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#Romances#Literatura Brasileira

O Livro de uma Sogra

Por Aluísio Azevedo (1895)

E assim estivemos muito tempo, estreitados nos braços um do outro, a chorarmos ambos, sem achar nenhum de nós uma palavra, dele para mim, ou de mim para ele.

Ia, no entanto, naquela ocasião, decidir-se entre nós dois o fato mais extraordinário de toda a nossa existência.

CAPÍTULO XXIII

Ele afinal fez-me tomar uma cadeira e assentou-se perto de mim. Nunca lhe tinha visto a fisionomia que lhe vi nesse momento: Ela dizia ao mesmo tempo todos os velhos, intemináveis desgostos do seu passado ao roto e sem fundo, e todo o desespero do seu presente restrito e sem saída. Num relance veio-me ao espírito a síntese da sua longa existência de sessenta e tantos anos — um rosário de lutos:

Mulher, filhos e genros foram todos pouco a pouco caindo em torno da sua velha dor sobrevivente, até que a última da família, aquela retardatária irmã que o estremecia, lhe fugia também agora, depois de uma tossegosa e gemebunda existência de hética!

— Acabou-se tudo!... murmurou o infeliz, como se seguisse o rápido vôo do meu pensamento.

Tomei-lhe as mãos.

— Não... disse em segredo, que minhas lágrimas tornavam mais abafado e íntimo, ainda lhe resta uma amiga, uma irmã, uma companheira...

Ele levou à boca as minhas mãos que se orvalharam nas suas barbas úmidas de pranto.

— Mas como hei de viver agora?... prosseguiu. Como hei de viver sozinho aqui, neste frio hospital abandonado, donde vi saírem, um a um, para o cemitério, todos os entes que me pertenciam?... Diga, minha amiga, diga-me como hei de suportar esta miséria? — E cobriu o rosto com o lenço, soluçando mais forte. — Ah destino injusto e perverso!... levar-me a morte os outros todos e deixar-me a mim, o mais velho e o mais necessitado de morrer! O que fico eu fazendo aqui?... O que fico fazendo?...

A sua agonia retalhava-me o coração. Chamei-lhe a encanecida cabeça para o meu colo de amiga, e assim ficamos longo tempo, calados ambos.

As moscas, acordadas essa noite com a presença de um cadáver na casa, zumbiam alegres no silêncio do quarto.

César desviou-se do meu colo e deixou-se ficar cabisbaixo, com as suas mãos nas minhas. Compreendi que nesse instante o meu pensamento ia caminhando ao lado do dele, em silêncio, como dois velhos e tristes companheiros inseparáveis; e por fim o nosso pensamento foi se derretendo em palavras, apenas balbuciadas. César começou a falar em voz muito baixa, soturnamente, como se temesse acordar a irmã, que dormia lá na sala, no seu leito frio. Falava em segredo, com o rosto quase unido ao meu, numa surda conspiração contra a vida. Era o resíduo do seu pobre coração, já de muito tempo despedaçado, que vinha agora assim diluído pelas lágrimas.

E ele murmurou, como num sonho:

— Ultimamente, minha Olímpia, uma estranha amargura me persegue... a nosso respeito... uma dor secreta, penosa como um arrependimento tardio... alguma coisa da mágoa de não ter colhido a felicidade, no bom momento em que ela nos passou cantando diante dos olhos... um irremissível desgosto de não ter sido em tempo o teu marido ou me ter feito o teu amante...

Abaixei os olhos. Era a primeira vez que falávamos abertamente do nosso velho amor.

César prosseguiu no mesmo tom: — Sim, sim, minha amiga... nós nascemos um para o outro!... Foi uma tremenda infelicidade não nos termos encontrado antes dos nossos loucos casamentos... ou não termos então rompido com todas as conveniências e com todas as convenções — para nos unirmos para sempre; para nos pertencermos, exclusivamente, sem o menor desvio da nossa ternura; e para que enfim pudéssemos ser agora, minha amada, inseparáveis companheiros neste fim de vida!...

— Não... respondi, não meu querido amigo, não seria a mesma coisa: não seríamos ainda hoje moralmente e virtualmente consorciados como somos. O casamento ou a concubinagem desvirtuariam o espírito do nosso amor, tão puro e tão elevado... O matrimônio carnal é incompatível com a sagrada amizade, com a verdadeira dedicação, porque vive dos sentidos e não do sentimento... Se tivéramos algum dia unido os nossos corpos, as nossas almas estariam hoje separadas! Se algum dia tivéramos tido em nosso consórcio, que foi tão claro e tão casto, outros laços que não o desta profunda e delicada afeição que nos irmana; hoje, que somos velhos ambos e pois inúteis para a sensualidade, não teríamos — tu em mim a tua consoladora amiga; eu em ti o meu derradeiro amor...

César encarou-me surpreso:

Como assim? Pois eu negava o amor dos sentidos ligados ao sentimento do amor?...

(continua...)

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