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#Crônicas#Literatura Brasileira

Os Romances da Semana

Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)

O bilhete dissipou em parte a melancolia de Juliana.

Cândida retirou-se mais socegada, vendo a filha dirigir-se serena e quasi contente para a sala e dalli sentar-se ao piano.

Mas Juliana tocou apenas durante alguns minutos,porque de súbito seus dedos ficarão immoveis sobre o teclado, e seus olhos afogárão-se em pranto.

Logo depois ouvirão-se os passos de alguém que subia a escada.

Juliana enxugou as lagrimas, e, enfeitando o rosto com um mentiroso sorriso de alegria levantou-se para receber a pessoa qui ia chegar.

Fábio entrou na sala.

— Como vem risonho hoje! disse-lhe Juliana.

— Sim, Juliana, respondeu o mancebo; venho contente e feliz, porque achei um meio seguro para salvar-te do perigo que estavas correndo, — Salvar-me!... exclamou a moça aterrada.

— Eu não me enganei, continuou Fábio; Jorge de Almeida procurava seduzir-te.

— Seduzir-me !

— Juliana, vai buscar as cartas que esse miseravel te entregou, dizendo que erão escriptas por seu pai.

— As cartas ?.,. e para que ?...

— Para demonstrar-te que são falsas.

A moça correu como louca para dentro, e em breve voltou, trazendo as cartas.

Fábio examinou a lettra e repetio com segurança :

— São falsas.

— Oh! é impossível!... bradou a infeliz moça.

Fábio tirou do bolso algumas cartas que trazia, e mostrando as a Juliana, continuou;

— Estas sim são do pai de Jorge ; eu as obtive de um negociante que foi correspondente delle, e que deixou de o ser, aborrecido das exigencias e das indignidades desse mancebo.

Juliana, comparando as cartas, reconheceu á primeira vista a mais completa differença da lettra.

— E não é só isso, Juliana; ha mais alguma cousa.

— Que mais?... que mais'?... perguntou a moça, torcendo com força as suas mãos delicadas.

— Jorge de Almeida, proseguio Fábio, deve dentro de dous mezes casar-se com a filha de um rico capitalista desta cidade, e logo depois partir com a sua noiva para a Europa.

— Fábio! Fábio ! bradou Juliana com desespero ; dize-me que estás mentindo !...

— Não, respondeu Fábio ; não menti; affirmote que é exacto tudo quanto acabaste de ouvir.

A moça ajoelhou-se aos pés de Fábio, levantou para elle mãos supplicantes, e disse chorando :

— Oh!... assegura-me que mentiste!... é indispensavel que tenhas mentido, Fábio!...

essas cartas que me apresentaste não são verdadeiras ; este casamento de que me fallas é uma falsidade.... Oh!.... dize-me que estás mentindo, Fábio!...

— Juliana, eu juro pela minha honra e pela salvação das almas de meu pai e de minha mãi, que te disse a verdade e somente a verdade.

A misera jovem fitou um olhar desvairado no rosto de Fábio.

— E agradeço a Deus, continuou o mancebo, agradeço a Deus o ter-me concedido a gloria de descobrir tudo isso ainda a tempo de salvar-te.

— É tarde ! murmurou Juliana, mas em voz tão baixa que Fábio não poude ouvil-a; é tarde ! agora é muito tarde ! E cahio desmaiada.

XXII.

Juliana estava arrastando longos dias e tormentosas noites de arrependimento e de remorso.

Toda a esperança de felicidade e de futuro se apagara de uma vez para sempre no coração da infeliz moça.

As lagrimas que ella chorava escondida começavão a abrir um sulco em suas faces mimosas e bellas.

Seus labios não sorrião mais senão com um fingimento que a ninguém illudia.

Juliana sentia que era desgraçada, e que a sua desgraça era irremediavel.

Fábio tinha-lhe dito a verdade.

Depois da impressão terrivel que produzira em Juliana a noticia do proximo casamento de Jorge de Almeida, e a demonstração de falsidade das cartas que este apresentara em nome de seu pai, a moça concebera uma duvida consoladora, e abraçára-se com a idéa de que Fábio, inspirado por um vil e indigno ciúme, procurava enganala.

Em breve porém teve Juliana de reconhecer que fazia uma nova injustiça ao seu pobre mas honesto e extremoso amante,

Jorge de Almeida appareceu aos olhos da sua noiva, e delia ouvindo tristissimas queixas de mistura com a relação da sua perfídia e do seu crime, jurou que era victima de uma negra calumnia, e sahio precipitado, asseverando que voltaria antes de duas horas com as provas irrecusaveis de sua innocencia.

E, Juliana esperou duas horas, e depois dous dias inteiros inutilmente, porque Jorge de Almeida não voltou mais, e só em logar delle chegou no terceiro dia o desengano.

Jorge de Almeida escreveu uma carta a Cândida, mostrando-se resentido das suspeitas injuriosas de Juliana, e retirando por isso a palavra de casamento que lhe tinha dado.

O seductor não ousou escrever uma unica palavra a sua victima.

A despedida e desenganos erão feitos com selvatica rudeza; mostravão-se porém dignos da moralidade do algoz.

Cândida, acabando de ter a insolente carta, levantou colerica os olhos para o céo e imprecou vingança.

Juliana, que ouvira a leitura daquella horrivel

sentença que a condemnava, curvou a cabeça, e embebeu os seus olhos na terra, como se quizesse esconder á sua vergonha.

(continua...)

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