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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

Entretanto, a festa degenerada em orgia, arrastava­se já entre bocejos. Gabriel, negligentemente estendido numa preguiçosa, fumava, a olhar abstrato para a rapariga do Rêgo, nesse momento muito empenhada em descolchetar o seu espartilho, depois de ter desfeito de um dos sapatos; enquanto o seu extraordinário amante, ainda na sala de jantar, preparava em uma saladeira um formidável ponche, e mortecia a luz dos bicos de gás para dar mais realce às lívidas chamas do álcool. Alfredo queixava­se à Genoveva de que havia comido demais, e estava às voltas com a sua dispepsia. A boa mulher davalhe a beber água de melissa. E ouvia­se a voz arrastada de Gabriel, chamando com insistência por Ambrosina.

Gaspar, de braços cruzados ao fundo da sala, olhava para todos eles, com um ar sombrio. Só Genoveva dera com a sua presença, e desde então lhe acompanhava o movimento dos olhos.

Gaspar atravessou a sala e foi bater no ombro do enteado. Gabriel voltou a si e o encarou atônito.

— Avia­te! segredou o médico; temos que sair daqui imediatamente!

— Para onde?..

— Para o diabo, mas avia­te!

Gabriel levantou­se, cambaleando.

— Para onde me queres levar?...

— Em caminho conversaremos. Anda dai!

E Gaspar segurou­o pelos braços, na esperança de aproveitar o estado de quase inconsciência de Gabriel.

— E Ambrosina?.. perguntou este.

— Virá depois.

— Não! Eu só irei com ela!

— Ela não pode vir!

— Por quê?...

— Porque não!

— Então, larga­me!

— Gabriel, atende ao teu único amigo! Repara que estás cercado de vergonhas! Olha que é a perdição que se respira aqui!

— Se Ambrosina merecesse tal dedicação, vá! porém, ela, desgraçado, zomba de ti! engana­te com outro!

— Mentes, miserável!

— Não sei! deixa­me!

— Nada de bulha, e ouve o que te digo... Prometes acompanhar­me, se eu te provar a infidelidade de Ambrosina?...

— Prometo!

— Pois vem cá. Não faças rumor com os pés... atravessemos este corredor... Bem! agora passemos por este lado do jardim... Espera; reprime um pouco a respiração e abafa os teus passos... Agora entremos nesta alameda... Aí! Olha por entre estes galhos... O que vês?

A própria embriaguez e a sombra das folhas não permitiram logo a Gabriel reconhecer a amante nos braços de Melo Rosa; mas, pela voz dos dois e pelo que diziam, certificou­se num relance de que era traído e precipitou­se com fúria sobre eles, exclamando como um louco:

— Infames! Infames!

Gaspar, porém, senhoreou­se vigorosamente do enteado, enquanto Ambrosina e o Melo corriam pelo jardim.

— Larga­me! bradava Gabriel, procurando escapar das mãos do padrasto; larga­me, ou enlouqueço!

— Não! daqui sairemos juntos. Nem voltarás lá dentro; nada tens que fazer nesse covil de miseráveis! Saiamos pelo portão do jardim, amanhã mesmo partiremos para o Rio de Janeiro!

— Deixa­me! deixa­me! insistia Gabriel.

Melo Rosa conseguiu ganhar a rua e fugir, justamente quando o amante iludido lograva escapar dos braços do amigo.

Esta cena levantou grande rumor, pondo em sobressalto os que estavam na casa. Mas na ocasião em que Gabriel se dispunha a perseguir o Melo Rosa, ouviu­se um bramido terrível e em seguida um grito de Ambrosina:

— O louco!

Com efeito, era Leonardo que surgia. Há dois dias fugira do hospital e vagava foragido pelas ruas do arrabalde, até que o acaso lhe fizera dar com a casa da mulher.

Genoveva tivera tempo de fechar a porta da sala, mas o doido, com um empurrão, metera­se dentro, produzindo formidável estrondo.

O amigo do Melo, que dormia num canapé, acordou sobressaltado e corria à toa pelos quartos. Alfredo, tiritando de susto, ganhou um canto da sala de jantar e escondeu­se. A sujeita do Rego, a suster as saias, gritava que a tirassem daquele inferno, e Genoveva, tratando de fugir, puxara do seio um rosário e rezava atrapalhadamente as orações que lhe vinham à boca.

Ambrosina, entretanto, ao reconhecer a figura terrível do marido, correra para o jardim, mas, dando aí com Gaspar e Gabriel, voltara estonteada, exclamando, a abraçar­se com a mãe:

— Salve­me! Salve­me! Todos eles me querem matar! Salve­me, por amor de Deus!

Leonardo havia parado no meio da casa, imóvel, tinha na mão o trinchante que apanhara da mesa.

A figura, o gesto, a voz, tudo nele era horrível. Cobria­lhe a cabeça e a cara uma porção emaranhada de cabelos secos e negros. O olhar luzia­lhe com cintilações vermelhas, e as suas narinas pareciam procurar a carniça pelo faro.

A casa converteu­se em um inferno de exclamações. De todos os lados gritos, pragas e ameaças.

Entretanto, o doido percebeu Ambrosina na sala de jantar, e soltou uma gargalhada.

— Até que afinal te encontro! berrou ele.

A mísera olhou em torno de si e reparou, trêmula, que a sala estava fechada e quase às escuras.

O doido correu para ela, empunhando a faca.

Ambrosina ia perder os sentidos, mas notou que a porta da dispensa, que dava para a sala de jantar, estava aberta, e a esperança de alcançá­la reanimou­a, porque seria fácil embastilhar­se lá dentro, deslocando uma prateleira volante que aí existia logo à entrada.

(continua...)

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