiu.

– Olhe, disse-lhe o rapaz que o fora acompanhar até à escada. Faça por ser bom e, quando precisar de qualquer coisa, apareça. Adeus.

XVI

Na manhã seguinte, em que Teobaldo encarregou ao Coruja de despachar Ernestina, viuse este em sérios embaraços.

Que diabo havia ele de dizer àquela mulher?... Contudo era urgente tomar urna resolução, porque as coisas não podiam continuar pelo jeito que levavam...

A rapariga, mal calculou pelo exórdio onde chegaria o sermão de André, ergueu-se do lugar em que estava, avançou contra ele de punhos fechados e gritou-lhe sobre o nariz: - Bem desconfiava eu! Você mesmo é quem me anda intrigando com o outro, seu cara do diabo! Desconfiei, e eu, quando desconfio, não me engano!

- Não diga assim...

- Peste! Um bicho feio, que parece estar sempre a maquinar maldades!

- As aparências muita vez enganam...

- Qual! enganam o que? Pensam e conversam lá o que bem entendem a meu respeito e depois vem este basbaque me atenazar os ouvidos: "Porque a senhora deve convir, porque a senhora deve perceber que isto prejudica Teobaldo!" Prejudicar em que?! Eu porventura exijo dele alguma coisa! Já alguma vez lhe pedi dinheiro?

Vocês falam de boca cheia! Onde iriam descobrir uma rapariga de minha idade, jeitosa corno eu sou e que nada mais pede do que um pouco de delicadeza! Brutos! Ainda por cima se queixam, como se eu lhes desse prejuízos!

- Desculpe, mas dá..

(continua...)

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