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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

Isso mesmo. E eu vou já dizer ao Tunda-Cumbe a tua promessa, que é para não haver duvida. Os dois tinham chegado à beira da estrada.

- Ah! Esqueci-me do saco de batatas que Moçambique mandava lá para casa. Volto a buscá-lo.

Separaram-se, Germano para tornar, como disse, à palhoça dos negros, Pedro de Lima para tomar à direita a direção da mata.

Quando eles desapareceram, saiu do mato um vulto com passo sorrateiro e cauteloso. Era Lourenço, que por entre o arvoredo os havia seguido, amparado pelas folhagens, quase ombro a ombro com eles, sem que o vissem. Ele entretanto, que também os não vira, ouvira, sem perder uma palavra sequer, toda a conversa que tinham tido os dois conjurados desde a palhoça até a beira do caminho.

Marcelina estava na porta da casa.

Vendo o filho com a espingarda, as primeiras palavras que para ele teve foram estas:

- Que anda fazendo pelo mato a esta hora, Lourenço? Nem sabes que susto acabo de ter.

- Que foi que aconteceu, minha mãe?

- Passou por aqui mesmo, há instantinhos, um homem que, depois de passar, ficou ali de pé a olhar para cá e a fazer jeito de quem queria saber ou ouvir alguma coisa de cá de casa. Sabe quem era? Pedro de Lima.

- Pedro de Lima, aquele malvado?! Virgem-da-Conceição. Entra Lourenço, que quero fechar logo a porta.

Ele que anda por aqui a esta hora, fazendo bem não é. Quer saber o que estava fazendo o cabra? - Fala baixo, que ele ainda pode estar por ai. Mas o que foi?

Uma das suas. Mas o pior foi o que fez o ladrão do moleque, o Germano. Em vez de ser pelo senhor, prometeu ser pelos mascates e botar água dentro das armas, quando o engenho for atacado. Que negro ingrato e perverso! Tive desejos de lhe dar um tiro na cabeça, quando lhe ouvi as traidoras palavras. Mas eu nunca atirei em ninguém.

- Virgem Maria! exclamou Marcelina. Pois querem atacar o engenho?

- Foi o que disse Pedro de Lima. Germano não tarda a passar por aqui. ah! Ali vem ele. - E que queres fazer? Queres dizer-lhe alguma coisa?

- Quero, sim senhora.

- Vai para dentro, que eu falo ao moleque. Ele a mim há de atender mais do que a ti.

- Ainda bem não tinha Lourenço entrado, quando o negro passava pela frente da casa trazendo o saco de batatas nas costas. Se não me engano, é Germano que vai aí, disse Marcelina em voz alta, a fim de ser ouvida. Sou eu mesmo, sinhá Marcelina, respondeu o negro. Quer alguma coisa?

- Eu logo vi que tu ainda havias de andar por aqui. Porque diz vosmecê isso?

- Se não vais com muita pressa, dá-me cá uma palavra.

O negro parou à porta da casa.

-Senta-te nessa pedra que te quero dizer uma coisa.

- A pedra está muito quente eu oiço mesmo de pé o que tiver de me dizer. Pois olha; nessa pedra mesma esteve ele sentado, há pouquinho.

- Ó xentes! Ele quem, sinhá Marcelina?

- Anda cá. Pois tu não sabes quem podia ser? O Pedro de Lima.

- Seu Pedro de Lima?! perguntou o negro subitamente alterado. Ó xentes! Seu Pedro de Lima!

- Então, ele não andou por estas beiradas ainda agorinha? Quererás negar?

- Ele andou, é verdade, respondeu Germano, entre aterrado e tremulo.

- E que coisas te disse ele?

- Pois vosmecê sabe o que ele me disse?

- Chega-te para perto de mim, que eu não te quero botar a perder, Germano.

O negro aproximou-se, com passo tardo, porque em cada pé começou a sentir o peso de uma arroba, depois que ouvira as ultimas palavras da cabocla.

- Queres saber o que foi?

- Diga, sinhá Marcelina.

Ele esteve contigo na palhoça de Moçambique, e falando-se aí sobre os motins que tem havido na vila e a revolta dos mascates do Recife, tu te ofereceste a botar água dentro das armas de teu senhor, para elas não pegarem fogo, quando o bando de Tunda-Cumbe atacasse o engenho.

Não se pode imaginar a impressão de medo, dor, arrependimento e cólera, que estas palavras produziram no espirito do negro.

Sem o querer, caiu-lhe do ombro o saco, e ele próprio, para sustentar-se de pé, teve de apoiar-se no ferro de cova que trazia em uma das mãos.

- Ora, dize-me, Germano, prosseguiu Marcelina: isto era coisa que tu dissesses àquele malvado? Podias tu prometer semelhante traição contra teu senhor, que te estima, e que, até já tem, por vezes prometido forrar-te? És um escravo indigno de ter liberdade.

O negro não respondeu. Triste, cabisbaixo, imóvel, não sabia o que dizer à cabocla.

Esta prosseguiu:

- Pois não seria muito mais bonito que, em vez de seres traidor e ingrato a seu sargento-mór, fosses o primeiro a defendê-lo na hora do ataque? Não terias tu muito mais segura a tua alforria, se, quando Pedro da Lima partisse contra seu sargento-mór, tu partisses contra Pedro de Lima, e com a foice, o facão, o chuço ou o bacamarte impedisses que ele fizesse mal a teu senhor ou á tua senhora?

Germano não era um negro bronco.

Ouvindo estas palavras, percebeu que nelas se lhe oferecia uma porta para sair da situação cruel e desprezível a que fora arrastado.

Então soltou-se-lhe a voz, que estava presa.

(continua...)

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