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#Romances#Literatura Brasileira

Luzia-Homem

Por Domingos Olímpio (1903)

As reservas de Luzia irritavam-na como estulta resistência. E murmurava, caminhando a esmo, injúrias contra ela, recriminações a Alexandre, um mazanza, que ficava no armazém embiocado de fadiga, quando a liberdade e o amor deveriam restituir-lhe as forças, dar-lhe asas para voar, como um passarinho evadido para junto da criatura querida.

— Arre lá! – exclamava indignada – Que se arranjem, que se separem, cada um para o seu lado. Que me importa!... Bem-querer não é obrigado, nem eu tenho nada com isso. Eu me intrometi demais em negócios alheios... Chega a meter-me raiva tamanha cerimônia entre pobres diabos, que não têm onde caírem mortos, quanto mais vivos...

Considerava depois, que não mudaria o seu destino se eles fossem felizes. Ela seria esquecida, porque o dia do benefício é véspera da ingratidão. Na embriaguez de gozos divinos, não se lembrariam dela que havia sofrido por eles; não teriam uma palavra de dó da pobre Teresinha, mulher à-toa, desprezada como vil trapo humano, atirado ao monturo dos resíduos sociais, vagabunda sem rumo, sem triste vintém para comprar um bocado, carecendo de tudo e não sabendo onde buscar cinco patacas do aluguel do quarto, abandonado, havia mais de mês.

A recordação dessa dívida, surgia a horrível idéia de ser forçada a volver ao poste da infâmia, onde passara noites acocorada à soleira da porta, fumando cigarros, mutuando gracejos torpes com as vizinhas; ou, solitária, bocejando, a lutar com o sono, aguardando o inesperado amante, que a provasse de alimento para o dia seguinte deixando-lhe o imundo bafio hircico de homem luxurioso, impregnado na sua pele. Vinha-lhe, então, invencível nojo à passividade abjeta de coisa que se vende, tábua de lavar roupa, como dissera Crapiúna; assaltava-a o terror de volver àquele lamaçal infecto, como se o contágio da pureza, o exemplo da honestidade impoluta e forte, em combate com a miséria, lhe houvessem infundido no coração, fechado aos afetos sãos e benfazejos, um nobre impulso de amor-próprio. Faltavalhe, porém, coragem para resistir ao pendor criminoso, volver a trabalhar como as outras desgraçadas, nas obras da Comissão, carregar água, tijolos, areia. Que poderia fazer para ganhar, além da ração, algum dinheiro, uma criatura franzina, desacostumada a esforços musculares, e, por cúmulo de males, aberta dos peitos?...

— Como há de ser, Deus do céu? – exclamava, aflita – Como hei de viver agora, sozinha, sem parentes e aderentes nessa desgraceira!...

E seguia, lentamente, na direção da casa de Luzia, contornando os quintais e as casas extremas da cidade, para evitar o trajeto nas ruas cheias de gente, mendigos, enfermos e a praga de meninos esfomeados.

Na várzea, varada de trilhos claros que riscavam o chão negro, ela encontrou, àquela triste hora da tarde, magotes de retirantes, cobertos de pó, marchando em filas tortuosas, das quais, como de um rastilho de suplício marcado pelas vítimas, se destacavam indivíduos ou famílias, que paravam emaciados, rendidos de cansaço e se sentavam para repoisarem, recobrarem alento e comporem os andrajos, antes de penetrarem na cidade.

Esse espetáculo de todos os dias, na sua monotonia sinistra, não a impressionava mais, porque se habituara à vizinhança da miséria nas formas mais lúgubres e vis. Vira crianças, a sugarem os seios murchos das mães mortas; cadáveres desses entezinhos abandonados sobre a estrada, devorados por urubus e cães vorazes: criaturas, ainda vivas e exangues, torturadas pelas bicadas de carcarás a lhes arrancarem, aos pedaços, as carnes ulceradas e podres. Vira mães desnaturadas ocultarem em crateras de formigueiros, o fruto de amores criminosos, ou traficarem com filhas impúberes; pais desalmados, incestuosos e delinqüentes dos mais torpes crimes, como se o concurso de todas as dores e de todas as baixezas, condensando-se em enorme e fantástico suplício, os houvera transformado em monstros hediondos, rebalçando-se em lances trágicos de ferocidade inconsciente. Diante dela haviam tombado, fulminados pela fome, indivíduos de aparência sadia e robusta, estrebuchando no chão como epilépticos a tragarem terra aderente aos dedos sangrentos e blasfemarem contra o Deus impassível que os desamparava, os renegava filhos pecadores, condenados, em vida, às torturas daquele inominável inferno da miséria.

Milhares de criaturas haviam sido provadas nesses transes inenarráveis; no entanto, ela havia apenas sofrido o ferrete da ignomínia. Era, pois, incomparavelmente, mais feliz que aqueles pobres alquebrados, que passavam lentamente, restos de uma raça de trabalhadores heróicos e fortes, desbaratada sob o látego do castigo do céu. Se devia cair mais, descer mais fundo no sorvedoiro da infâmia, padecer como aqueles mártires, desejaria ser levada por uma moléstia para a vida onde ninguém sofre.

(continua...)

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