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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

- Eu quero contar a vosmecê a historia como foi. Seu Pedro de Lima foi quem me fez esta proposta, com a promessa de minha liberdade. Vosmecê bem pode saber que todo cativo deseja ficar livre, ainda que seja muito bem tratado por seu senhor, como sou eu na escravidão. Eu prometi fazer isso que ele disse, mas depois que ouvi suas palavras, estou arrependido; e posso jurar que não cumprirei a promessa que fiz a seu Pedro.

- Estarás tu dizendo a verdade, Germano?

Eu sou negro, sinhá Marcelina, mas não minto. Pode vosmecê crer que estou muito arrependido da minha ruim ação. Só uma coisa lhe peço: é que não vá dizer isso à minha senhora.

- Se eu quisesse fazer mal, já tinha corrido para lá a meter-lhe tudo no ouvido. Mas tu sabes que eu tenho bom coração. Antes quis aconselhar-te do que fazer-te a cama, mesmo porque esperava que mudasses de parecer. Tu estás muito moço; não te apresses que hás de Ter a tua liberdade, não pela mão de Pedro de Lima, ou do Tunda-Cumbe, mas pela mão de teu senhor mesmo. Vai-te embora descansado, que nada por minha boca se há de saber do que temos conversado. Pela boca de Pedro de Lima é que eu não respondo. O negro levantou o saco, pô-lo novamente no ombro, e disse:

- Pela boca dele, sinhá Marcelina, respondo eu. o que ele acaba de fazer comigo, há de pagar-me com língua de palmo e meio.

- Olha bem, não te vais espetar em alguma tragédia. O cabra é malvado e traiçoeiro.

Ele é cabra, e eu sou negro, mas porém se ele não andar muito ligeiro, eu passo-lhe o pé adiante. Ele não sabe com que negro está pegado. Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo. Ainda bem Germano não tinha entrado na mata, quando novo vulto se mostrava na estrada, do lado oposto.

- Não te recolhas já, Marcelina, disse o vulto de longe.

Quem falava era o padre Antonio.

- É vosmecê, seu padre? perguntou a cabocla admirada.

- Que será isso? disse Lourenço aparecendo. Seu padre por aqui!

- Vocês admiram-se, hein? E não deixam de ter sua razão.

Os três tornaram para dentro da casa. Marcelina, que foi a ultima a fazê-lo, encostou a porta de baixo, pois a sala era muito pequena, e daí mesmo, com os olhos na estrada e nos outros dois interlocutores, alternativamente, fez-se toda ouvidos. O padre então sentou-se em um tripeça, ao pé da mesinha da sala, enquanto Lourenço, de pé, com as mãos sobre o espeque onde descansava a porta da janelinha, quando estava aberta, esperava impaciente que o sacerdote quebrasse os selos do mistério que o levava ali.

- Venho pedir-te um serviço que, na ausência de teu pai, só tu me poderás prestar, Lourenço.

- Vosmecê não pede, manda, seu padre, respondeu o rapaz.

- Como tenho de fazer uma viagem esta madrugada para fora de Goiana, quero que vás agora mesmo ajudar o José a arrumar as minhas malas. Olha. Põe tudo o que é meu dentro delas. Deixa só o que absolutamente não puder ir.

- Se vosmecê quer, vou eu, disse Marcelina. Lourenço não sabe fazer bem estas coisas.

- Sabe, sabe, respondeu o padre. Demais eu tenho que te falar. Vai, Lourenço.

Quando se acharam sós o padre Antonio e Marcelina, disse aquele a esta:

- Marcelina, venho fazer-te uma confissão tão verdadeira e sincera como se a fizesse a um padre do Senhor.

- Uma confissão! Quem sou eu para merecer tanta honra e confiança?

- O que tu és, bem o sei eu. Tu és merecedora de honras e distinções muito mais altas do que esta, porque em ti a virtude fez sua morada, e a honestidade dá seus saudáveis frutos. Todos os elogios da terra ficariam ainda aquém do teu merecimento. O lar domestico ainda não encontrou nem encontrará jamais quem o represente melhor do que tu o representas.

- Seu padre está exagerando.

- Não estou, não. Há quatro anos que moro no Cajueiro. estou por isso habilitado a conhecer as tuas qualidades, a saber os teus sacrifícios, a admirar a rara beleza de tua alma. Mas venhamos já ao que importa. De duas partes se compõe a minha confissão. Começarei pela segunda. Estou-me vendo em uma colisão cruel. Avalia por ti mesma. Não viste entrar hoje em minha casa o sargento-mór? - Vi, sim senhor.

Veio pedir-me, antes impor-me, que eu partisse hoje até amanhã para Goianinha, a fim de, por meio de praticas publicas, chamar ao partido dos nobres o povo que se declarou e tomou armas pelos mascates. Se o pedido fosse exclusivamente dele, eu acharia logo meios de escursar-me, posto que são muitos os obséquios e as atenções que me prendem ao sargento-mór. Mas infelizmente não é assim; e o sargento-mór foi portador de uma carta em que o bispo suplica que eu vá pacificar os ânimos daquele povo, e de lá siga até os limites da Paraíba com o mesmo fim. Alguém no meu caso recusaria este favor ao seu prelado e ao seu amigo? Ninguém. Pois eu acabo de recusar, quando já estava determinado a praticá-lo. Sabes porque recuei? Escuta lá, Marcelina. Não viste hoje de tarde sair de lá de casa um frade carmelita?-

- Não vi, mas Lourenço me disse.

(continua...)

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