Por Inglês de Sousa (1891)
Tinham sido dias de inexprimível ventura os que gozara à sombra dos arvoredos à margem do pitoresco Urubus. A mãe de Emília acolhera benevolamente a aspiração do moço e com o seu sorriso bondoso e meigo o protegia, dando-lhe esperança. Entregue todo à adoração da formosa rapariga, Totônio não sentia correr o tempo. Entretanto os dias sucediam-se, as horas voavam. Uma tarde o Neves viera ao sítio da irmã e tivera com ela uma longa conferência, a sós, na varanda. Depois o Neves saíra carrancudo, e a irmã ficara abismada em pensamentos tristes, fora uma nuvem no céu dos jovens namorados. Passaram-se dias e a mãe de Emília contara, uma noite, à ceia, que o Bernardino Santana desaprovara muito o procedimento do filho, e ele e o Cazuza haviam escrito ao Neves, pedindo-lhe que acabasse com aquela criançada que podia ser perniciosa tanto a um como a outro. O Neves viera e quisera obter da irmã uma oposição formal ao enlace dos dois namorados... e a despedida de Totônio! A pobre senhora recusara, mas estava receosa. O Bernardino era terrível quando o contrariavam e o Neves, principalmente depois do casamento do Cazuza, fazia tudo quanto o Bernardino queria. Fora uma noite de maus sonhos aquela! No dia seguinte, sob uma grande mangueira à beira da água, Totônio e Emília haviam chorado muito, sentindo pela primeira vez a possibilidade duma desgraça. Totônio jurara que preferia a morte à separação, e ela, a formosa, a incomparável Milu prometera que ficaria solteira toda a vida, se lho não dessem por marido. Mas a irremediável desventura não vinha longe. Nessa mesma tarde, ao voltar para a casa, Totônio fora agarrado por quatro homens robustos, amarrado como um criminoso, atirado ao fundo duma canoa e trazido para Silves. O autor dessa inqualificável violência era sem dúvida o Neves Barriga com o ar pacato e a cara de carneiro manso. Aqui Totônio encontrara o pai irritado ao último ponto, falando em açoitá-lo, e declarando-lhe terminantemente que o Totônio para casar passaria por cima do seu cadáver, e que primeiro se arrasaria Silves do que se celebraria tal casamento. Já a esse respeito se entendera com o juiz de órfãos, o Dr. Natividade, que primeiro o recebera mal, mas sabendo que se tratava do Totônio e da Milu, cedera a tudo que o Bernardino quisera. Totônio pensara enlouquecer de dor. Que rápida e terrível mudança se dera na sua vida! Lá as laranjeiras em flor, a sombra espessa da mangueira, o canto mavioso das sabiás e dos titupururuís, e a figura esbelta e graciosa de Emília animando o quadro, dando vida a tudo. Aqui a estupidez da vila, o isolamento, a hostilidade, a má-vontade, o sarcasmo e o pai, severo e implacável, prometendo pancada e fechando desapiedadamente o futuro. O coração do Totônio não podia resistir. Demais jurara. A morte, a morte só podia extinguir aquele amor e por fim aos cruéis tormentos que o açoitavam...
— A morte na sua idade?! exclamou Macário, sentindo-se comovido.
— Morre-se em todas as idades, respondeu o Totônio Bernardino, com a voz embargada pelo pranto.
E depois dum repouso, continuou.
— Queria e quero morrer. A vida é-me insuportável. Jurei a Emília que preferia morrer a separar-me dela. Que posso contra o destino que nos separa, senão cumprir o meu juramento? Estou, pois, decidido a morrer, mas não queria ter uma morte inteiramente inútil como foi a minha curta vida. O meu desejo era morrer prestando um serviço, fazendo alguma coisa de bom, para deixar de mim alguma memória. Se ainda durasse a guerra do Paraguai, ir-me-ia alistar como voluntário, e daria o meu sangue pela integridade da minha pátria. Infelizmente. essa morte gloriosa está-me interdita. Que fazer! Hoje soube do grandioso projeto de padre Antônio de Morais, e disse comigo:
— Se não morrer pela pátria, morro pela religião.
— E aí está, terminou com um sorriso angélico, porque eu vim fazer-lhe o pedido de aceitar-me como remeiro.
Macário, comovido até ao fundo da alma, tirou o lenço de assoar para enxugar as lágrimas. Não atinava com o que dissesse ao rapaz para o dissuadir do seu louco projeto. Felizmente para o sacristão, ouviram-se passos no corredor, a porta abriu-se e a alta estatura de padre Antônio de Morais destacou-se da meia sombra da tarde.
CAPITULO VII
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.