Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

— Dêste, já eu tinha notícia. Há uma antiga de vaqueiros, acudiu João Correia. 

— Ainda esta noite os rapazes a cantaram lá no Bargado, tornou Daniel Ferro, que entoou a 

primeira quadra da trova. 

 

Eu fui o liso Rabicho 

Boi de fama conhecido 

Nunca houve neste mundo

Outro boi tão destemido. 

 

Padre Teles, que fôra atalhado na sua crônica do Dourado, aproveitou o ensêjo para introduzir também a sua quadra: 

 

Minha fama era tão grande 

Que enchia todo o sertão; 

Vinham de longe vaqueiros

P’ra me botarem no chão. 

 

— Já vejo que êste foi uma espécie de Minotauro, pois tinha de homem a fala, observou o Ourém que ria-se daqueles entusiasmos sertanejos. 

O capitão-mór ordenou silêncio com um gesto para opor a seguinte contestação: 

— O Rabicho da Geralda, sr. Daniel Ferro, foi sem dúvida um corredor de fama. Nós ainda conhecemos o José Lopes, vaqueiro da viúva, que nos contou as proezas de seu boi. Mas nosso parecer é que não chegava ao Dourado. 

— Veja o sr. capitão-mór queo Rabicho zombou dos melhores catingueiros de todos êstes sertões, até do Inácio Gomes que ainda hoje tem nome na ribeira do São Francisco. 

— Não era nada à vista do Louredo, nosso vaqueiro; pode acreditar, que é a verdade. 

— O Rabicho andou onze anos fugido, sem que se tivesse notícia dele; e o Dourado, como o sr. capitão-mór mesmo disse, só há sete anos é que apareceu. 

— Onze anos? interrogou o fazendeiro: 

— A cantiga diz: 

 

Onze anos eu andei 

Pelas caa ingas fugido; 

Minha senhora Geralda 

Já me tinha por perdido. 

 

O argumento tirado da cantiga, embaraçou o capitão-mór, que voltou-se para o ajudante:

— Que lhe parece, Agrela? O ajudante acudiu pronto. 

— É certo, senhor alferes, que o Dourado, como disse muito bem o sr. capitão-mór, só há sete anos apareceu; mas ninguém sabe quantos anos andou sumido pelas serras, sem que se soubesse dele. Ora, sendo um boi ainda novo, como atestam quantos o conhecem, não é muito que viva ainda uns vinte anos e mais. 

— Então que diz a isto? perguntou o capitão-mór triunfante com a argumentação de seu ajudante. Vinte anos para onze!… 

— Ainda não me rendo, tornou o Daniel Ferro. Se o Dourado pode durar ainda vinte anos, o que não nego, o Rabicho com certeza chegaria aos trinta, se não viesse aquela sêca tão grande. Foi preciso ela para acabar com aquele boi. 

O capitão-mór outra vez embaraçado volveu o olhar ao ajudante que não demorou a réplica. 

— Aí está a diferença. O Rabicho acabou com a sêca, e o Dourado escapou dela, como escapará de todas as outras por maiores que sejam. 

— Está vendo? concluiu o fazendeiro peremptoriamente. Pode jurar em nossa palavra, sr. Daniel Ferro. Nunca houve boi como o Dourado; quem lho diz é o capitão-mór Gonçalo Pires Campelo; se alguém disser o contrário, mentiu. 

Em vista desta afirmação categórica, o Daniel Ferro hesitou na réplica; pois o argumento do sofístico ajudante não o convencera. Mas era teimoso, e em risco de incorrer no desagrado do potentado, ia sustentar a sua opinião, quando felizmente ocorreu uma circunstância, que pôs têrmo ao incidente. 

Era tempo. O Agrela previra o efeito que a insistência do Daniel Ferro ia produzir no capitão-mór, cuja vontade imperiosa não sofria a mínima contrariedade e estava acostumada a ser, não somente obedecida como lei, mas aceita como ponto de fé. 

Receando, pois, que a partida de prazer tão aprazivelmente começada, fosse interrompida por um desagradável conflito, o ajudante aproveitou-se do primeiro pretêsto para desviar da disputa a atenção do potentado: 

— Lá está o Dourado! exclamou com grande alardo, apontando para a várzea. Senhores, o Dourado!… 

O capitão-mór adiantou-se para ver o famoso corredor. D. Genoveva e as moças aproximaram-se com viva curiosidade. Marcos Fragoso, Ourém e o capelão que falavam com as senhoras justamente acêrca do herói, acompanharam o seu movimento. 

Agrela tinha apontado a esmo para um boi, cuja côr pudesse até certo ponto desculpar o engano. Mas o acaso incumbira-se de tornar certo o seu dito; pois precisamente naquela ocasião, o rei dos pastos de Quixeramobim, assomava no descampado. 

Era um boi alto e esguio. Seu pêlo isabel na côr, longo, fino e sedoso, brilhava aos raios do sol com uns reflexos luzentes, que justificavam o nome dado pelos vaqueiros ao lindo touro. Em vez das largas patas e grossos artelhos dos animais de trabalho, êle tinha as pernas delgadas e o jarrête nervoso dos grandes corredores. 

Os chifres não se abriam para diante em vasta curva, mas ao contrário erguiam-se quase retos na fronte como dardos agudos e à semelhança da armação do veado. Esta particularidade indicava que o barbatão não se criara nas várzeas, mas que desde garrote se acostumara a bater as brenhas mais espêssas e a atravessar os bamburrais emaranhados. 

Azara refere ter visto no Paraguai muitos exemplares desta espécie de chifres verticais e direitos, a que alí dão o nome de chivos. 

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...5556575859...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →