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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

– Não, isto é assim; eu, e todas, o temos experimentado. Há ocasiões em que um homem, que nos é indiferente ou só estimado como amigo, que nos respeita, que só por amizade pura e sem interesse freqüenta a nossa casa, põe, apesar disso, em dúvida a inocência de nossas afeições; e, sem o pensar, abre caminho à mordacidade, e presta uma vítima à calúnia!

Cândido não respondeu. Ficou olhando para Mariana como querendo apanhar-lhe algum pensamento oculto, que acabasse de ressumbrar em suas últimas palavras.

Depois de hesitar também por algum tempo, a viúva continuou com voz muito comovida:

– O senhor mesmo não tem escapado à maledicência.

– Eu? exclamou Cândido estremecendo.

– É verdade.

– E como?... e por quê?

– Eu lho vou dizer... custa-me muito a fazê-lo, porque talvez o senhor se julgue ofendido; mas eu cumpro o meu dever... o meu desgraçado destino de mulher.

– Fale sem receio, minha senhora.

Mariana hesitando sempre, e sempre comovida, começou, pobre escrava, a cumprir as ordens de seu senhor.

– Sabe, que mortos os pais de Celina, foi o meu, como avô dela, nomeado seu tutor, que ele e eu recebemos a sagrada missão de velar por ela, e de fazer tudo por torná-la feliz?...

– Sei, minha senhora, respondeu Cândido que de novo estremecera ouvindo pronunciar o nome da “Bela Órfã”.

– Pois então, tornou Mariana, compreende a imensa responsabilidade, que pesa sobre nós?... compreende que sobre meu pai, e sobre mim recairá a culpa de qualquer falta que por minha sobrinha for praticada, ou da calúnia que contra ela ousarem lançar?...

– Compreendo, disse o mancebo recordando-se das lágrimas do velho Anacleto.

– Agora escute: esse povo insano, que não vive senão quando murmura, essa gente indigna, que quando não acha uma ação de que murmurar inventa-a para com ela alimentar-se; esse povo, essa gente quando vê um mancebo solteiro freqüentando a casa em que existe uma senhora que não é casada, não pergunta o motivo de suas visitas, não indaga a origem das relações que existem, brada, insulta, calunia!

– Que quer dizer, minha senhora?...

– Quero dizer que desde as primeiras visitas que do senhor recebemos graças, eu me ufano de o declarar a todos, graças a nossos reiterados convites, minha sobrinha e o senhor tem sido vítimas da aleivosia.

– É possível?!

– Ousam dizer que Celina e o senhor se amam e se correspondem, e que meu pai e eu protegemos esse amor...

– Mas é uma infame calúnia!... exclamou Cândido.

– E que importa ao mundo que murmura que o senhor e nós todos juremos que isso é falso?... que a sua presença nesta casa é devida somente a nossas repetidas instigações... que o seu comportamento aqui é nobre, é leal, é digno de um homem de educação?... o mundo continua a murmurar, como de fato tem continuado... vai de boca em boca passando a calúnia, e os últimos que a escutam já a recebem como verdade.

– Ah! senhora!...

Mariana hesitou, corando de si mesma. – Ousam dizer até... porque era horrível mentira, o que ia avançar; Cândido pensou que ela corava de vergonha disso que ousavam dizer, e falou a custo.

– Diga tudo, minha senhora, nada se deve esconder àquele que vai ser condenado.

– Ousam dizer que o senhor se gaba de merecer o amor de Celina a seus próprios amigos...

– Gabar-me a meus amigos?... eu sou pobre, minha senhora, muito pobre para ter amigos. Essa acusação é tão miserável que eu me rebaixaria se a combatesse.

– Hoje mesmo, e dentro de nossa própria casa a calúnia achou pasto para alimentar-se; ainda há pouco, quando o senhor cantava, houve quem visse muito fogo nos seus olhos, e uma declaração de amor no seu canto. No fim dele as amigas de minha sobrinha foram cercá-la, zombar, e dar-lhe irônicos parabéns pela sua futura felicidade.

Cândido sentia-se possuído de desespero e de vergonha; ansiado, faltava a seus pulmões ar para respirar; enxugava com o lenço suor copioso, que em bagas lhe descia pelo rosto. Seu coração estava comprimido por um pêso enorme; arquejava.

A viúva prosseguiu:

– Minha infeliz sobrinha correu para mim desolada, e escondida comigo no fundo de meu quarto, chorou tanto e tanto, que me fez dó, e obrigou a um passo que me causa realmente muita aflição.

– Ela chorou, senhora?... perguntou Cândido torcendo as mãos com violência.

– Oh! sim! ela tinha razão; perdoe-lhe, pois. Ela pesou as conseqüências desses boatos, e teve medo.

– E teve medo!... balbuciou automaticamente o mancebo.

– Porque, senhor, se esses boatos não forem desmentidos de algum modo

muito positivo, qual será o resultado deles? uma barreira se levantará diante do futuro da pobre menina. Nenhum homem de bem quererá pretender a mão, a posse da namorada de um outro, e, ou ela se casará com algum que não tenha sentimentos elevados... ou ficará eternamente solteira... o que é na verdade uma desgraça, ou, enfim, casar-se-á com o senhor.

– Ou enfim... balbuciou outra vez Cândido.

(continua...)

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