Por Aluísio Azevedo (1881)
Sebastião Campos desapareceu com o Casusa, levando a sua cesta de fogos, e todos os outros, mais ou menos excitados pelas libações aproximaram-se das anteparas da varanda. Cerrara-se completamente a noite; viam-se já os pirilampos da quinta palpitando na sombra; punha-se nova mesa, para os músicos, que continuavam a tocar o Cordeiro sapateava um fadinho ao som do Hino Nacional, mal podendo ter-se nas pernas; o Serra, boleando o seu respeitável ventre foi desafiado pela gorda Lindoca, e dançaram ambos; o Serra puxou Manuel, e, com o exemplo do patrão, atiraram-se também o Vila Rica e Manuelzinho, sem mais contemplações com a rigorosa pragmática comercial. O Faísca, que era fraco da cabeça e do estômago, dava para chorar espetaculosamente, lamentando-se com ânsias e suores frios dizia sentir um desgosto tremendo da vida, uma inabalável resolução de suicidar-se e uma vontade estúpida de vomitar.
Então um busca-pé, descrevendo no ar incendiados caracóis de grossas faíscas, foi cravar-se no rebordo da varanda, bem junto ao lugar em que estava Amância.
— Credo!
Fez-se um espalhafato. A velha pulou para trás, tossindo sufocada e o Cordeiro afiançava que, indo ela tomar fôlego engolira um busca-pé aceso. Ana Rosa, com o susto, correu até ao lado oposto da varanda, onde não chegava claridade. e caiu trêmula nos braços de Raimundo, que, contra os seus hábitos de rapaz sério, ferrou-lhe dois beijos mestres.
Os busca-pés repetiam-se lá fora sem interrupção. Acenderam-se afinal, os candeeiros e iluminou-se, a velas de cera ao fundo do lado esquerda da varanda, o vistoso altar, onde São João Batista, no meio de uma fulgência de luzes e flores de papel dourado, resplandeceu com o seu cordeirinho nos braços e segurando um cajado de prata.
Ficou tudo claro e alegre. Os músicos foram para a mesa, e Manuel distribuiu fogos por todos os convidados As mocas queimavam pistolas; os homens carretilhas, foguetes e bombas. Levantou-se defronte da casa uma grande fogueira de barricas alcatroadas, depois outras; e a varanda, com os seus estampidos, afogueada pelo clarão vermelho, cuspindo baias brilhantes e multicores, parecia um baluarte em guerra.
Dias, alheio a tudo isso, passeava de um para outro lado, embebido na sua preocupação Aquelas pistolas brancas e compridas, ainda mais o irritavam, porque pareciam velas de cera.
Depois de jantar, a banda de musica retirou-se, tocando uma coisa alegre.
— Seu Freitas, dizia Bibina, me acenda esta rodinha!
— Ui! gritava ao mesmo tempo a Eufrasinha, procurando queimar uma pistola, tenho medo disto que me pelo!
— Pegue com o lenço, aconselhava a tia Sarmento — Seu moço, me escorve isto, por seu favor...
Sebastião e Casusa continuavam lá embaixo as voltas com os busca-pés, que se cruzavam no ar freneticamente.
Raimundo, ao lado de Ana Rosa, acendia no seu charuto os fogos que ela tocava, e falava-lhe baixinho em casamento.
— Na primeira ocasião falo a teu pai...
— E por que não falas amanhã?... mamãe foi pedida justamente num dia de São João!
— Pois bem, amanhã!. .
— Não m'enganas?.
— Não. E tu, dize, tu me estimas deveras?... Olha que o casamento e coisa muito séria!.
— Eu adoro-te meu amor!...
— Está ai o padre! Gritou Sebastião lá de baixo.
— Chegou o padre! Chegou o padre! repetiram muitas vozes.
Frei Lamparinas, efetivamente, chegava para cantar a ladainha. Acompanhavam-no quatro sujeitos de ar farandulesco; caras avermelhadas pela cachaça, cabeleiras à nazarena, paletós insuficientes, olhares cansados; um todo cheio de insônia e movimentos reservados de quem não conhece o dono da casa em que se apresenta Eram músicos de contrato, pândegos afeitos às serenatas, aos chinfrins de todo o gênero, estômagos vitimados às comezainas fora de horas, cujas digestões põem manchas biliosas na face. Um trazia um violão debaixo do braço, outro uma flauta, outro um pistão e outro uma rabeca. Entraram em rebanho, com os pés surdos e foram assentar-se, modestamente risonhos, na amurada varanda, a cochicharem entre si, olhando com tristeza gástrica para os destroços da mesa.
Casusa. que os seguiu desde lá debaixo, foi o único a cumprimenta-los, a cada um de per si, dando-lhes o nome e recebendo o tratamento de tu. Fez logo vir uma garrafa e serviu com intimidade, a rir lembrando-lhes outras patuscadas em que estiveram juntos Manuel acudiu também, oferecendo-lhes de comer. e insistindo principalmente com Frei Lamparinas que ainda não tinha jantado, conforme ele próprio confessava Recusaram-se todos, prometendo cear depois da ladainha. “Comeriam mais -l vontade!”
— Pois então vamos à ladainha!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O mulato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16537 . Acesso em: 25 mar. 2026.