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#Romances#Literatura Brasileira

O Mulato

Por Aluísio Azevedo (1881)

E dispuseram-se para a nova festa que ia principiar. Sebastião Campos continuava na quinta, a soltar os seus busca-pés e as suas formidáveis bombas, que estrondavam como canhões. “Ah! só tocava fogo fabricado por ele próprio! Não tinha confiança nesses fogueteiros de meia-tigela!...” As barricas estalavam em labaredas fiscalizadas por Benedito. Havia por toda a parte uma reverberação vermelha e Um cheiro marcial de pólvora queimada. Defronte da casa as arvores erguiam-se arremedando uma apoteose de inferno. As mãos encardiam-se, as roupas saraqueimavam-se com faísca. Algumas pessoas saltavam as fogueiras; outras, de mãos dadas e braços erguidos, passeavam em tomo dela, com solenidade, arranjando compradescos.

— Quer ser minha comadre, D Anica? perguntou Casusa a Ana Rosa. — Vamos lá!

E desceram à quinta. Aí, com a fogueira entre ambos, deram a mão um ao outro e passaram três voltas rápidas em tomo das chamas, com os braços erguidos, a dizer de cada vez:

— Por São João! Por São Pedro! Por São Paulo! E por toda a corte do céu!

Na varanda, Lamparinas dava tranqüilamente, no meio de um grupo, a notícia de ter havido incêndio na cidade.

— Onde? perguntaram a sustados. — Na Praia Grande.

Dias, sem dar uma palavra, atirou-se de carreira para a quinta e desapareceu logo na alameda de mangueiras.

Freitas expôs a Raimundo o grande inconveniente daquele brinquedo bárbaro do fogo. “Quase sempre, nos dias de São João e São Pedro havia incêndios na cidade!... Os negociantes apertados aproveitavam a ocasião para liquidar a casa!...” Entretanto, o Serra apontando para o lugar onde desaparecera o caixeiro de Manuel, dizia ao ouvido deste: “Aquilo é que é Um empregado de truz, seu colega! Tenho inveja de você, acredite! Vale quanto pesa! “

Lamparinas procurava tranqüilizar o animo dos dois negociantes, declarando que o fogo era na Praça do Comércio e que não atingira grandes proporções. “Aquela hora talvez já não houvesse vestígio dele!...”

Varreu-se a varanda em todos os seus quatro lados; estenderam-se esteiras de meaçaba sobre o tijolo, no lugar em que as devotas teriam de ajoelhar-se; acenderam-se mais algumas velas no altar, onde Frei Lamparina ia recitar a sua 'milésima ladainha”, segundo o que nesse momento acabava de dizer o Freitas.

— Milésima?... perguntou Raimundo, pasmado.

— Admira-se, eis?... volveu o homem da unha grande. Pois olhe, só neste sítio, a julgar de um pequeno cálculo, que me dei ao trabalho de fazer, tem ele enrolado nunca menos de 657 ladainhas!

E, a propósito, Freitas contou minuciosamente o clássico costume daquela festa de São João.

— Hoje não se faz nada, à vista do que já se fez!... dizia Bons rega-bofes tivemos no tempo do coronel em que se faziam novenas e trezenas de São João! E era dançar pra aí toda a noite, sem descansar! Meu amigo, era uma brincadeirazinha que rendia seguramente meio mês de verdadeira folia!

E, com um ar misterioso, como quem vai fazer uma revelação de suma importância:

— Quer que lhe diga, aqui entre nós?... As moça de hoje não valem as velha daquele tempo! ..

E o maroto cascalhou uma risada, como se houvera dito alguma coisa com graça.

Os fogos continuavam ainda e os ânimos persistiam quentes, quando, de improviso, se abriu a porta de um quarto, e o padre Lamparinas apareceu, todo aparamentado com a sua sobrepeliz nova; o livro da reza entre os dedos, os óculos montados no nariz adunco, os passos solenes, o ar cheio de religião. E arvorou-se nos degraus do altar, anunciando que ia dar começo à ladainha.

Houve um prolongado rumor de saias, e as mulheres ajoelharam defronte do padre.

Do ato, contra a luz da velas de cera, desenhava-se em sombrinha o vulto do Lamparinas, anguloso, com os braços levantados para o teto, num êxtase convencional. Os homens aproximaram-se todos, à exceção do Faísca, que dormia. Alguns ajoelharam-se também. Atiraram-se fora os charutos em meio; deixaram-se em paz os busca-pés e as bombas; correu silencio. E a voz fúnebre do Lamparinas chiou confusamente a Tua Domine.

— Então não temos jaculatória?... perguntou Amância, escandalizada.

Lamparinas atirou-lhe uma olhadela repreensiva e concentrou-se de novo em sua oração, concluindo:

— Presenteamos, Senhor, estas ofertas, sobre os vossos altares, para celebrarmos esta festa, com a honra que é devida ao nascimento daquele santo, que, além de anunciar a vinda do Salvador ao mundo, nos mostrou também que era já nascido o mesmo Jesus Cristo Nosso Senhor, que conosco vive e reina em unidade.

— Apoiado! gritou o Cordeiro.

Desencadeou-se um sussurro de indignação. Todavia, entre a tosse, os escarros secos e alguns espirros dispersos, que se acusavam daqui e dali, continuou fanhoso o Lamparinas:

— Gratiam tuam, quoesumus, Domine, mentibus nostris infunde, ut qui Angelo nuntiante Christi Filii tui incamationem cognovimus, per pressionem ejus et crucem ad ressurrectionis gloriam perducamus. Per eumdem Christum Dominum Nostrum. Amen!

— Amém! disseram em coro.

E a voz do Lamparina chilreava, acompanhada pela música:

— Kyrie eleison!

(continua...)

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