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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

E, para mostrar a sinceridade daquela indiferença, ria com exagero e dava a sua palavra de honra em como não tinha paixão por homem nenhum deste mundo. Havia de casar sim, porque isso era necessário, mas não que preferisse este ou aquele. Todos eles eram a mesma coisas uns tipos!

Amâncio defendia o seu sexo, experimentando já pela rapariga uma nascente repugnância instintiva.

Quando, às três horas da madrugada, os dois estudantes se despediram, Campos, entre muitos oferecimentos, pediu ao “Sr. Dr. João Coqueiro” que voltasse qualquer dia, mas com a família. Ele tinha nisso muito bom gosto.

Coqueiro prometeu fazer-lhe a vontade e retirou-se com o amigo.

* * *

Quase nada conversaram pelo caminho. Amâncio parecia aflito por se meter na cama; uma vez, porém , recolhido ao seu novo quartinho do segundo andar, não sentia as menor disposição para dormir.

A circunstância de saber que Lúcia estava ali tão perto, a quatro ou cinco passos, mas inteiramente fora do seu alcance, o indispunha como se fosse uma pirraça levantada com o fim único de o afligir.

Não resistiu ao desejo de ir, como da outra vez, espreitar pela fechadura do quarto em que ela morava, e encaminhou-se sorrateiramente para o n.° 8. Nesta tentativa, porém, foi ainda mais infeliz do que da primeira, porque a janela do corredor ficara aberta, e Amâncio principiou a espirrar , constipado.

O doente do n.° 7 tossicava, de vez em quando.

Amâncio voltou ao quarto, muito aborrecido. Abriu um livro, mas repeliu-o logo, com tédio. Lembrou-se de fazer café. (Na véspera comprara uma maquinazinha e os apetrechos necessários para isso.) — O melhor, porém, seria melhor tomar o café depois de um banho Deu lume à máquina e desceu ao primeiro andar, já despido e rebuçado no lençol.

Queria passar pelo quarto da mucama, que ele agora sabia ao certo onde era; mas, na ocasião em que entrara na sala de jantar, deteve-se cautelosamente com a presença de um vulto que acabava de aparecer do lado oposto. A custo reconheceu Coqueiro; do lugar onde se achava podia observar sem ser visto. O dono da casa atravessou a pé a varanda e, encaminhando-se para o fundo do corredor, sumiu-se no tal sítio, por onde justamente queria passar o outro.

— Será possível?...considerou Amâncio, que se adiantara precatamente para certificar-se do que vira.

— Que grande velhaco!

E era aquele tipo que, “por moralidade não admitia em casa certas visitas!...”

— Ah!, meu pulha! Pensou o estudante.

— Como podia agora tomar a sério a casa de Mme. Brizard?...Que juízo devia fazer de toda aquela gente? E Amelinha? o que vinha a ser aquela Amelinha?...

Dois espirros cortaram-lhe a teia dos raciocínios, e em seguida um calafrio muito penetrante lhe percorreu o lombo. Sentiu-se indisposto; não obstante, desceu ao banheiro. — Aquilo desapareceria com um pouco d’água pela cabeça.

Mas, quando voltou ao quarto, já lhe doía o corpo e tinha as pernas entorpecidas levemente.

Tomou uma chávena de café, bebeu um gole de conhaque, e meteu-se na cama, tiritando.

Não se pôde erguer no dia seguinte. Coqueiro apresentou-se-lhe no quarto, logo pela manhã, muito sobressaltado com os incômodos do querido hóspede. Estava mais inquieto do que se tratasse de salvar a vida de um parente insubstituível.

Perguntou se Amâncio queria médico; se precisava de alguma coisa. — Que diabo! Dispusesse com franqueza. Ele estava ali às suas ordens!...

O doente apenas desejava que o amigo desse um pulo à agência dos vapores e trouxesse o constante de um conhecimento , que lhe pediu para procurar nas algibeiras do fraque.

Coqueiro obedeceu prontamente.

Era um pacote de doces que lhe enviava a mãe. Havia frasco de bacuris em calda. Muricis, cajus cristalizados e buritis em massa para refresco. Amâncio , logo que o colega voltou com o presente, fez acondicionar tudo sobre a mesa, defronte de sua cama.

Nesse instante, Mme. Brizard e Amelinha invadiam-lhe o quarto, ávidas de informações.

— Que tinha o Sr. Vasconcelos? — Que sentia? Como lhe aparecera febre?

E a francesa, depois de consultar o pulso ao rapaz, afiançou que aquilo não valia nada. Ele que tomasse um suadouro, que se deixasse ficar na cama e havia dever que no dia seguinte estava pronto.

Lambertosa, chegando logo em seguida, pediu ao doente que aceitasse uma dose de acônito e deixasse o resto por sua conta.

Mas a febre recrudesceu depois do almoço. Amâncio queixava-se de dores na cabeça, na espinha e nos quadris.

— Tudo isto é ar! Afirmou o gentleman autoritariamente. — Acônito! Dê-lhe com o acônito!

Foi Amelinha a encarregada de ministrar ao doente, de hora em hora, uma colher do remédio.

Mme. Brizard falou muito da inconstância do clima do Rio de Janeiro, das precauções que se deviam tomar contra as umidades; do risco que havia em comer certas frutas e, afinal, retirou-se, tendo apalpado ainda uma vez o pulso e a testa do hóspede.

(continua...)

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