Por Aluísio Azevedo (1882)
— Tenha a bondade! dizia ele; tenha a bondade de passar um instante à nossa sala de bilhar. É o que se vê! Asseio, simplicidade e cômodo completo! Agora temos ali a sala de jantar! Faça o favor de ir entrando... Aqui janta-se defronte das árvores! É como se fosse em plena floresta!... Ouvem-se da mesa cantar os passarinhos. Veja, sr. comendador, tenha um pouco mais de paciência e olhe V.
Exa. para isto: é a nossa cozinha... Pouco luxo, mas limpeza por toda a parte. Agora vou mostrar-lhe os banheiros!...
— Não! dispense-me, respondeu o comendador com delicadeza. Estou muito fatigado e preciso de recolher-me.
E, antes que Papá Falconnet o detivesse, já ele se tinha afastado para ir
visitar a filha.
Os hóspedes, que foram entrando pouco a pouco à proporção que anoitecia, olhavam com certa surpresa para o comendador e faziam entre si perguntas a seu respeito. Olímpia mostrou-se no dia seguinte, e dispensou que lhe servissem o almoço no quarto.
Era um domingo, a mesa encheu-se de hóspedes, que só nesse dia comiam no hotel. O comendador assentou-se contrariado ao pé da filha, depois de cumprimentar os outros comensais. Gregório estava entre estes e não tirava os olhos de Olímpia.
Esta impunha, sem saber, uma inusitada cerimônia. Fez-se constrangimento; ninguém se queria servir sem passar o prato ao vizinho. A figura nutrida do comendador destacava-se, amplamente, dentre dois rapazes magrinhos que pareciam irmãos. O Falconnet ocupava a cabeceira e falava, em tom reservado, sobre a excelência do almoço.
— Não me fica bem dizê-lo, repetia ele, mas incontestavelmente estes camarões estão soberbos!
E voltando-se para Olímpia:
— V. Exa. não quer repetir, minha senhora?
Olímpia respondeu que não com o garfo.
Mme. Falconnet distribuía pratos aos seus hóspedes. A conversa em breve começou a estalar de vários pontos da mesa, a princípio apenas murmurada, depois em tom mais alto, e afinal livremente solta. Os assuntos chocavam-se no ar. De um lado discutia-se a respeito da guerra franco-prussiana, que ainda nessa ocasião tinha cheiro de novidade; falava-se de outro a respeito da última estação da febre amarela; os dois rapazinhos parecidos disputavam uma questão sobre um tal Mateus, um deles afirmava que o Mateus era filho da Bahia, e o outro sustentava que era fluminense. Às vezes falavam pela frente do comendador e estendiam-se sobre o prato, quase a tocar nariz contra nariz; às vezes derreavam a cadeira para trás e gesticulavam agitando os braços pelas costas do seu vizinho comum do centro. O comendador, entalado entre os dois, ora se chegava para a frente, ora se empinava para trás, sem querer interromper com seu volumoso corpo as vistas dos contendores.
Dava-se com o comendador nessa ocasião um fenômeno muito vulgar. Ele ali, entre aquela gente singela e pouco escrupulosa na prática das etiquetas, se sentia, mais do que nunca, disposto a conservar a sua austera atitude de homem fino; o contraste estabelecido entre ele e os companheiros da mesa instigava-o a sustentar com muito empenho um grande ar diplomático que nem sempre era o seu. Em outros lugares, onde aliás qualquer sem-cerimônia não seria perdoada, o bom comendador nunca se mostrava tão fiel aos rigores da cortesia e parecia até disposto a abrir mão contra alguns deles.
Todavia Gregório não tirava os olhos de Olímpia. Sua imaginação cabriolava doida em torno da formosa criatura, procurando puxar-lhe pelos olhos, pelo riso ou pelo perfume dos cabelos, o fio de algum segredo, o segredo de alguma paixão, que a tivesse posto assim tão preocupada e tão triste, e lhe tivesse dado aquele ar melancólico de rola sem companheiro.
Depois do almoço apareceu o Dr. Roberto. O comendador carregou com este para o quarto e desabafou então com ele as suas penas.
— Fez bem! respondeu-lhe o médico à sua primeira pergunta; fez bem em não contrariá-la. Descanse que não levarão aqui muito tempo... Ela se aborrecerá em poucos dias!...
E, depois que o comendador lhe tornara a falar da cena da pedreira, interrogou:
— Ela estava em jejum?...
— Não. Havia tomado leite antes de sair de casa.
— Mas a crise só veio à volta?
— Só; continuando, porém, com uma tal veemência, que fiquei deveras assustado... Nunca eu a vira assim tão mal, doutor...
— Ela teve antes disso alguma contrariedade?
— Não...
— Viu alguma coisa que a assustasse?... encontrou-se com qualquer objeto que a sobressaltasse?...
— Não. Nada disso. Teve apenas uma vertigem quando estava lá em cima da pedreira; o moço carregou com ela e...
— Que moço?!... interrompeu o médico.
— Um trabalhador que se ofereceu para a pôr cá em baixo.
— E trouxe-a?
— Perfeitamente.
— Ela estava sem sentidos?
— Não dava acordo de si.
— E o rapaz... que idade terá ele?...
— Uns vinte e cinco anos.
— Era homem forte?...
— Fortíssimo. — Ah!
E, depois que o médico recebeu mais algumas informações de outro, bateu com o guarda-chuva no chão e disse entre dentes:
— Compreendo! compreendo, coitada!...
E, como o velho quisesse saber o que ele resmungava, Roberto respondeu, afagando a barba:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.