Por Gabriel Soares de Sousa (1587)
Deste engenho se torna a afeiçoar a terra fazendo ponta para o mar, que terá comprimento de meia légua, e no cabo dela se chama a ponta de Tomás Alegre, até onde está tudo povoado de fazendas e canaviais, em que entra uma casa de meles de Marcos da Costa. Defronte desta ponta está o fim da ilha de Maré, daqui torna a fugir a terra para dentro, fazendo um modo de enseada em espaço de uma légua, que toda está povoada de nobres fazendas e grandes canaviais, no cabo da qual está um formoso engenho de água de Tomás Alegre, que tem uma ermida de Santo Antônio mui bem concertada. Deste engenho a uma légua é o cabo de um esteiro, que se diz a Petinga, até onde está tudo povoado e plantado de canaviais mui formosos. Esta Petinga é uma ribeira assim chamada, onde se pode fazer um formoso engenho de água, o que se não faz por haver contenda sobre a dita ribeira.
Por aqui se serve o engenho de Miguel Batista, que está pela terra dentro meia légua, o qual tem mui ornados edifícios e uma ermida de Nossa Senhora mui concertada. E tornando atrás ao esteiro e porto de Petinga, torna a terra a correr para o mar obra de meia légua, onde faz
uma ponta em redondo, onde está uma formosa fazenda de André Monteiro, da qual torna a terra a recuar para trás meia légua por um esteiro acima, que se diz de Mataripe, onde está uma casa de meles de João Adrião, mercador; por este esteiro se serve a igreja, e julgado do lugar de Tayaçu-pina (?), que está meia légua pela terra dentro em um alto à vista do mar, povoação em que vivem muitos moradores que lavram neste sertão algodões e mantimentos e a igreja é da invocação de Nossa Senhora do Ó.
C A P Í T U L O XXIV
Em que se declara o sítio da terra da boca do esteiro de Mataripe até a ponta de Marapé e dos engenhos que em si tem.
Deste esteiro de Mataripe ao de Caípe será meia légua, ou menos, a qual está toda lavrada e aproveitada de muitos canaviais que os moradores que por esta terra vivem, têm feito. Neste esteiro de Caípe está um engenho de bois de duas moendas, peça de muita estima, o qual é de Martim Carvalho, onde tem uma ermida da Santíssima Trindade mui concertada com as mais oficinas necessárias.
Defronte deste esteiro de Caípe está um ilhéu de pedra meia légua no mar, que se diz Itapitanga, do qual esteiro corre a terra quase direita obra de uma légua ou mais, no cabo da qual está outro engenho de bois, fazenda muito grossa de escravos e canaviais, com nobres edifícios de casas, com uma fresca igreja de Nossa Senhora das Neves, muito bem acabada, o qual engenho é de André Fernandes Margalho, que o herdou de seu pai com muita fazenda. Ao longo desta terra, um tiro de berço, está estendida a ilha de Cururupeba, que é de meia légua de comprido, a qual é dos padres da Companhia, que a têm arrendada a sete ou oito moradores, que nela vivem.
Entre esta ilha e a dos Frades estão duas ilhetas, em cada uma das quais está um morador, que a lavra, e são de Antônio da Costa. Deste engenho de André Fernandes para cima vai fazendo a terra uma enseada de uma légua, no cabo da qual está o esteiro de Parnamirim; e defronte desta enseada, bem chegadas à terra firme, estão três ilhas; a primeira defronte do engenho, que é do mesmo André Fernandes, que tem perto de meia légua, onde tem alguns moradores, que lavram canas e mantimentos; e junto desta ilha está outra mais pequena, que é do mesmo, de onde tira lenha para o engenho; e mais avante de Parnamirim está outra ilha, que se diz a das Fontes, que é de João Nogueira, a qual é de meia légua, onde também vivem sete ou oito moradores. A terra de todas estas três ilhas é alta e muito boa. Na boca do esteiro de Parnamirim está um engenho de bois de Belchior Dias Porcalho, que tem uma ermida de Santa Catarina. Por este esteiro de Parnamirim entra a maré uma légua, no cabo da qual está outro engenho de bois de Antônio da Costa, que está muito bem acabado. Este esteiro de uma parte e da outra está todo lavrado de canaviais e povoado de formosas fazendas, no meio do qual está uma ilha de Vicente Monteiro, toda lavrada com uma formosa fazenda. E tornado à boca deste esteiro, andando sobre a mão direita daí a uma légua, está tudo povoado de moradores, onde tem muito boas fazendas de canaviais e algodões, a qual terra se chama Tamarari, no meio da qual está uma igreja de Nossa Senhora, que é freguesia deste limite. Esta terra faz no cabo uma ponta; e virando dela sobre a mão direita vai fugindo a terra para trás, até dar em outro esteiro que chamam Marapé, onde se começam as terras de Mem de Sá, que agora são de seu genro, o conde de Linhares.
C A P Í T U L O XXV
Em que se declara o rio de Seregipe, e terra dele à boca do Paraguaçu.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BRASIL. Tratado descritivo do Brasil. Portal Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=38095. Acesso em: 30 nov. 2025.