Por Franklin Távora (1878)
Negros safados são todos vocês. Não prestam nem para tratar de libertar-se. Não sabem nem ao menos deixar a senzala, onde andam curtidos de fome e sono, pela mata virgem. Negros de patente eram os dos Palmares. Aqueles sim. Foram quarenta os que primeiro meteram a cabeça no mato; daí a pouco já eram não sei quantos mil. Vocês são ao pé de duzentos e têm medo do chicote do feitor. Vai, Germano, falar a João-Congo, a Thomaz, a Januario e a Jacinto. Se eles não tiverem coragem para a tragédia, faze tu o que te vou dizer. - Diga lá.
Quando o engenho for atacado por nós, corre a botar água dentro dos canos das armas de fogo. Isto é coisa muito fácil, e que tu podes fazer sem ninguém saber, nem ser preciso que alguém te ajude neste serviço.
Germano nada disse, e, pelos modos, deu mostras de que dentre diferentes alvitres indicados pelo audaz bandoleiro, era este o que mais lhe quadrava. Mas súbito, com gesto de quem tinha tomado uma resolução decisiva, assim falou a Pedro de Lima:
- - Sabe que mais, seu Pedro de Lima? Eu não faço a meu senhor isso que vosmecê propõe. Ele para mim é bem bom senhor. Até minha senhora, que é uma soberbona, essa mesma já uma vez me prometeu alforia. Pateta! Estás com medo, moleque ruim.
Este moleque é assim mesmo, disse Quiteria. Promete as coisas e não faz. Quer e não quer. Tem medo do bacalhau – disse o cabra despeitado. Não tem agora medo de minha faca, ou do bacamarte de Gonçalo Ferreira. Eu só digo uma coisa: encontrando-te diante de mim, no momento do ataque há de ser para ti a minha primeira facada ou o meu primeiro tiro.
- Não se zangue comigo, seu Pedro de Lima, disse Germano com certa expressão e revirado de olhos, para dar a entender ao mulato que ele tinha intenção reservada. Pois se eu visse Germano metido na dança, eu também me metia nela, disse Moçambique.
Estás ouvindo? Olha lá o que perdemos. Eu porém não quero que ninguém me acompanhe contra a vontade. Nunca pensei que não aceitasses a minha proposta. Quando te vi passar de tarde para esta banda, eu logo conheci que vinhas ao sitio das carvoeiras, e disse comigo: ‘Vou falar com Germano para ver se ele quer, a troco da sua liberdade, prestar-nos um servicinho. Eu estava na mente de que havia de te chamar para nós; mas, como não queres, nem por isso te farei mal. O que eu disse há pouco foi gracejo. De ti, pobre negro cativo, o que eu tenho não é ódio, é pena. E adeus. Perdi meu tempo e minhas razões. De outra feita talvez a coisa já não seja assim’.
- Eu também me vou embora, que já é tarde; disse Germano. Adeus, tio Moçambique. Com Deus amanheça, tia Quiteria.
- Vai-te embora daí que tu não prestas senão para chotear de jaqueta de galão atrás de teu senhor, abrir-lhe as porteiras para ele passar, e limpar as botas dele quando vêm cheias de lama – respondeu Moçambique.
- Você também de que serve? Perguntou Germano despeitado. Não é também escravo dele, como eu sou? Não é mais que a gente se levantar contra seu senhor! Mestre Moçambique, sabe que mais? Vá contar a outro as suas valentias, que eu nelas não creio, e tanto caso faço delas como dos latidos de cachorro velho, carregado de rabuje, que já não morde, porque nem dentes tem.
- Está bom, está bom, vai-te embora, meu pimpão – disse o Moçambique. Amanhã, tu me dirás quem é o cachorro velho que não morde. Talvez que a esta hora tu estejas na ponta da faca de Pedro de Lima, e eu na mata virgem.
Germano deu o andar para a vereda, onde já entrara Pedro de Lima, que saíra antes dele.
Adiante, debaixo de um cajueiro, um vulto estava parado. Era o matuto.
- Eu bem te endendi, Germano. E para saber todo o teu pensamento, aqui fiquei à tua espera.
- Quando é que vão atacar o engenho?
- Para te falar verdade, eu não sei bem quando há de ser o ataque.
Mas vamos cá saber uma coisa, seu Pedro de Lima: como posso Ter eu certeza de que serei livre se fizer o que vosmecê propõe?
Não há duvida que tudo há de ser conforme te digo. Pois queres melhor certeza do que a nossa vitoria? Olha cá. Se vencermos a nobreza, o governo passará a ser outra vez dos mascates, e passando a ser dos mascates o novo governo, está bem visto que todos aqueles escravos que nos tiverem ajudado a dar com o governo da nobreza em terra, terão em recompensa a sua liberdade.
- E se, em lugar de darem a eles a liberdade, os mascates ficarem com os negros na escravidão, não virá tudo a dar no mesmo?
- Mas se eu te afianço que tu pelo menos ganharás a tua alforria, que mais garantia queres do que minha palavra? Não duvides da promessa. Ajuda-nos a dar um ensino de mestre a esses senhores soberbões, e eu te asseguro que não te hás de arrepender. Pois sim, seu Pedro. Eu, como confio na sua palavra, estarei pronto, quando chegar o momento, a molhar as armas. Mas, olhe: todo o meu serviço não passará disso, porque eu não quero historias comigo. - - Nem eu exijo outro serviço além deste. Ficarei com ele muito satisfeito, e ele só será bastante para te forrares. Então, fica assentado isso mesmo, não é verdade?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.