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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

O Dourado trazido pelos fábricas de José Bernardo, havia parado no meio da várzea. Em sua atitude garbosa, reconhecia-se a altivez do touro bravio, filho indômito do sertão, nascido e criado à lei da natureza. Tinha êle a majestade selvagem das feras, que percorrem livres o deserto e não reconhecem o despotismo do homem. 

Com o pescoço curvo e a fronte alçada, o touro lançava aos cavaleiros um olhar de desafio, batendo o costado com a ponta da cauda arqueada, e escarvando o chão de leve com a unha direita. Um borborinho surdo ressoava no vasto peito, que sublevava-se para soltar o mugido. 

Todavia não se notava neste aspecto a sanha terrível do touro sanguinário, que arroja-se ao combate cego de furor, e dilacera a vítima com as pontas aceradas, ou vai cair aos pés do inimigo exhausto pelos ímpetos violentos. 

O Dourado tinha a coragem calma, êle conhecia o homem, e estava habituado a afrontá-lo. No olhar com que observava os cavaleiros, descobria-se unida à segurança do corredor, que não teme ser vencido, a sagacidade do boi manhoso e experiente que calcula o perigo, e sabe acautelarse. 

— Então é aquele o vitelo de ouro, reverendo? disse Ourém, voltando-se para o capelão. Vitulus conflatilis! 

— Neste caso, senhor licenciado, replicou Padre Teles, é preciso seguir o exemplo de Moisés, que o queimou, reduziu a pó, dissolveu em água e o deu a beber aos filhos de Israel; combussit et contrivit usque ad pulvere, quem sparsit in aquam et dedit in eo potum filii Israel. 

Êxodo, cap. 32, versete 20. 

— Em o nosso caso não acha, reverendo padre Teles, que bastaria assá-lo para o almôço? 

— É o que eu estava pensando, sr. licenciado; e creio que o consumiríamos melhor assim ou numa boa açorda do que pelo processo de Moisés. 

Enquanto o licenciado e o capelão faziam êstes gastos de erudição bíblica, as outras pessoas trocavam suas observações acêrca do Dourado. 

D. Flor também contemplara o animal com satisfação, pois tinha seu instinto de sertaneja, filha daqueles campos e neles criada. Além disso possuia o sentimento do belo, e sabia admirá-lo em todas as suas formas. 

— O Dourado há de ter o meu ferro! exclamou com um arzinho de princesa que lhe assentava às maravilhas. 

— Se levar algum, com certeza não será outro senão o seu, Flor; disse o capitão-mór. 

A donzela soltando a exclamação a que o pai acabava de responder, insensivelmente volvera o olhar e encontrou Arnaldo que pouco antes se aproximara do grupo. Ao tôrvo e sombrio aspecto do mancebo, e talvez à lembrança do que acontecera com a flor, desviou a vista rapidamente. 

— Então, senhores, vamos ao Dourado? disse o capitão Marcos Fragoso.

— Ao Dourado! exclamou Daniel Ferro. 

— É à-toa, só para correr, ponderou o capitão-mór. O Dourado, não há quem lhe deite a unha; dos que estão aquí, não desfazendo em ninguém, só vejo o Arnaldo, nosso vaqueiro, filho do Louredo, mas quando tiver a experiência do pai. 

— Não conheço, disse Marcos Fragoso desdenhosamente. 

O capitão-mór acenou para Arnaldo. 

— Vem cá, rapaz. Aquí está: basta olhar, para ver o filho de quem é. 

Os dois mancebos trocaram um olhar rápido. Fragoso adivinhou que tinha em Arnaldo um inimigo. Arnaldo conheceu que fôra compreendido: e isso causou-lhe íntima satisfação. Na sua lealdade, estimava que o adversário estivesse prevenido de seu ódio, para que não lhe imputasse uma perfídia. Essa primeira advertência, êle pretendia dá-la, ainda mais fraca, logo que chegasse o momento de executar a sua resolução. 

— Que dizes, Arnaldo? És capaz de tirar o feitiço ao Dourado? 

— Não sei, sr. capitão-mór; ainda não lhe dei uma corrida: porisso não posso avaliar. Mas até hoje não encontrei boi que deitasse poeira no Corisco, disse o sertanejo singelamente e alisando a clina do cardão. 

— Pois afianço-lhes eu, senhores, que o Dourado vai dar a sua última carreira, exclamou Marcos Fragoso, brandindo a vara de ferrão com galhardia. Terei a honra de oferecer-lhes ao almôço uma costela de herói. 

— Eu prefiro o lombo, disse o capelão. 

— O principal é outro porém, continuou o mancebo exaltando-se. Entre os mimos de noivado que tenho de oferecer breve à formosa das formosas, figura um par de sandálias mouriscas de veludo, cravejadas de pérolas; e aquí neste momento, diante destas damas, do sr. capitão-mór e de quantos me ouvem, os quais todos tomo por testemunhas, faço votos de tirar as solas das sandálias do couro do Dourado, com a minha própria mão! 

— Não é mal lembrado, observou Ourém. Naturalmente foi de algum boi corredor como êste que o gigante fez as suas botas de sete léguas, e as fadas tiraram os seus chapins. Os coturnos de Mercúrio deviam ser do mesmo couro. 

Marcos Fragoso referindo-se ao mimo de noivado, que destinava à formosa das formosas, dirigiu o olhar tão claramente a D. Flor, que todos compreenderam a alusão, exceto a donzela, que ainda estava distraída a ver o barbatão, e o capitão-mór que não atendendo ao gesto expressivo, deu às palavras do dono do Bargado outro e mui diferente sentido. 

(continua...)

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