Por Aluísio Azevedo (1891)
— Sim... sim... por que acreditar que esta miserável existência de cura de aldeia é a vida real, e a outra não? a outra que aliás é tão superior?... Sim! sim! Ou ambas são vida, ou são ambas sonho!... A única diferença é que lá eu vivo e gozo, ao passo que aqui... apenas choro o sofro... Ah! sonho por sonho, prefiro o outro! no outro sou feliz, sou livre, sou um homem como qualquer! não tenho senhor! não tenho Deus! Lá — eu amo — eu sou amado! Sim! sim! Prefiro a outra vida! Corramos aos braços de Alzira!
E encaminhou-se para o quarto com avidez.
Mas frei Ozéas, que lentamente se aproximara do discípulo, fê-lo estacar, interpondo-se-lhe na passagem.
— Oh! meu pai? ... exclamou o pároco.
— Ângelo! disse o frade, abrindo os braços, enquanto as lágrimas lhe corriam pelas longas barbas brancas.
— Meu pai aqui!
— Sim! Venho em teu socorro, meu filho!
E Ângelo atirou-se-lhe nos braços, soluçando.
CAPÍTULO XIII
A confissão
Passado o abalo da primeira impressão, um constrangido silêncio fez entre Ângelo e Ozéas.
O presbítero tinha os olhos baixos, como um criminoso, e o outro acompanhava-lhe os menores movimentos, tremulando a cabeça.
— Sim, meu filho... disse o velho afinal, venho em teu socorro!... Dize-me como estás e dize-me o que sentes...
Ângelo não ergueu os olhos.
— Eu?... Nada!... tartamudeou. Creio que estou bom...
— E eu tenho a certeza do contrário, meu pobre Ângelo ...
E Ozéas acrescentou a um gesto negativo do discípulo:
— Ah! Não tentes enganar-me!... Tens, seja qual for, uma preocupação bem grave, que inclitamente procuras esconder aos meus olhos! ... Há alguns instantes que te observo, que acompanho todos os teus movimentos, cheguei mesmo a ouvir muitas palavras do teu monólogo de louco! Ah, sim! tens uma dor secreta, e eu hei de arrancar-te e destruí-la, custe o que custar!... Vamos! É melhor que fales com franqueza!
— Nada! Não tenho nada!... insistiu o pároco, visivelmente perturbado.
— Negas?!... Desconheço-te, Ângelo!... Já não és o mesmo casto discípulo, que eu cerquei durante vinte anos com a dedicação dos meus desvelos e da minha fé!...
— Creia que se ilude, meu pai!...
— Tu é que me queres iludir, Ângelo... Ah! mas não o conseguirás! Não suponhas que vim aqui às apalpadelas... Tenho-te acompanhado de longe, desde que a enfermidade me obrigou a separar-me de ti...
E recuperando de súbito o seu antigo ar enérgico, exclamou:
— Exijo que me confesses abertamente a causa deste teu estado atual!
— Mas...
— Exijo!
— Mas que lhe hei de dizer?...
— Fala-me, por exemplo, das conseqüências daquele estranho sobressalto, que te aconteceu quando celebravas a tua primeira missa... Ainda até hoje não me deste conta disso!...
Ângelo estremeceu, balbuciando alguns sons ininteligíveis . E Ozéas acrescentou:
— Sim, nunca me confessaste que ele foi provocado por uma mulher que se achava na igreja...
O pároco estremeceu ainda.
— E por que tremes agora?... bradou o velho. Por que abaixas os olhos?... Por que desse modo empalideces?... Por que as lágrimas estão a correr-te pelas faces?... Ah! eram bem fundados os meus receios de então!... são bem certas as minhas desconfianças de agora!...
— Desconfianças?... De que?...
— De que Alzira te preocupa ainda!.
— Alzira já não existe...
— Sim, já não existe para o mundo... Quem sabe, porém, se ela não continuará a existir para a tua imaginação enferma e desvairada?...
O pobre maço tomou-lhe as mãos.
— Por que diz isso, meu pai?. .
— Porque vejo e compreendo que uma idéia fixa te rói o cérebro e devora-te a razão! Quero saber o que é! Fala!
Houve uma pausa.
Ozéas prosseguiu, mudando de tom:
— É a primeira vez que bato ao teu coração, e ele se não abre logo de par em par!... Compreendo: já te não possuo... já não és o mesmo que foste para mim... já não és o meu filho submisso e casto!... Perdi tudo! Paciência! Nada mais me resta a fazer aqui... Adeus.
Ângelo prendeu-o nos braços.
— Perdoe! perdoe, meu pai!
— Então fala!
— Ah! se soubesses quanto eu sofro!.
— E não obstante ainda há pouco sustentavas o contrário... Bem vês que tenho razão!...
— Sim, mas, por amor de Deus, não exija que eu fale!...
— Ao contrário, quero que me abras o teu coração com toda a confiança, quero que mo despejes em confissão, como o fazias dantes!
— Mas é tão estranho o que se passa comigo!...
— Conta-me tudo!
— Sou um imperdoável pecador!
— Maior serias se não me falasses com sinceridade! ...
— Sou um desgraçado!...
— Não tanto, como se eu não estivesse agora a teu lado, disposto a salvar-te!...
— Mas o meu crime é traiçoeiro... só se apodera de mim durante a inconsciência do sonho...
Ozéas, fixou-o, e, concentrando a atenção, disse depois surdamente:
— Continua...
— Vou dizer-lhe tudo com franqueza!...
E Ângelo olhou para os lados, e acrescentou, abafando a voz:
— Vou contar-lhe tudo...
— Fala, meu filho...
— A perturbação que eu senti no dia em que me ordenei, era com efeito causada por uma mulher...
— Alzira...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. A mortalha de Alzira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16527 . Acesso em: 9 mar. 2026.