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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

Assim sucede sempre aos filhos educados à portuguesa, cujos pais como que sentem vexame de lhes patentear o seu amor.

Pobres pais! Quantas vezes não estarão morrendo por afagar o filho e, todavia, em vez de lhe darem um sorriso carinhoso, um beijo, uma palavra de doçura, fingem-se indiferentes e afastam-se para que o pequeno não lhes perceba a comoção.

Néscios! Julgam que com isso estabelecem uma corrente de respeito entre eles e os filhos; julgam que isso é indispensável para o bom êxito da educação; quando toda essa anomalia só pode servir para lhes roubar a confiança e a estima dos entes predestinados a dedicar-lhes todas as primícias de sua ternura.

Os pais dessa espécie levam a tal exagero a sua convencional rispidez, que, se acham graça em alguma coisa feita pelo filho, sufocam o riso, medrosos de que qualquer expansão acarrete uma quebra ao respeito filial.

Foi tudo isso, ao justo, que se deu com Vasconcelos a respeito de Amâncio. Amou-o, mas com disfarce; fingiu-se diretor inflexível, quando era simplesmente um pai como qualquer outro. Muita vez chorou de ternura, mas sempre às escondidas; muita vez sentiu o coração saltar para o filho, mas sempre se conteve, receoso de cair no ridículo.

E não se lembrava, o imprudente, de que o amor de pai é bem contrário ao amor de filho; não se lembrava de que aquele nasce e subsiste por si e que este precisa ser criado; que aquele é um princípio e que este é uma conseqüência; que um vem de dentro para fora e que o outro vem de fora para dentro. Não se lembrava, o infeliz, de que o primeiro existirá fatalmente, por uma lei indefectível da natureza; ao passo que o segundo só aparecerá se lhe derem elementos da vida. Foi desses elementos que Amâncio nunca dispôs para poder amar o pai

* * *

O fato é que , depois da leitura da carta, o estudante sentiu, pela primeira vez, algum desejo de dar notícias suas a Vasconcelos; até aí só o fazia por honra da firma.

Campos, que lhe apareceu em seguida, veio transformar esse desejo em vontade, falando-lhe da correspondência extraordinária que, pelo mesmo paquete, recebera do Maranhão. O velho Vasconcelos também lhe havia escrito, e, com tanto interesse lhe falara de Amâncio, tão inconsolável se mostrara e tão saudoso pelo filho, e com tal insistência pedira ao negociante para olhar pelo rapaz, que o bom homem não hesitou em correr logo à casa de pensão de Mme. Brizard.

O estudante carregou com ele para o quarto. — Aí conversariam mais à vontade.

— Pois, meu nobre amigo, disse o marido de Hortênsia, assentando-se defronte de Amâncio , e batendo-lhe uma palmada na coxa, — seu pai não se cansa de falar a seu respeito. São as saudades, coitado!

E tirando uma carta do bolso para entregar ao outro:

— Leia, leia e veja como está triste o pobre velho! Ah! meu amigo, acredite que — possuir um pai é a maior fortuna que se pode ambicionar neste mundo! Amâncio, entre outras coisas, leu o seguinte:

“Não imagina o Sr. Campos os cuidados em que eu e a minha boa Ângela nos temos visto por cá com a ausência do rapaz. Nunca pensei que nos fizesse tanta falta. Ela, coitada, leva a chorar desde que amanhece, e à noite é aquela certeza dos sonhos ruins a mais não ser! Acho-a muito magra e abatida de tempos a esta parte. Então quando não recebe cartas do filho, o que já se observa há três vapores consecutivos, fica prostrada de tal modo que se não pode levantar da cama. “Veja, por conseguinte, se alcança que o nosso estudante nunca nos deixe de escrever; duas palavras que sejam , dizendo como está de saúde e que vai bem nos seus estudos. Isso, que a ele não custará muito, poupa todavia cá por casa muitas horas de sofrimento e de desgosto.

“Até já me lembrou providenciar no sentido de fazê-lo vir no fim do ano passar as férias conosco, não sei, porém, se tal coisa será conveniente ainda tão no princípio da carreira. O amigo dispensar-me-á o obséquio de escrever a esse respeito.

“Em todo o caso, a idéia de que o senhor está aí, perto dele, e que , pelo que tem mostrado, é deveras nosso amigo, tranqüiliza-nos em grande parte. Conto, pois , que olhará sempre por Amâncio. Tenha paciência, sei que o importuno com estas coisas , mas que hei de fazer? Dizem tanto dessa Corte; falam de tal forma do clima e dos mil perigos a que aí esta sujeita a mocidade, que, só a lembrança de uma tísica galopante ou de um desses desvios, uma dessas loucuras que às vezes acometem aos rapazes e inutiliza-os para o resto da vida; uma dessas desgraças, Sr. Campos, que lhes sucedem facilmente, quando eles não dispõem de um bom amigo que os encaminhe e aconselhe; só a lembrança de tudo isso, meu caro senhor, é o bastante para me tirar o sossego do espírito.

(continua...)

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