Por Aluísio Azevedo (1897)
Notavase constrangimento geral. Ambrosina, todavia, desfaziase em obséquios e pedia que não tivessem cerimônia. Alfredo cercava Genoveva de solicitudes, falandolhe de vez em quando ao ouvido. O Melo chamavalhe a rir "Casal de pombinhos" e outras cousas que à matronaça não faziam bom cabelo, a julgar pelas suas olhadelas, repreensivas e cheias de conveniência, atiradas contra aquele.
Desenvolviase o jantar, e o acanhamento ia desaparecendo à proporção que as garrafas se esvaziavam. Ambrosina recuperava o bom humor e comia já com apetite. Alfredo elogiava o vinho e atochavase de leitão assado.
— É o que se leva deste mundo! observoulhe o Melo regaladamente.
E o tempo corria. Repetiamse os pratos e os copos; iamse animando as fisionomias, e o vinho dava afinal à reunião uma caráter ruidoso e alegre. A própria rapariga do Rêgo, a princípio tão esquerda, arriscava já uma ou outra frase com pretensões a pilhéria.
— O caso é ela enxugar um pouco! explicava o Rêgo; e prometia que lá para o fim do jantar estaria soberba.
— O senhor confundeme.. respondeu a infeliz, abaixando maliciosamente os olhos e procurando ter graça.
Gabriel queixavase de que faltava ali muita gente; dos seus convites só quatro vingaram.
Nestas ocasiões é que se conheciam amigos! sentenciou o Melo.
Ambrosina pedia a Gabriel que se não mortificasse e, passandolhe o braço na cintura, deulhe um beijo na orelha.
Veio a sobremesa. Estourou o champanha, e o jantar esquentou logo.
O Rêgo ergueuse para um brinde.
— Meus senhores! disse ele; bebamos à saúde de um jovem que, por suas virtudes e por seu talento, muito merece de nosso respeito e de nossa consideração... Bebamos à saúde daquele que hoje nos reúne nesta casa, ao som dos alegres estampidos da viúva Clicôt!
— Estampidos da viúva? Livra! bradou o Melo.
— Ao dr. Gabriel! exclamaram muitas vozes.
Todos corresponderam, e Gabriel levantouse de taça em punho, para agradecer o brinde e o comparecimento dos seus convidados.
Ouviuse então uma infernal gritaria de "Hup! Hup! Hurra!" e os copos se chocaram entre gargalhadas e exclamações de prazer. Já falavam todos ao mesmo tempo, e o tal companheiro do Melo, até aí silencioso, abriu a fazer discursos com tal fúria, que não havia meio de o conter.
Alfredo servia Genoveva de vinhos e oferecialhe várias guloseimas, que ela em geral recusava, abaixando os olhos, cheia de decoro, mas esfogueada.
Entretanto, iase fazendo por toda a mesa um rumor de desordem. Já ninguém se entendia.
Interrompiam uns aos outros, sem a menor cerimônia; ouviase no meio do barulho a voz excitada do Melo, a dirigir um brinde à Ambrosina, em que lhe chamava "Anjo de amor e proibido fruto do Paraíso".
Ambrosina riase muito, a pender a cabeça para trás; levantouse e foi ter com o autor do brinde para lho agradecer. O Meio apertoulhe o braço num arremesso de ternura.
Gabriel mandou abrir mais. champanha, e o companheiro do Melo continuava, terrível a fazer discursos. Brindou à Mocidade, ao Amor, à República e ao Prazer. A rapariga do Rêgo havia encostado no ombro deste a cabeça, e deixouse afinal cair no colo do amante, desfazendo o penteado.
— Já ia ficando boa!... afirmava o Rêgo, a piscar o ôlho.
Alfredo e Genoveva conversavam intimamente, invernados na sua obscura ternura.
Ninguém prestava mais atenção ao que faziam os outros. Ambrosina declarava sentirse bem. As garrafas substituíamse quase sem intervalo, e as vozes recrudesciam de animação.
O amigo do Melo calarase afinal, vencido por uma comoção que lhe arrancava lágrimas e soluços. Gabriel com a voz arrastada e os olhos mortos, oferecia charutos à sociedade.
Dissolveuse a mesa. Serviuse o café e vieram os licores. Os convidados espalharamse pela casa. Ambrosina lembrou um passeio ao luar, no jardim; ninguém acedeu, ela, porém, deu o braço ao Melo, e com este ganhou alegremente a chácara.
Os dois, ao chegarem a um caramanchão, que havia ao fundo, estreitaram aos beijos, caindo sobre um banco, nos braços um do outro.
Ela, não obstante, negavase, mas sem forças para se defender, e rindo.
O Melo arfava, a segurar as lunetas e tartamudeando palavras de amor. De repente ergueuse, olhando para os lados. Sentira passos ali perto! Ia jurar que alguém. os espreitava!...
— Não é nada... dizia Ambrosina, com os olhos cerrados e os lábios soltos.
E puxavao pelas abas do fraque.
O Melo tornou a cair sobre o banco.
Alguém com efeito os havia espreitado. Os passos ouvidos pelo rapaz eram do Médico Misterioso que, depois de espiar lá de fora por algum tempo a festa de Gabriel, seguira com a vista Ambrosina quando esta ganhou a chácara com o Melo; depois penetrara sorrateiramente no jardim, fora até ao caramanchão e, tendo observado o que aí se passava, dirigiuse para a sala de jantar.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.