Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
– Oh! mas eu tenho bastante conhecimento da generosidade de sua alma para acreditar que tudo isto lhe é tão doloroso como a ela; eu vejo que o senhor não se achando com forças, não podendo fazer a ventura de Celina...
A viúva hesitou outra vez.
– Não podendo... repetiu surdamente o mancebo.
A viúva respirou, animou-se, e prosseguiu.
– Porque o senhor é pobre... não tem bastante para si... e Celina está habituada a cômodos e prazeres, que enfim o senhor não a poderia fazer feliz... é pobre... e...
– Sou pobre... disse o mancebo com voz sombria e sacudindo a cabeça; é isso mesmo: eu sou pobre...
– E quando mesmo os senhores se amassem realmente, e o amor, operando um milagre que não seria o primeiro, fizesse com que Celina se julgasse feliz partilhando as privações da sua pobreza; essa felicidade duraria dois ou três meses, talvez mesmo um ano; mas passada a força da paixão... a realidade chegaria por sua vez, Celina choraria seus antigos prazeres, que o marido lhe não poderia dar em sua pobreza.
– A pobreza!
– E o senhor também se havia de arrepender de havê-la desposado; porque talvez que um homem rico e feliz, um homem que ocupasse na sociedade uma posição que se visse...
– Que se visse!...
– A quisesse por mulher; e então é conseqüente, e eu creio que o senhor pensará comigo, que uma mulher no seio da riqueza, gozando os regalos que ela facilita, brilhando pela posição de seu marido, é mil vezes mais feliz, é sem comparação mais ditosa do que nos braços de um pobre, que não teria para dar-lhe senão lágrimas de amor no princípio... e no fim impertinências e dissabores de indiferença...
– Tem razão.
– Oh! não sou eu que a tenho, é minha sobrinha que a tem; minha sobrinha, que o estima; mas que não pode deixar de chorar a sua fama assim ultrajada por seu respeito... bem que o senhor não tenha para isso cooperado.
A viúva calou-se... Cândido não podia dizer palavra; ambos porém sofriam muito. O mancebo tragava fel de amargura, de vergonha e de desespero, e Mariana sentia-se devorada por violentos remorsos.
Mas era escrava: tinha obedecido a seu senhor.
Estavam já em silêncio há alguns minutos, quando ouviu-se o toque da meianoite.
Mariana ergueu-se, e disse:
– Ah! meu Deus! que tempo estamos fora da sala... hão de ter reparado em minha ausência... voltemos, sr. Cândido.
O mancebo que se tinha deixado ficar sentado no banco de relva, respondeu com voz sombria:
– Não; eu fico.
A viúva retirou-se a passos vagarosos e com a cabeça baixa; desaparecendo pela portinha que deitava para o jardim, ela encostou-se à parede do corredor e desatou a chorar,
Quando Mariana acabava de sair do jardim, surgiu dentre alguns arbustos um homem alto e cuja cabeça alvejava de tão branca que era.
Chegou-se ao caramanchão, e dirigindo-se ao mancebo, disse:
– Aquela mulher mentiu.
– Não mentiu! exclamou Cândido com violência, não mentiu! é a verdade! o mundo falou em seus lábios... tudo aquilo quer dizer – o homem pobre é um miserável... o contato do homem pobre mancha o rico... seu hálito é pestífero... o seu aspecto hediondo... a pobreza é a morféia!
E acabando de pronunciar essas palavras, saiu correndo pela portinha do jardim.
Ficou só o velho Rodrigues.
CAPÍTULO XXI
HENRIQUE
O A MOR é a paixão das inconseqüências e dos absurdos.
A impossibilidade de bem defini-lo provém da mesma natureza desse sentimento. Tem-se escrito milhões de volumes sobre o amor, e a inteligência humana ainda o não retratou com todas as suas cores, porque sempre ele se mostra com uma nova nuança.
Fizeram-no parente da amizade, deram-lhe até o grau de seu irmão; mas se realmente tanto nela como nele há sempre um pendor para o objeto que nos é grato, diferem ambos em tudo que resta, tanto e tanto, que parecem mais inimigos do que deviam ser dois parentes tão chegados.
Diferem muito, diferem nos princípios e rios resultados.
O belo título de amigo adquire-se à custa de uma longa provação, que dura anos. Aglomeram-se obséquios sobre obséquios; é preciso que o tempo e o trato mútuo de dois homens tenha feito conhecer a ambos sua também mútua dedicação, e o desinteresse e a paciência, e até certo ponto conformidade de sentimentos, e de sentimentos que sejam nobres; para que no fim de tudo isso saia o nome de – amigo, – não da flor dos lábios, mas do âmago do coração.
O amor não é assim: às vezes é a obra de um instante tão breve como um suspiro.
Às vezes não se estuda a nobreza dos sentimentos da pessoa a quem se vai, sempre involuntariamente, amar; e nunca se espera por nenhuma prova de dedicação e paciência, e não se pode esperar por alguma de desinteresse; porque o amor é terrivelmente interesseiro no seu gênero.
Às vezes dois olhos pretos, dois lábios de coral, e um instante para vê-los, resumem toda a história de um grande amor.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.