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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

— Poeta?! Esta palavra para mim não tem a significação que em geral lhe emprestam. Todo o homem é poeta enquanto não atrofia a sua alma com as paixões brutais. Poeta! Mas o que é não ser poeta?!... Como se pode admitir um coração insensível ao que há de divino espalhado por toda a natureza?... Como é possível conceber a idéia de que alguém passe nesta existência, sem notar o que ela tem de ideal?!...

— Mas a realidade de nossa vida é tão dura e prosaica!... objetou Gregório.

— Que realidade? As que eu conheço são todas encantadoras! A vida, quanto mais difícil, quanto mais trabalhosa, quanto mais áspera, tanto mais me fascina! Eu seria incapaz de amar verdadeiramente um homem feliz! Eu amo a todos os desgraçados!

— Quem me dera ser o mais desgraçado dos homens!... balbuciou Gregório, com os olhos perdidos pelo espaço.

— Para quê?... interrogou Olímpia, quase sem mexer com os lábios.

— Para merecer o amor de um coração como o seu! para esquecer-me de tudo, pensando nesse amor ideal, independente, sem leis e sem senhor! para poder um dia adormecer embalado por um dos seus sorrisos e despertar cantando, esquecido deste miserável mundo em que vegeto!

— O senhor tem idéias de louco!

— Talvez. Mas a respeito da loucura, digo o que V. Exa. me disse a respeito da poesia: Quem não será louco?! Que é não ser louco?! Que é esquecer as leis das conveniências e calcar debaixo das suas asas tudo aquilo de que os homens vulgares fizeram o seu ideal e a sua ambição?! Que é isso senão loucura?!...

— O Sr. delira! disse Olímpia.

— Sim! confirmou Gregório. Que é o amor senão um delírio?...

Nisto, foram interrompidos pelo comendador. Os dois moços calaram-se de súbito. O velho observou o desenho, cumprimentou o autor, falou de amigos seus que desenhavam também com muito gosto, e profetizou lisonjeiramente que Gregório seria um segundo Mota.

Só na seguinte semana, um acontecimento, verdadeiramente imprevisto por todos, colocou aqueles dois, com as suas filosofias, em situação muito mais delicada e séria.

Foi um passeio à gruta.

CAPÍTULO XVIII

A GRUTA

A gruta! Mas saberá o leitor porventura o que é a gruta que nos referimos? Acaso já viajou o leitor pelos difíceis montes do Rio Comprido, para saber onde fica esse belo tesouro de pedra, que jaz oculto por entre a luxuriante vegetação daquele arrabalde? Se ainda não gozou tal espetáculo, como é muito natural, tenha a bondade de seguir os passos de Gregório, porque este, de braço dado à cismadora Olímpia, vai empreender essa bela excursão.

Estamos em dezembro. O duvidoso relógio do Papá Falconnet balbuciou há pouco duas horas da tarde. É domingo, e, apesar da estação, o sol não constrange a quem deseja passear. Há um doce recolhimento na floresta, que nasce aos fundos da Avenida Estrela; dir-se-ia que está para anoitecer, tão nuviosa vai a atmosfera. As aves saltam cantando na espessura da folhagem e a luz do céu filtra-se por entre as nuvens, derramando-se suavemente pela terra.

Faz gosto sair de casa; meter uma flor na gola do paletó de brim, tomar um guarda-sol de linho, derrubar o chapéu de palha sobre os olhos, e enveredar por entre os tortuosos caminhos do campo.

É bom levar consigo uma forte bengala ou pedaço de bambu, porque o terreno é muito acidentado e sujeito a cobras. Às vezes quase que se torna impraticável a viagem: encontram-se ângulos de pedra nua, que surgem por entre a verdura como os cotovelos de um mendigo por entre mangas rotas.

Em tais casos o remédio é subir de gatinhas e passar depois a ponta do bambu ao companheiro para lhe poupar aquele incômodo. Outras vezes são os espinhos que se apresentam para obstar a passagem; entra então a gente, deixando-se arranhar à vontade pelos espinhos, e grita para trás aos companheiros que se acautelem.

Se estes porventura são pessoas de expediente, afastam com a bengala os galhos espinhosos, e passam adiante; se o não são, melhor será que voltem para casa e se deixem de passeios à gruta, porque depois dos espinhos aparecem cipós da grossura de todos os dedos, e os quais se nos enredam pelas pernas, pelo tronco e pelo pescoço, só nos deixando continuar o passeio depois de os havermos cortado com um facão.

Foi nestas circunstâncias que se achou Olímpia no tal domingo a que nos referimos.

À mesa do almoço, em conversa, se falara da gruta.

— Que gruta?... perguntou ela, já mordida de curiosidade.

O Papá Falconnet tratou logo de explicar o que vinha a ser a gruta, encarecendo-lhe o valor, conforme era de seu costume sempre que se referia a qualquer objeto relacionado com a Avenida Estrela.

— Vou visitá-la, disse a filha do comendador, com um gesto resoluto.

— Mau! resmungou o pai, sem ânimo de a contrariar. E acrescentou em voz alta: — Faço idéia do que não será a tal gruta!...

— Em todo o caso tenho vontade de ir vê-la, e irei! respondeu Olímpia.

— Não sei se V. Exa. fará bem... observou o padre Almeida, que até aí parecia não haver prestado atenção à conversa. Aqueles caminhos são perigosos...

E, como Olímpia o interrogasse com um gesto, ele acrescentou:

(continua...)

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