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#Romances#Literatura Brasileira

Filomena Borges

Por Aluísio Azevedo (1884)

Todavia, nunca se envolveu nem de leve com a política de seu país; nunca se declarou mais simpático a este ou àquele partido. Até aos quarenta anos cedera os seus votos ao primeiro amigo que o mendigasse, sempre indiferente aos atos do governo, aos negócios do estado, chegando até a evitá-los instintivamente, como uma mulher honesta evita por impulso natural o contato de certas pessoas.

Amava os homens pela pureza do caráter e não pela cor do partido ou pela posição social. Se a mulher não o tivesse obrigado a comprar um título, não seria ele de certo quem se havia de lembrar de semelhante patacoada.

Desde pequeno habituado ao trabalho livre, sem jamais precisar do governo, a quem sempre considerou um parasita importuno, educado por um pai da mesma forma trabalhador e independente, Borges nunca se lembrou de pôr a sua consciência em leilão, nunca precisou dobrar aquela grossa cabeça de plebeu às conveniências desta ou daquela idéia. Além disso, quando se viu sem recursos de vida e abandonado na mais dura miséria, tudo, nesse momento, lhe teria passado pelo cérebro, menos a lembrança de que possuía uma pátria, para a segurança da qual tinha ele contribuído, durante muitos anos, com o seu esforço e com a sua coragem.

De sorte que, lançado agora bruscamente, por um capricho da mulher, aos pés de um soberano, que, até ai, era para ele simplesmente um princípio, que a gente aceita, para não se dar ao trabalho de dizer a razão por que não aceita, atirado assim de improviso aos degraus de um trono, que nada de comum podia ter com ele, um trono de que ele nada podia esperar por motu próprio, o Borges sentiuse como esmagado por uma desgraça que o humilhava, sentia-se coagido, preso, inutilizado, e, cada vez mais, furioso de sua vida.

Entretanto, obedecia à fatalidade das circunstâncias que o arremessavam àquela posição falsa e constrangedora.

Ia tudo suportando, sem ânimo de reagir: fazia-se cortesão a pouco e pouco, habituava-se ao sorriso do Paço; acompanhava os outros na adulação e no servilismo; até que, de repente, sem esperar por isso, recebeu como um augusto favor ou talvez como recompensa do seu aviltamento, a nomeação de "superintendente dos trabalhos privados do Paço", com um bonito ordenado, casa, comida, roupa lavada e engomada.

A mulher atirou-se-lhe ao pescoço: — Bravo! bravo, meu amor! Principias maravilhosamente!

— Mas eu, em consciência, não devo aceitar este cargo... objetou o Borges muito atrapalhado. — Eu não entendo nada disto! Não sei o que é ser superintendente, não sei quais sejam as atribuições desse lugar! Não sei finalmente o que tenho de dar em troca do ordenado que me oferecem!

Feriu-se uma tremenda discussão entre os dois.

— Está bom, está bom! disse afinal a baronesa. — Acho que deves guardar essas discussões para quando estivermos em casa — neste hotel ouve-se tudo o que se diz um pouco mais alto!

Borges calou-se, mas, receoso de fazer algum disparate, saiu à procura do Guterres. — Precisava desabafar! Arre!

— Não dês com o pé na fortuna' disse-lhe o amigo. — Que diabo queres tu então, homem de Deus?!...

— Eu sei cá o que quero! Quero fazer a vontade a Filomena, mas isso, já se vê, sem me colocar na crítica situação em que me acho! Eu lá sei p'ra que lado fica o serviço de que me querem encarregar!...

— E que necessidade tens tu de entender disso?... Acaso alguém te reclama habilitações?... Alguém te pede competência?... Porventura os mais que são nomeados para os outros cargos apresentam-se aptos para desempenhá-los?... Ora, por amor de Deus! Estás na aldeia, e não vês as casas? Quem sabe se pretendes reformar os costumes!... Quem sabe se queres ser a palmatória do mundo!...

— Nada disso me convence de que devo aceitar um cargo, sem ter habilitações para exercê-lo!

— Mas, João, vem cá, repara que estás no Brasil e lembra-te de que aqui os empregos de confiança do governo, sejam eles de que gênero for, nada tem que ver com as aptidões individuais de quem os vai desempenhar! Que diabo! Não vês aí todos os dias ministros da guerra, que não conhecem patavina do militarismo? Não vês que os ministros da agricultura não sabem para que lado fica a lavoura; que o ministro do império, a cargo de quem está a instrução pública, já faz muito quando sabe ler e escrever corretamente?... Não vês que o ministro da fazenda não pesca nada de economia política; que o da pasta de estrangeiros não entende coisa alguma de política internacional? E assim o da marinha! e assim todos eles! e assim todo o mundo! Oh!

Essas razões, longe de convencerem o Borges, mais lhe irritavam os nervos.

— Não! bradou ele, furioso. Não! Não posso, não devo aceitar semelhante cargo! seria uma velhacaria! Não quero!

— Bem diz o provérbio que Deus dá nozes a quem não tem dentes! sentenciou o outro. — Ah! se fosse eu o nomeado; havia de te mostrar que...

— Queres tu ficar com o emprego?!... perguntou o barão, limpando o rosto, que se inundava o suor.

— Ora! Se fosse possível, que dúvida!... — Vais ver se é ou não possível!

(continua...)

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