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#Romances#Literatura Brasileira

Luzia-Homem

Por Domingos Olímpio (1903)

O coração pulsou-lhe inquieto, ao avistar o tecto da casinha, vergando ao peso das telhas enegrecidas pelas intempéries, deslocadas pelos tufões. Naquele abrigo, onde gemia a mãe doente, e que ela amava como lugar do sofrimento dos fortes resignados e dos crentes; naquele sítio, onde Alexandre lhe propusera viverem eternamente juntos, ligados pelo mesmo afeto espontâneo e sincero, e lhe dera os cravos vermelhos que lhe haviam envolvido o coração com raízes vigorosas, e o inebriaram com o seu perfume suavíssimo; sob aquele tecto velho, a vacilar sobre as forquilhas de aroeira, passara dias de amargura, noites de vigília torturantes, e os momentos mais venturosos de sua existência humilde, ignorada; e ali, àquela hora melancólica, contrastando com as pompas deslumbrantes do crepúsculo, encontraria a satisfação dos seus supremos desejos.

Exausta da caminhada, estacou para tomar fôlego e consertar as vestes, como quem se aparelha para um lance de efeito. Prosseguiu, lívida e trêmula, com precauções de menina criminosa na iminência de castigo merecido.

A latada do alpendre estava deserta. Sobre a trempe fumegava uma grande panela de barro. Os utensílios domésticos estavam arrumados no jirau. O silêncio, um silêncio triste de abandono, era interrompido pelo queixume triste dos ganchos de ferro, donde pendia a rede, em que a mãe se baloiçava, defronte da porta do quarto escancarada.

— Que é isto? – perguntou-lhe a velha – Supus que viesses com Alexandre...

— Não – respondeu ela. – Vim do morro.

— Não foste à cadeia?

— Fui trabalhar.

— Que modos, filha? Esperava ver-te alegre e ditosa...

— Quem sou eu para merecer tanto?

— Tens alguma coisa? Estás cansada, não é?... Sempre digo que te matas sem proveito com os teus excessos de labutação.

— Teresinha não apareceu?

— Não.

— Sabe que Alexandre já está livre?

— Deus seja louvado!

— Agora vamos cuidar de nós – concluiu Luzia, atirando o manto branco sobre a corda atravessada ao canto do quarto. E, voltando ao alpendre, tratou do jantar da doente, que a seguia com os olhos carinhosos, olhos de mãe.

— Bem mereço este castigo. Sou eu a culpada. Abandonei-o por soberba, capricho... Teve razão. Não devia perguntar por mim – murmurou, enchendo de caldo a tigela. – Eu, no lugar dele, não viria atrás de uma ingrata feroz... Ah! os homens nada desculpam; não perdoam... São vingativos porque não são capazes de querer bem como nós, que, por eles, esquecemos tudo...

— Que tens, filha? – repetiu a velha, recebendo o caldo fumegante. – Choraste?

— Não – respondeu ela, a voz salteada, comovida. – É a fumaça que me faz arder os olhos...

E sentou-se à soleira da porta, desmanchando, lentamente, as bastas tranças, do lustre fulvo da asa da caraúna, as tranças que vendera por causa dele, dessa criatura ingrata, que os seus olhos, flébeis de decepção e de saudade, procuram, em vão, topar, de súbito, surgindo onde o caminho torcia, encoberto de moitas mortas de mofumbas e juremas, a cujos galhos, desordenadamente hirtos, contorcidos, a ventania vultarna dava movimento, gestos de aflição, nuns silvos de estertor.

CAPÍTULO XXIV

Separando-se de Alexandre, Teresinha, começou de sofrer a extenuante reação do esforço empregado para salvá-lo. Essa generosa empresa, que a seqüestrara à influência deletéria dos hábitos de viciosa passiva, que lhe despertara afetos adormecidos no coração, encrostado ao atrito do infortúnio e lhe deparava a inefável satisfação de ser útil, fora, muitos dias, o pólo da gravitação do seu espírito. Nesse período de agitação do cérebro ocioso e vazio, ela só pensava na iniqüidade do constrangimento de um inocente, no martírio da enxovia imunda, na arrogância petulante de Crapiúna e no cruel insulto, que a chicoteara como um relho. Alcançado o anelo de justiça e vindita, parecia faltar-lhe a razão de viver. As pétalas de sua alma, sob um fino, um suave orvalho do bem, se contraíam tristonhas, como folhas que, saciadas de luz e oxigênio, se encolhem para adormecerem ao avizinhar da treva, e se expandem viçosas ao raiar da seguinte aurora. Ela, porém, se sentia sepultada em noite sem esperança de alvorecer, sem o consolo delicioso do sonho a doirar a ignomínia da realidade, onde imergira, como num tremedal de lama gulosa.

Restava, entretanto, o remate da obra meritória, a felicidade de Alexandre e Luzia; vê-los casados, muito amigos um do outro; e fruir o saboroso quinhão de ventura do lar abençoado. Mas, os dois pareciam separados pela teia de aranha de melindres fúteis ou amarrados ao poste de caprichos injustificáveis. Seria mais nobre, mais humano, se estreitarem em decisivo amplexo, como faria ela, sem ponderar conveniências, escrúpulos, circunstâncias, num arroubo de paixão vitoriosa.

(continua...)

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