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#Ensaios#Literatura Brasileira

Memórias da Rua do Ouvidor

Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)

Essa linda moça era geralmente conhecida e tratada pelo diminutivo do seu nome batismal; como porém tenho algumas dúvidas sobre ele, dou-lhe o nome de Francisca, e fica entendido que a tratavam por Chiquinha.

E convêm ainda dizer que a Chiquinha pecava por seus costumes fáceis e sem escrúpulos, como já escrevi, mas estava longe da prática escandalosa do vício que hoje tão numerosamente corrompe e envergonha a cidade do Rio de Janeiro.

Ela era transviada, mas do gênero em que se mostrou a Perpétua Mineira, no último período de sua vida: sofismava quanto podia a indignidade de sua vida.

Ao lado esquerdo da rua seguiam-se casas quase todas térreas, e muito mais afastado para o Largo de S. Francisco de Paula o espaçoso sobrado de Luís José de Carvalho e Melo, depois Visconde da Cachoeira.(que será oportunamente lembrado).

Ao lado direito depois do sobrado da esquina alinhavam-se casas também térreas, em uma das quais, talvez na que foi mais tarde Farmácia Souller, ou em outra abaixo, morava o pouco afortunado Bernardo Avelino, que provavelmente devia sua ingrata fortuna ao fato de o terem em conta de poeta, porque rimava com facilidade, e muitas vezes com felicidade, compondo sonetos, glosando quadras e escrevendo cantos poéticos que tiveram sua voga, mas não rendiam dinheiro.

Tais eram os dois principais, conhecidos e nomeados ou distintos vizinhos da bela Chiquinha, que com o seu rosto todo branco lírio sem auxílio de pó-de-arroz nem de velutine, com suas faces de rosas sem socorro de carmim, com seus cabelos pretos e longos, que excluíam a idéia de crescentes de hoje, com seu corpo tão bem-feito e de formas tão graciosas que repudiava como insulto a ousadia de um postiço, reclamava e impunha adorações, mas só as recebia ou de caprichosa escolha, ou de inconfessável interesse.

Luís José de Carvalho e Melo, o vizinho do lado esquerdo da rua, homem ilustrado e estudioso, grave, respeitável, honradíssimo magistrado, de posição oficial distinta e honesto chefe de família, não dava a menor importância aos merecimentos físicos da Chiquinha, e esta de todo menosprezava o poeta, vizinho do lado direito, que se sentia sempre do lado sinistro, quando se metia a fazer a corte quer em prosa quer em verso à linda moça.

Mas evidentemente a Chiquinha não era assim cruel por inimiga da poesia, e dos homens de espírito brilhante, pois que se deixara cativar em 1822 pelo mais elegante e mimoso dos escritores da época, cultor inspirado das musas, literato ameníssimo, o qual também andava perdido de amores por ela.

Este namorado e amante da Chiquinha era sem mais nem menos o ilustre benemérito da Independência, depois deputado nas duas primeiras legislaturas (de 1826 a 1833), e nelas esplêndido e mavioso orador parlamentar, o notabilíssimo fluminense Joaquim Gonçalves Ledo.

A memória desse varão assinalado não pode ser amesquinhada pela lembrança de sua paixão (aliás de todos sabida em 1822) pela formosa Chiquinha, e tanto mais que Ledo foi sempre em sua vida famoso como grande e entusiasta apreciador do belo na arte, e transportado adorador do belo na mulher.

Joaquim Gonçalves Ledo foi grande e fulgurosa inteligência e grande coração patriota, e se quiserem nodoar-lhe a memória ilustre pelas suas fraquezas ou pecados de amoroso culto rendido à Chiquinha, e a outras belas damas, adeus memória de Francisco I, de Henrique IV, de Luís XIV de França, de D. Pedro I do Brasil, dos Richelieu, do regente Duque de Orleans, de José Bonifácio, etc., etc., etc., etc. e no fim de tantos et coetra raro seria o rei, o ministro, o herói, e até o João Fernandes capaz de atirar a pedra sobre aquele benemérito e glorioso fluminense.

Mas Ledo, que andava doido pela Chiquinha, tinha, certamente, ótimas razões para duvidar da fidelidade dessa encantadora rapariga, que aliás também o amava com dedicada preferência; injustíssimo, porém, se mostrava às vezes ciumento de Bernardo Avelino, que, coitado, realmente gostava muito da Chiquinha, mas gastava debalde com ela sua prosa e seus versos, sem dúvida porque, pobre como era, o poeta não tinha senão prosa e versos para recomendar o seu amor.

Um dia (foi depois de 15 de setembro de 1822), Ledo, jubiloso e feliz pelo triunfo da causa da independência da pátria, à que tão dedicada e gloriosamente servira, foi radioso e alegre render finezas à Chiquinha.

Tinha a bonita moça além da sua boniteza e graça natural o dote de focar sofrivelmente guitarra, e de cantar com excelente voz modinhas e lundus.

Dizem que não havia quem como ela cantasse com doçura, expressão e requintado gosto a modinha então em moda, versos do ilustrado filósofo depois Marquês de Maricá:

Marília, se me não amas,

Não me digas a verdade, Finge amor, tem compaixão, Mente, ingrata, por piedade.

Doce mentira

Sabe agradar;

Um desengano Pode matar.

Naquele dia a Chiquinha pediu a Ledo que lhe escrevesse alguns versos para a música de modinha ou de lundu que ela costumava cantar, favor que aliás estava habituada a merecer.

(continua...)

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