Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)
Ledo tomou a pena e escreveu a seguinte quadra com o seu estribilho:
Nesta rua tenho ao lado
Um cego que é rico e nobre,
E defronte um namorado Poeta infeliz e pobre. Não sou indiscreta,
Que procure o esquivo; E quanto ao poeta De versos não vivo.
O epigrama não subira à altura das admiradas inspirações e do aticismo de Ledo; era antes ligeira zombaria feita a Chiquinha nas alusões ao ilustre varão, honesto chefe de família que não a olhava e parecia estranho à existência da mais que leviana rapariga, e a Bernardo Avelino, o poeta pobre, que a namorava.
Mas a Chiquinha riu muito, achou ótima a quadrinha, e tanto cantou-a, que Bernardo Avelino, tendo dela conhecimento, deu-lhe resposta em furioso soneto, do qual possuo cópia, mas não o transcrevo aqui, porque, além de muito injurioso, chegou levado pela cólera até a aproveitar aleives que inimigos tinham assacado contra Ledo.
O ilustrado e célebre fluminense desprezou a insultuosa desforra, dando-se por bem consolado com o amor da Chiquinha - como dizia a brincar, e para mais atormentar o poeta a quem na verdade provocara, ridicularizando-o.
Mas de fato não sobrava tempo a Ledo para combates mesquinhos e pouco dignos dele e de Bernado Avelino.
Ledo achava-se então muito absorvido em transcendentes assuntos políticos do Império nascente, já proclamado, mas à espera da sua constituinte, e não menos o atarefavam as contendas e lutas de influência predominante no seio da maçonaria, que guarda o segredo das causas de alguns dos mais consideráveis acontecimentos da época.
A 28 de outubro de 1822 demitiu-se o Ministério Andrada, e a 30 do mesmo mês e ano voltou de novo ao poder com a força e o prestigio de representação popular que o reclamara, e com ostentosa, pública e comovida aceitação do Imperador D. Pedro I.
Ledo, que era na maçonaria antagonista dos Andradas, logo na manhã de 31 de outubro deixou sua casa e ocultou-se, prevendo perseguições políticas.
Tinha adivinhado.
Os Andradas voltaram ao governo armados de medidas extraordinárias, e logo ordenaram e fizeram efetuar a prisão de José Clemente Pereira, que fora o Presidente da Câmara Municipal a 9 de janeiro, no dia do Fico; de Nóbrega que tinha sido Ministro da Guerra no ministério dos mesmos Andradas; do Padre (depois cônego) Januário da Cunha Barbosa, companheiro de Ledo na redação do Reverbero e nos mais ingentes trabalhos para a independência da pátria.
Todos esses beneméritos foram deportados e provaram em França o pão do desterro.
Arbitrariamente condenado, como esses amigos políticos seus e maçons da mesma parcialidade, à prisão e ao desterro, Ledo escapou, escondendo-se às diligências da polícia do governo.
Como nestas Memórias não escrevo história política, deixo de parte o estudo e a apreciação destes lamentáveis fatos, que somente poderiam ter ficado bem e publicamente esclarecidos, se tivesse podido dar-se pública interpelação aos ministros, e ampla discussão parlamentar na maçonaria de 1822, de que eram membros influentíssimos aqueles desterrados e D. Pedro I, José Bonifácio, Martim Francisco, Ledo e todas as notabilidades da época.
Certo é que abriu-se devassa sobre conspiração e planos revolucionários dos varões ilustres já deportados, beneméritos da independência, que por isso e só por isso foram privados da glória de ser eleitos deputados à Constituinte brasileira, cabendo-lhes repetir lá de longe, da terra do desterro, o sic vos non vobis de Virgílio.
Mas eu disse acima que Ledo, homem habilíssimo e sagaz, logo a 31 de outubro, adivinhando imediata e arbitrária perseguição, eclipsara-se prudente e cauteloso, de modo que não houve empenho policial que pudesse conseguir apanhá-lo, posto que ele nem um só dia se tivesse arredado da cidade, e pelo contrário em não poucas noites ousasse sair a passeio, ou a mudar de hospedagem, tomando diversos disfarces.
Todavia não era possível a Ledo prolongar sem vexame e sem incômodo pessoal e comprometimento de amigos essa anômala situação de suspeito conspirador escondido e procurado, mas também ele não queria dar aos Andradas o gosto da sua prisão e do seu desterro forçado.
Ainda nisso andavam capricho e antagonismo de elementos maçônicos.
Tinha de sair do porto do Rio de Janeiro para Buenos Aires um navio pertencente a negociante que sem dúvida era filho da viúva, e nesse barco foi fraternalmente garantida a Ledo passagem segura para a República do Prata.
Mas de que modo poderia Ledo ir até a praia, embarcar em bote ou escaler, e recolher-se ao navio escapando à policia, que tomara a peito prendê-lo?...
Tomaram-se precauções; preparou-se tudo. Ledo, porém, que por mais de uma vez disfarçado se expusera, indo à noite ver a Chiquinha, quis a todo transe despedir-se dela na hora de sua partida.
Forçoso foi confiar o segredo da empresa à moça de costumes impuros e portanto menos digna de confiança em caso tão delicado.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor. Rio de Janeiro: [s.n.], 1878. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7544 . Acesso em: 4 jan. 2026.