Por Aluísio Azevedo (1891)
Entretanto, ele parecia indiferente e alheio a tudo isso, e continuava escravo dos seus dolorosos enlevos, como se o seu espírito vivesse com efeito em um outro mundo, um mundo só dele conhecido, um mundo longe da terra e longe das suas duras melancolias religiosas.
E, cada vez mais taciturno e sombrio, seu vulto, quando agora vagava pelas estradas, já se não detinha aos gemidos dos desgraçados, nem ao riso alvar dos imbecis que escarneciam dele.
Salomé tinha razão: a cousa única que o preocupava agora, era o sono. Ângelo queria dormir tanto quanto possível, para sonhar muito. O delírio conquistara-o de todo. O sonho vencera a vida real.
Ângelo foi até ao seu quarto e parou junto à cama.
— Eis enfim o momento de dormir!... pensou ele. Dormir!—estranho modo de morrer! ... Sonhar! —estranho modo de viver!...
E atirou o chapéu para o lado, desfez-se do capote e continuou a meditar:
— Sim, murmurou, sacudindo a cabeça; sim, eu vivo nos meus sonhos, e mentiria se dissesse que os não desejo... Desejo-os ardentemente; volto deles com a consciência aflita e dolorida, mas durante as longas horas do dia, nada mais faço que chamar pela noite, para poder correr aos braços de Alzira!... Será vida o sonho?... E por que não?... por que supor que esta é vida verdadeira e a outra não?... Por que, se ambas têm a mesma razão de ser? as mesmas dúvidas, as mesmas incertezas! ... Não são ambas um mistério?... Saberei por acaso o que eu era antes de nascer e o que serei depois da morte?... De onde vim?... Para onde vou?... Eis o mistério!... A vida, qualquer que ela seja, não será sempre um ligeiro sonho que se esvai entre dois nadas? Sair de um ventre de mulher, para entrar no ventre da terra! ... Eis tudo o que se sabe! ...
E começou a espacear pelo quarto, gesticulando.
— Sim! Qual das duas vidas será a verdadeira?... Qual das duas será mentira e sonho?... Poderei afirmar que existo nesta?...
E começou a apalpar as mãos, e a estorcer, uns contra os outros, seus dedos magros e pálidos.
— Este meu corpo será com efeito meu, e será com efeito um corpo?... Ele com efeito existirá?... Eu o estarei vendo, ou tudo isto será ilusão?... (E apertou com força, entre os dedos, a carne do seu braço.) Todos estes objetos que me cercam, existirão com efeito?... Sim! Eu os vejo! eu os apalpo! Eu os sinto com o meu tato!
Salomé, que entrara com a merenda, estacou a olhar para ele. desconsoladamente.
— Que estará o senhor vigário a fazer às voltas com aquela cadeira?...
resmungou ela, notando que Ângelo tinha uma cadeira erguida nas mãos e a examinava com suma atenção. Parece admirar uma raridade! . . — Sim, exclamou o pároco. Isto existe!
E arremessou a cadeira ao chão.
— Mau! mau! resmungou a criada. Hoje está para quebrar as cousas!...
E foi ter com ele. carinhosamente, depois de largar sobre a mesa a bandeja da merenda.
— Por que não trata de comer alguma cousa e recolher-se, senhor vigário?... Olhe que já são quase sete horas!...
Ângelo despertou:
— Sete horas? Já? Sim, sim, vou deitar-me! Preciso dormir! dormir muito!
— Mas há de primeiro tomar a sopinha de leite com pão! Vamos! venha para a mesa! (E conduziu-o até lá, puxando-o pelo braço). Assim! Agora beba um trago de vinho!
Ângelo obedecia, como uma criança, sem dizer palavra.
— Bem, disse a criada, quando viu que não conseguia fazê-lo comer mais nada. Agora pode recolher-se. Boa noite!
E saiu, soltando um fundo suspiro de lástima.
O presbítero continuou perdido nas suas cismas.
— Sonhar!... Sonhar!... Estarei eu sonhando agora, para daqui a pouco acordar nos braços de Alzira? ... não! mas isto existe!
E tomou de cima da mesa o canjirão de vinho.
— Tanto existe... prosseguiu ele. que eu posso quebrar este objeto! destruí-lo! (E despedaçou o canjirão contra a parede). Eu tenho um corpo que sente…tenho uma alma que dói! Ah! mas na outra vida palpita-me também o sangue dentro das veias! na outra vida a minha boca beija, os meus olhos choram, a minha carne treme de prazer e de dor! na outra vida governo os meus membros, dirijo os meus pensamentos, e piso a terra, e repiso o ar, e como, e bebo, e amo!
Nisto abriu-se surdamente a porta que dava para o interior da casa, e a veneranda figura do velho Ozéas desenhou-se contra a sombra.
Vinha abatido pela sua longa enfermidade; parecia mais velho e macilento. Afundaram-se-lhe de todo as faces e cavaram-se-lhe os olhos, onde transparecia agora, em vez do brilho místico que o iluminava dantes uma triste luz de mortal desesperança.
Imóvel, de braços cruzados sobre o peito, quedou-se a observar em silêncio o espectro do seu discípulo amado.
Ângelo que não dera por ele e continuava a monologar, gesticulando:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. A mortalha de Alzira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16527 . Acesso em: 9 mar. 2026.