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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

— O Sr. Totônio remando na canoa de padre Antônio!

E Macário, no auge do espanto, voltou-se para a porta, escolhendo saída. Não havia que ver. O Totônio enlouquecera, estava doido de pedras! Bem lhe parecera diferente do que era. Trazia a cabeleira mal penteada, a gravata mal atada, o fraque mal escovado. Estava muito pálido, com olheiras fundas, e no olhar tinha um brilho estranho, um fogo que abrasava. Pobre Totônio!

O moço, percebendo o efeito das suas palavras, tentou explicar-se. Era estranhável que ele, moço de boa família, tendo recebido uma educação, tendo cursado aulas do Liceu, viesse oferecer-se para remador da igarité de padre Antônio? Certamente que não buscava uma profissão, um meio de ganhar dinheiro.

Era certo também que não procurava uma penitência de pecados mortais. Não. Nada disso. Também não era um ato de loucura, mas uma resolução fria e inabalável que livremente e no gozo inteiro das suas faculdades adotara.

— Mas como se explica? perguntou Macário, serenando o ânimo, e chegando-se para o simpático rapaz.

Ele, numa expansão, contou a desgraça da sua vida, sem ocultar coisa alguma, como se se confessasse. Desde a noite do baile do casamento do irmão, em que pela primeira vez depois de anos, vira a irmã da noiva, a adorável Milu, sentira que uma vida nova começara para ele. O seu coração abrira-se a sentimentos desconhecidos, um afeto forte o enchera, assenhoreando-se pouco a pouco, como numa embriaguez crescente, de todo o seu organismo. Quando o baile acabara, não havia para o Totônio Bernardino outra criatura no mundo senão a graciosa Emília, a rapariga de olhos pretos e boca perfumada. Que dizia? Não havia em todo o vasto universo senão o seu olhar travesso e o seu sorriso divino. Ela era o seu amor, a sua vida, o seu fim, a sua salvação. Amara-a doida e apaixonadamente, e desde logo esse amor dera-lhe a convicção profunda e inabalável de que não poderia viver sem ela. Não exagerava, não estava louco, não se tratava de criançada, como lhe haviam dito os amigos. Debalde o pai, o irmão e os amigos haviam tentado afastá-lo da rapariga, ridicularizando aquele namoro de criança, metendo à bulha a sua paixão ardente, censurando-a e punindo-a por fim. Tudo era inútil. Estaria privado de razão, seria um louco, mas amava, e esse amor era a sua vida. O pai quisera levá-lo para os castanhais em companhia do irmão e da cunhada, mas ele fugira de casa, e sozinho, embarcara numa pequena montaria de pesca, e seguira a galeota do Neves Barriga, em demanda do rio Urubus. Ali tivera a inefável ventura de achar-se muitas vezes a sós com o ídolo de sua alma, e ouvira a grata confissão de que correspondia ao seu amor. Imaginasse Macário se fora ou não feliz, e se essa doce intimidade de longos dias sob as laranjeiras em flor, devia ter aprofundado ainda mais o sentimento que os unia. Oh! era para a vida ou para a morte! Jurara, solenemente jurara à escolhida de seu coração um amor e uma fidelidade eternos, e ali, sem rebuço, falando a uma pessoa estranha que tinha o direito de duvidar da sua sinceridade, o Totônio Bernardino confirmava a santidade do seu juramento, e declarava que estava perdido, para todo o sempre perdido, se a sorte cruel o separasse da sua querida Milu.

O rapaz fez uma pausa, sufocado de emoção. Uma lágrima furtiva brilhou-lhe um instante nos olhos, mas ele enxugou-a disfarçadamente, e procurando dar firmeza à voz, continuou a narração dos seus tormentos de amor.

(continua...)

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