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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

“Tenha a bondade, sempre que falar ao meu rapaz, de lembrar-lhe as obrigações e dizer-lhe com franqueza a responsabilidade que agora lhe assiste. Ele está se fazendo homem e precisa prepara futuro. Sirva-lhe de pai; acompanhe-o e proteja-o com o mesmo desvelo de que usou meu irmão para guiar a sua mocidade.” — Vê, disse o Campos, abalado com as palavras do irmão de seu protetor.— São estes os desejos de seu pai; ao senhor compete agora, como bom filho, fazerlhe o gosto, e dar-lhe a felicidade de que ele precisa para o resto da vida. O que estiver em minhas forças está à sua disposição mas o senhor também deve fazer por si, já não é tão criança para não ver o que lhe fica bem e o que lhe fica mal! Enfim, tenho toda a confiança no senhor, seu Amâncio, e estou convencido de que não me desmentirá!

Amâncio, que até aí ouvia o Campos em silêncio e com os olhos presos a um ponto, agradeceu-lhe muito aquele interesse e jurou que todo o seu empenho era corresponder à expectativa de seus pais e ser agradável o mais possível aos verdadeiros amigos de sua família.

E a conversa, tomando novas direções, descaiu em assuntos menos circunspectos. Veio então à bulha o baile do Melo, e Campos se queixou de que Amâncio, depois disso, nunca mais lhe aparecera em casa.

— Já tinha a intenção de lá ir domingo.

— Não, contradisse o negociante. — Vá antes sábado, amanhã, que é aniversário de meu casamento. Não há festa, mas reúnem-se alguns camaradas e toca-se um bocado de piano. Adeus. Não deixe de ir. Olhe, se quiser pode levar seus amigos. Adeusinho.

Amâncio acompanhou-o até a porta da rua e voltou ao quarto.

Estava preocupado; não mais com as cartas da família, mas com a deliciosa intenção de reatar no dia seguinte o namoro de Hortênsia. Só uma pequena circunstância lhe mareava o antegozo desses sonhados momento s de ventura: era a idéia dos seus compromissos como estudante; sentia-os agravados perante a confiança que lhe depositavam, e agora, mais que nunca, a consciência do seu relaxamento, a lembrança da haver faltado às aulas tantas vezes e de não ter aberto livro durante a última semana, agonizavam-no desabridamente.

— Oh! Os estudos! Os estudos eram o ponto negro de sua vida, o seu desgosto, o terrível espectro de todos os seus sonhos! As regalias que daí viessem mais tarde, fossem elas quais fossem, nunca poderiam compensar aquela profunda tristeza, aquele aborrecimento invencível, que o devoravam.

Semelhante preocupação tirava-lhe o gosto para tudo, azedava-lhe todos os melhores instantes de sua vida. Cada minuto, que se escoava na ociosidade, era mais uma gota de remorso caída no sombrio pélago de seu tédio.

E, contudo, os minutos, os dias e as semanas iam escapando, sem que Amâncio lograsse vencer a sua antipatia pelo trabalho.

Olhava com repugnância para os melancólicos compêndios da faculdade, e, quando teimavam muito em os conservar abertos defronte dos olhos, quase sempre adormecia.

Um verdadeiro tormento!

* * *

Amâncio obteve de João Coqueiro que o acompanhasse à soirée do Campos.

Foi uma noite cheia para ambos; se bem que Hortênsia ,de tão preocupada com os arranjos da casa, muito pouco se dera às visitas.

Carlotinha, sim, mostrava-se alegre e comunicativa que nem parecia a mesma. Chegou-se muito para Amâncio, meteu-se com ele de palestra,, a fazer pilhéria, a criticar das outras senhoras, com visagens disfarçadas e pequeninos risos estalados por detrás do leque.

O estudante ficou pasmo, quando descobriu que toda essa intimidade procedia do namoro dele com Hortênsia. À primeira indireta da rapariga, o rapaz corou e respondeu titubeando. Carlotinha, porém, o tranqüilizou, dando a entender que era discreta e interessada nos segredos da irmã.

E, já sem indícios de gracejo, aconselhou-o a que freqüentasse a casa com mais assiduidade; um Domingo sim, outro não, para jantar. Seria muito bem recebido, alguém fazia questão dessas visitas...

Amâncio, no seu papel de inocente, quis saber quem era esse alguém , mas a rapariga negou os esclarecimentos e pediu-lhe em segredo que se calasse, piscando o olho para o lado esquerdo, onde acabava de se assentar um sujeito gordo, de barba toda raspada.

— É o Costa! Nada lhe escapa!... soprou ao estudante por debaixo do leque.

E depois em voz alta, disfarçando:

— Pois o baile do Melo esteve muito bom!...

— Muito...confirmou Amâncio. — Há longo tempo não me divirto assim!...Mas, para a senhora creio que ainda seria melhor, as lá estivesse certa pessoa!... — Quem? O guarda-livros?...Ora!...

E, com ar desdenhoso, declarou que há quinze dias ficara tudo acabado.

— Seriamente? perguntou o estudante.

— Sério! E não me sinto com isso, até estimo! No fim de contas aquilo é um tipo impossível; tão depressa está para o norte como para o sul!

— Mas a senhora parecia gostar dele tanto...

— Pensei que fosse outra coisa...respondeu Carlotinha, franzindo os lábios. – Quando, porém descobri o que ali estava, dei tudo por acabado! Foi muito bom; antes assim do que depois do casamento!...

(continua...)

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