Por Visconde de Taunay (1872)
Sentando-se então ao lado de Cesário, narrou-lhe tudo, o desespero que o minava, a certeza que tinha do amor de Inocência e a implacável sentença preferida por Pereira.
Ouvia-o Cesário atentamente. Só de vez em quando deixava escapar esta exclamação:
— Ah! mulheres!... mulheres! É a nossa perdição.
Depois que Cirino acabou de falar, encarou-o detidamente e, com ar severo, perguntou:
—Fale-me a verdade, doutor, o senhor nunca trocou palavra com Inocência?
Nunca esteve só com ela?
— Estive, respondeu o outro meio receoso.
As faces de Cesário subiu uma onda de sangue.
—Então, rouquejou ele, a desgraça...
—Deus meu, atalhou Cirino com fogo, caia a alma de minha mãe no inferno, se Inocência não é pura... se...
Conteve-o Cesário com um gesto.
—Basta moço: quem jura assim, não mente... Também no meu tempo tive uma paixão infeliz... e sei o que é sofrer...
—Oh! Senhor Cesário, salve-me!...
—Que posso eu fazer? Não sabe o senhor que ela hoje hão pertence nem mesmo ao pai, ao seu próprio pai? Pertence a palavra de honra, e palavra de mineiro não volta atrás... Não sabia o senhor disso, quando deixou que o amor lhe entrasse pelos olhos?... Mulheres não pensam... mulheres o que querem é ver os homens derretidos por elas... sacrificam tudo... e por um requebro pincham na rua a honra de suas casas ..
—Não, protestou Cirino, ela não é assim...
—Então é melhor que as outras? objetou Cesário com desdém.
—Sim, sim, é melhor do que tudo deste mundo. Acima dela, só Nossa Senhora!...
Ligeiramente sorriu o mineiro.
—Qual! observou ele, bem disse o outro: a paixão é um transtorno. Fica um homem que nem uma miséria! É...
—Então? interrompeu Cirino.
—Então o quê?... Já lhe não disse quanto basta? Minha afilhada pertence tanto a Manecão, como uma garrucha ou um guampo lavrado que Pereira lhe tivesse dado... Não há meios e modos de voltar atrás...
Não desanimou o mancebo.
Falou por muito tempo com verdadeira eloqüência, apelando principalmente para a proteção que todo o cristão tem obrigação de dispensar ao ente que leva à pia batismal, a seu segundo filho, ao pagãozinho por quem o padrinho se torna responsável perante Deus.
Feriu o sentimento religioso do mineiro e comoveu-o.
—Não me fale assim, contrariou este, o senhor quer ver se me puxa para o seu lado... E quem me assegura que Nocência gosta tanto da sua pessoa?... Quem? —O coração está-lho dizendo baixinho, respondeu com calma Cirino. O senhor, que é homem de honra, acredita que eu esteja mentindo? Que tudo isso é falso?... diga, acredita?
Cesário tartamudeou:
—Sim... Assunto verdades, mas...
—Ah! exclamou Cirino, o senhor sente a consciência bater-lhe que sua afilhada está desamparada, que vai ser sacrificada... e agora tapa os ouvidos e diz: Não quero ouvir, não quero cumprir a minha palavra! Por que a deu então o senhor... essa palavra de honra de que tanto tala?... Nossa Senhora que a proteja... que a tire deste mundo .. Isso há de pesar-lhe no peito... e, quando um dia tiver noticia que Inocência morreu de desgostos, há de dizer lá consigo que ajudou a cavar-lhe a sepultura.
Estava Cesário abalado; com verdadeira ansiedade retorquiu:
—Que histórias me conta o senhor? Eu metido no meu canto... vivendo tão sossegado... não bulindo com ninguém, e agora anarquizado por estes mexericos!... Quem o mandou vir cá?
—Quem seria, retrucou Cirino, senso Inocência? Porventura eu o conhecia?...
algum dia o vi?... Não; foi aquele anjo que me disse: busca meu padrinho, é o último recurso. Se ele não nos amparar, então... estamos perdidos de uma vez.
Estas palavras convenceram de todo Cesário.
Ficou em silêncio, recolhido, a meditar; Cirino o observava ofegante.
—Pois bem, disse por fim o mineiro em tom grave e pausado, hei de pensar no que o senhor me conta...
—Oh! Senhor Cesário!...
—Levarei dois dias a remoer sobre o caso... O que disse uma vez, não digo duas... No fim desse tempo, monto a cavalo e apareço por casa de Pereira...
—Sim, sim, balbuciou o moço.
—Amanhã mesmo, de madrugada, o senhor sal daqui e vai esperar-me na Senhora Sant'Ana.
—Irei... salve-me...
Cesário parou um pouco.
—Agora, quero que o senhor me faça um juramento... pelas cinzas de sua mãe.
—Estou pronto.
—Pela salvação de sua alma...
—Pela salvação de minha alma, repetiu Cirino. —Pela vida eterna...
Cirino acenou a cabeça.
— Jure!
O mancebo cruzou os dois índices e beijo-os com unção abaixando os olhos e empalidecendo.
—O Senhor, disse Cesário, Jurou antes de saber o que era... Deu-me boa idéia do seu caráter... Farei tudo por ajudá-lo, mas exijo-lhe uma condição... Se quiser aceitá-la, fica valendo o juramento; senão... o dito por não dito...
—Que será, meu Deus? murmurou Cirino.
—E ficar o senhor esperando em Sant’Ana. Se eu aparecer por estes oito dias, iremos juntos à casa do compadre. Se não, é que decidi contrário. Neste caso, virá o Senhor até cá e aqui esperará as suas cargas que mandarei buscar. Será sinal de que nunca mais há de procurar botar as vistas em Inocência... nem sequer falar nela. Aceita?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)TAUNAY, Visconde de. Inocência. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17500 . Acesso em: 28 fev. 2026.