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#Romances#Literatura Brasileira

O Guarani

Por José de Alencar (1857)

Entretanto sentia-se feliz; uma esperança vaga e indefinida dilatava-lhe o coração e dava à sua fisionomia a expressão de júbilo, expansão da criatura quando acredita ser amada, auréola brilhante que bem se podia chamar a alma do amor. 

O que esperava ela? Não sabia; mas o ar lhe parecia mais perfumado, a luz mais brilhante, o olhar via os objetos cor-de-rosa, e o leve roçar da espiguilha do vestido no seu colo aveludado causava-lhe sensações voluptuosas. 

Cecília com o misterioso instinto da mulher adivinhava, sem compreender, que alguma coisa de extraordinário se passava em sua prima; e admirava a irradiação de beleza que brilhava no seu moreno semblante. 

— Como estás bonita! disse a menina de repente. 

E conchegando a face de Isabel aos lábios, imprimiu nela um beijo suave; a moça respondeu afetuosamente à carícia de sua prima. 

— Não trouxeste o teu bracelete? exclamou ela reparando no braço de Cecília. 

— É verdade! replicou a menina com um gesto de enfado. 

Isabel julgou que este gesto era produzido pelo esquecimento; mas a verdadeira causa foi o receio que teve Cecília de se trair. 

— Vamos buscá-lo? 

— Oh! não! ficaria tarde, e perderíamos o nosso passeio. 

— Então devo tirar o meu; já não estamos irmãs. 

— Não importa; quando voltarmos prometo-te que ficaremos bem irmãs. 

Dizendo isto Cecília sorria maliciosamente. 

Tinham chegado à frente da casa. D. Lauriana conversava com seu filho D. Diogo, enquanto D. Antônio de Mariz e Álvaro passeavam pela esplanada conversando. 

Cecília se dirigiu ao pai, levando Isabel, que ao aproximar-se do jovem cavalheiro sentiu fugir-lhe a vida. 

— Meu pai, disse a menina, nós queremos dar um passeio. A tarde está tão linda! Se eu vos pedisse e ao Sr. Álvaro para que nos acompanhassem? 

— Nós faríamos como sempre que tu pedes, respondeu o fidalgo galanteando; cumpriríamos a tua ordem. 

— Oh! ordem não, meu pai! Desejo apenas! 

— E o que são os desejos de um lindo anjinho como tu? 

— Assim, nos acompanhais? 

— Decerto. 

— E vós, Sr. Álvaro? 

— Eu... obedeço. 

Cecília falando ao moço não pôde deixar de corar; mas venceu a perturbação e seguiu com sua prima para a escada que descia ao vale. 

Álvaro estava triste; depois da conversa que tivera com Cecília, vira-a durante o jantar; a menina evitava os seus olhares, e nem uma só vez lhe dirigira a palavra. O moço supunha que tudo isto era resultado de sua imprudência da véspera; mas Cecília mostrava-se tão alegre e satisfeita que parecia impossível ter conservado a lembrança da ofensa de que ele se acusava. 

A maneira por que a menina o tratava tinha mais de indiferença do que de ressentimento: dir-se-ia que esquecera tudo que havia passado; nem guardava já a mínima lembrança da manhã. Era isto o que tornara Álvaro triste, apesar da felicidade que sentira quando D. Antônio o chamara seu filho; felicidade que às vezes parecia-lhe um sonho encantador que ia esvaecer-se. 

As duas moças haviam chegado ao vale, e seguiam por entre as moitas de arvoredo que bordavam o campo formando um gracioso labirinto. Às vezes Cecília desprendia-se do braço de sua prima, e correndo pela vereda sinuosa que recortava as moitas de arbustos, escondia-se por detrás da folhagem e fazia com que Isabel a procurasse debalde por algum tempo. Quando sua prima por fim conseguia descobri-la, riam-se ambas, abraçavam-se e continuavam o inocente folguedo. 

Uma ocasião porém Cecília, deixou que D. Antônio e Álvaro se aproximassem; a menina tinha um olhar tão travesso e um sorriso tão brejeiro, que Isabel ficou inquieta.

— Esqueci-me dizer-vos uma coisa, meu pai. 

— Sim! E o que é? 

— Um segredo. 

— Pois vem contar-mo. 

Cecília separou-se de Isabel; chegando-se para o fidalgo, tomou-lhe o braço. 

— Tende paciência por um instante, Sr. Álvaro, disse ela voltando-se; conversai com Isabel; dizei-lhe vossa opinião sobre aquele lindo bracelete... Ainda não o vistes? 

E sorrindo afastou-se ligeiramente com seu pai; o segredo que ela tinha, era a travessura que acabava de praticar, deixando Álvaro e Isabel sós, depois de lhes ter lançado uma palavra, que devia produzir o seu efeito. 

A emoção que sentiram os dois moços ouvindo o que dissera Cecília é impossível de descrever. 

Isabel suspeitou o que se tinha passado; conheceu que Cecília, a enganara para obrigá-la a aceitar o presente de Álvaro; o olhar que sua prima lhe lançara afastando-se com seu pai, lho tinha revelado. 

Quanto a Álvaro, não compreendia coisa alguma, senão que Cecília tinha-lhe dado a maior prova de seu desprezo e indiferença; mas não podia adivinhar a razão por que ela associara Isabel a esse ato que devia ser um segredo entre ambos. 

Ficando sós em face um do outro, não ousavam levantar os olhos; a vista de Álvaro estava cravada no bracelete; Isabel, trêmula, sentia o olhar do moço, e sofria como se um anel de ferro cingisse o seu braço mimoso. 

Assim estiveram tempo esquecido; por fim Álvaro desejoso de ter uma explicação, animou-se a romper o silêncio: 

— Que significa tudo isto, D. Isabel? perguntou ele suplicante.

(continua...)

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