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#Romances#Literatura Brasileira

Filomena Borges

Por Aluísio Azevedo (1884)

Organizaram-se concertos, inventaram-se meios de a ouvir, de a ter perto, de a obsequiar. Os seus gostos foram imitados, as suas toilettes decretaram a moda da estação, as suas frases mais insignificantes converteram-se em apótemas.

— Isto vai mal!... considerava todavia o Borges, vendo que os seus horizontes, em vez de se acalmarem de todo, mais e mais se perturbavam. — Isto vai muito mal!... muito mal! Desde que cheguei a este inferninho de cidade, ainda não tive um momento de verdadeiro descanso, e já pressinto aliás que as coisas vão tomando um caráter ameaçador! Confesso que não estou nada satisfeito!

— Não sou dessa opinião, contrapôs o Guterres. — Entendo que o negócio caminha às mil maravilhas! Nós, o que precisamos é não dormir com o trabalho!

— Ó homem! exclamou o outro. — Pois você acha que temos trabalhado pouco? Você acha que é pouco o que temos feito?! Ainda não abandonei a pena senão para comer e dormir algumas horas!

— É pouco! é quase nada!

— É um artigo!

E com efeito, os quatro dias que tinham de Petrópolis foram devorados na confecção de um artigo político, uma espécie de autobiografia a jeito de programa ao mesmo tempo, peça original e divertida, na qual criticava o autor a lamentável situação econômica do Brasil, censurando e lamentando certas coisas, aplaudindo outras com entusiasmo, fazendo-se muito patriótico e empenhado na salvação desse "pais esplêndido, destinado por Deus a um grande destino, mas infelizmente vítima todos os dias do egoísmo e do desamor daqueles que, se compreendessem os seus deveres, deviam ser os primeiros a defendê-lo e honrá-lo perante o século dezenove e não procurar precipitá-lo no aviltamento e na vergonha".

O Borges tomara no hotel um gabinete especial para esses trabalhos. E a sua mesa, coberta de tiras de papel, cheia de livros abertos, coalhada de jornais, não parecia ter quatro dias naquele serviço; parecia ter vinte anos.

E ele, todo vergado sobre a pasta, a olhar carrancudo, a ponta da língua a brincar fora da boca, como a cabeça de um boneco de engonço, enchia e reenchia centenas de tiras, caprichando na letra, recorrendo aos dicionários, consultando o código, manuseando jornais velhos e lendo em voz alta .0 que ficava escrito, declamando enfaticamente as frases que lhe pareciam de mais efeito.

O Guterres nunca escrevia, apenas ditava; ora repimpado na cadeira de balanço, o copo de cerveja ao lado, a cabeça envergada para trás, a fisionomia cheia de preocupação, os olhos quase fechados, espiando atentamente por entre os dedos que ensarilhava no ar, defronte do rosto.

Ou então passeava pelo quarto, fitando o soalho, as mãos nas algibeiras das calças, o charuto fumegando a um canto da boca. E só se alterava para fazer uma visita ao copo ou dar uma vista d'olhos ao que escrevia o Borges.

Às vezes, depois de correr uma olhadela pelo trabalho tomava em silêncio a pena das mãos do outro, emendava alguma palavra mal escrita, largava de novo a pena sobre a mesa e prosseguia no seu passeio.

"Patriota e defensor acérrimo da Carta Constitucional"... bradava ele, destacadamente, acentuando a frase com um movimento de braço: "sempre tive por único objeto de meus esforços a prosperidade e a glória de meu país!" Escreva!

O Borges escrevia.

"No meu livro sobre o Oriente" (É bom falar nisso!) "escrito de colaboração com minha mulher, a Exma. Sra. baronesa de Itassu, e que muito breve verá a luz da publicidade, hei de provar o que há pouco avancei!".

E depois de dar ao Borges o tempo de escrever:

"Na política espanhola, na qual tive a honra de tomar parte durante as últimas revoluções do Cantonalismo..."

— Mas, filho, eu não tomei parte nisto! protestou o Borges, largando a pena e limpando o suor da testa. — O que se passou foi só aquilo que te contei! Para que havemos nós de dizer uma coisa que não é verdade?!...

— Cala a boca, homem de Deus!

— Não! Hás de convir que...

— Mau! Se você conta escrever só a verdade, esta bem servido nas suas pretensões! É melhor então cuidar de outra coisa!

O Borges coçou a cabeça, sem responder...

— Em política, meu amigo, disse o outro — verdadeiro é só aquilo que nos convém. Que diabo há de então você dizer, no caso que esteja resolvido a alegar em seu favor somente os seus serviços reais prestados à política?... Sim! Queres saber o que foi que você já fez por este ou por aquele partido! Se há qualquer coisa, diga, porque, olhe! não me conta!

O Borges olhou para ele, sempre a coçar a cabeça.

— Por conseguinte deixe-se de histórias, e escreva! Escreva, que o resto fica por minha conta!

Dai há pouco, suscitou a mesma questão a respeito de D. Luís de Portugal. O Guterres queria que o amigo desse a entender no seu artigo que havia em Paris gozado "a estima e a confiança do bom e afável Duque do Porto".

(continua...)

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