Por José de Alencar (1875)
Este diálogo, quem o ouvisse de parte, não lhe descobriria a menor expressão hostil ou agressiva. Os dois atores deste drama singular já se tinham por tal forma habituado a vestir sua ironia de afabilidade e galanteria, que vendavam completamente a intenção.
Muitas vezes D. Firmina aproximava-se no meio de uma dessas escaramuças de espírito e supunha ao ouvi-los que estavam arrulando finezas e ternuras, quando eles se crivavam de alusões pungentes.
A moça hesitou um instante; mas fitando de chofre o olhar no semblante do marido, perguntou-lhe:
- Que fez dos objetos que estavam no toucador?
Seixas conteve um assomo de nobre ressentimento e sorriu-se com desdém.
- Não tenha susto; estão fechados nas gavetas, intactos como os deixou. Pensava talvez que parassem em alguma casa de penhor?
Estes objetos lhe pertencem; pode dispor deles como lhe aprouver, sem dar contas disso a ninguém. Era a resposta que supunha receber e eu não teria que replicar-lhe, pois reconheço o seu direito e o respeito.
- Penhora-me com tamanha generosidade, disse Seixas sentindo um dardo na alusão.
- Não se apresse em agradecer. Se respeito o seu direito de dispor livremente do que é seu, também por minha parte reclamo a garantia do que adquiri com o sacrifício de minha felicidade. Casei-me com o sr. Fernando Rodrigues de Seixas, cavalheiro distinto, fanco e liberal, e não com um avarento, pois é este o conceito em que têm os criados, e brevemente toda a vizinhança, senão for a cidade inteira.
Seixas escutara com calma forçada estas palavras da mulher, e replicou-lhe vivamente:
- Há dias, a propósito do carro, agitou-se entre nós esta questão; volta agora o caso do toucador; e pode renovar-se a cada momento. O melhor pois é liquidá-la de uma vez.
- Liquidemos.
- Dê-me o braço, que ali vem D. Firmina.
Aurélia passou a mão pelo braço de Seixas. Passeando ao longo de uns painéis de fúcsias de várias espécies e admirando as flores, tiveram eles esta conferência, que de certo nunca houve entre marido e mulher.
- A senhora comprou um marido: tem pois o direito de exigir dele o respeito, a fidelidade, a convivência, todas as atenções e homenagens, que um homem deve a sua esposa. Até hoje...
- Faltou-lhe mencionar uma, talvez insignificante, o amor, atalhou Aurélia brincando com um cacho de fúcsias.
- Estava subentendido. Há apenas uma reserva a fazer acerca da espécie desse produto. Suponha que a senhora não possuísse esta bela e opulenta madeixa, suntuoso diadema como não o tem nenhuma rainha, e que fizesse como as outras moças, que compram os coques, as tranças e os cachos. Não teria de certo a pretensão de que esses cabelos comprados lhe nascessem na cabeça, nem exigiria razoavelmente senão uns postiços. O amor que se vende é da mesma natureza desses postiços: frocos de lã, ou despojo alheio.
- Oh! Ninguém o sabe melhor do que eu, que espécie de amor é esse, que se usa na sociedade e que se compra e vende por uma transação mercantil, chamada casamento!... O outro, aquele que eu sonhei outrora, esse bem sei que não o dá todo o ouro do mundo! Por ele, por um dia, por uma hora dessa bem-aventurança, sacrificaria não só a riqueza, que nada vale, porém minha vida, e creio que minha alma!
Aurélia, no afogo destas palavras que lhe brotavam do seio agitado, retirara a mão do braço de Seixas; ao terminar voltara-se rapidamente para esconder a veêmencia do afeto que lhe incendiara o olhar e as faces.
Seixas acompanhou este movimento com um gesto de profunda mágoa, que um instante confrangiu-lhe o semblante, mas logo passou; já ele estava ocupado em entrançar nos losangos do gradil verde alguns pâmpanos mais longos de madressilva, quando Aurélia aproximou-se.
- Não faça caso destas puerilidades. São os últimos arrancos do passado. Cuidei que já estava morto de todo; ainda respira; mas em poucos dias nós o teremos enterrado. Talvez que então eu consiga ser a mulher que lhe convinha, uma de tantas que o mundo festeja e admira.
- A senhora será o que lhe aprouver; de qualquer modo deve convir-me desde que não empobreça.
Este sarcasmo chamou Aurélia à realidade de sua posição.
- É verdade, esqueci-me que entre nós só há um vínculo.
- Posso continuar?
- Estou ouvindo-o.
- As obrigações e respeitos que lhe devo como seu marido, ainda não me eximí de cumpri-los; e não me eximirei, qualquer que seja a humilhação, que eles me imponham.
Aurélia sentiu uma estranha repulsão ao ouvir estas palavras; o rubor queimou-lhe as faces.
- A senhora pretende também que não comprou um marido qualquer, e sim um marido elegante, de boa sociedade e maneiras distintas. Fazendo violência à minha modéstia, concordo. Tudo quando for preciso para favonear essa vaidade de mulher rica, eu o farei e o tenho feito. Salva algumas modificações ligeiras, que a idade vai trazendo, sou o mesmo que era quando recebi sua proposta por intermédio de Lemos. Estarei enganado?
Aurélia respondeu com um gesto de suprema indiferença.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. Senhora. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1847 . Acesso em: 27 jan. 2026.