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#Romances#Literatura Brasileira

A Normalista

Por Adolfo Caminha (1893)

Toda a cidade soube logo da viagem intempestiva do estudante. A notícia propalou-se com a rapidez de fogo em palha, por todos os botequins, por todos os cafés e restaurantes, avolumando-se, como se se tratasse de um grande acontecimento.

Quem, o Zuza, o filho do coronel Souza Nunes? Então não se casava com a normalista?

— Por esta já esperava eu, diziam uns convictamente.

— E eu, repetiam outros.

— Pela cara se conhece quem tem lombrigas, seu Sussuarana, afirmava um sujeito reles na botica do Travassos. Aquele tipo sempre me pareceu uma bisca. Agora a pobre rapariga é quem fica por aí com cara de besta, sem achar quem lhe roa os ossos.

— Pode dizer, seu compadre. Esses fidalgos o que querem é isso mesmo — desfrutar e pôr-se ao fresco. Todo o nosso mal é recebermos em nossas casas qualquer sunga-neném que chegue a esta terra. Nós, os pais de família, é que somos os culpados.

— E o compadre João da Mata o que pretende fazer? — Eu sei lá, homem de Deus, aquele é outro...

A viagem imprevista do Zuza assumia proporções de escândalo. Nas fileiras políticas especialmente, entre os partidos contrários à administração presidencial, alardeava-se o fato: que o rapaz era um produto da política do governo, que todos os amigos do presidente mediam-se pela mesma bitola, que era tudo uma súcia de bandidos de casaca, usurpadores da honra cearense, o diabo!

Os jornais da oposição rosnaram contra a moralidade dos governistas, responsabilizando o presidente pelo “desmembramento de caracteres” que ia pela sociedade cearense, alcunhando-o de negro Romão. Tal dizia que “S. Exª era homem de costumes dissolutos, acostumado a beber cerveja nos cafés cantantes de Paris, e a passear de braço com as cocottes no Bois de Boulogne”. Tal outro afirmava que “S. Exª sabia manobrar perfeitamente um phaeteon, montava muito bem a cavalo, mas não tinha capacidade para dirigir os destinos de um país”.

Insinuava aquele que “a viagem inesperada de certo bacharel por formar-se era um atentado contra os nossos brios e contra a moral pública”; aquele outro confirmava que “a polícia devia dar caça a um tal Sr. bacharel de nome açucarado contra quem pesavam as mais sérias acusações no tocante ao seu procedimento para com a família cearense”.

E toda a gente sabia que se tratava do Zuza e da Maria do Carmo.

O estudante, azucrinado por todos os lados, numa roda viva de indiretas, perdia a cabeça, indagava na agência se o vapor já tinha chegado, esbaforido, às carreiras, doido já por se ver barra afora, debruçado, tranqüilamente na amurada, a ver sumirem-se no horizonte, como visões de uma noite mal dormida, as areias do Mucuripe.

Uf!... Estava cansado de suportar tanta sujidade! Decididamente não voltaria mais ao Ceará por preço algum. Diabo de província onde ninguém está livre da calúnia e da descompostura pela imprensa desde que não se submete às imposições duma política de interesses pessoais.

Revoltava-se de novo contra o Ceará, contra os costumes cearenses, contra a política, “essa política sem ideal e sem patriotismo, que só servia para nos rebaixar, obrigando o indivíduo a vender-se por amor de sua mulher e de seus filhos”. Que diabo tinha ele com a política para que se viesse meter com a sua vida? Só porque era amigo do presidente da Província e filho de político? Sebo! Então não se podia ter amigos no Ceará, decididamente. E por que tanto barulho em torno do seu nome, por que, não lhe diriam? Por causa de um simples namoro com uma pobre normalista sem eira nem beira? Era o cúmulo!

Com que deliciosa alegria ele ergueu-se da rede no dia do embarque, de manhã muito cedo, as malas no meio do quarto prontas, a passagem comprada no bolso, sem dívidas, sem compromissos, completamente pronto a deixar o Ceará! Quando vieram lhe chamar para o banho, às seis horas, já há muito estava de pé, em chambre, muito bem-disposto, fumando o seu cigarro, passando uma vista de olhos na maleta do camarote onde refulgia, numa frescura capitosa, a roupa branca — ceroulas, camisas, meias e toalhas de rosto — tudo arrumado cautelosamente, com um cuidado feminino, umas cheirando ainda a sabão, passadinhas a ferro outras.

Ah! ia deixando fora a Casa de Pensão. Tomou do livro que se achava sobre a mesa e colocou-o na maleta, ao lado, para ler em viagem.

Agora sim, não faltava mais nada. Só pedia a Deus que não chovesse, porque um embarque debaixo de aguaceiro era um desastre horroroso.

De feito ameaçava chover. Era em janeiro. Há dias caía sobre a cidade uma chuvinha sintomática de inverno, persistente e miúda, acompanhada de trovões longínquos, lavando a atmosfera, encharcando as ruas, alentando a população, enverdecendo as árvores. Os longos meses de seca iam ser compensados por uma abundância de chuvas consoladoras e refrigerantes. As manhãs iam se tornando frescas e já se viam passar, em tabuleiro, feixes de feijão verde e hortaliças para a feira.

(continua...)

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