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#Romances#Literatura Brasileira

O Ermitão de Muquém

Por Bernardo Guimarães (1869)

Atônito e confundido pela singular e quase miraculosa maneira por que ainda desta vez escapara à morte, pasmado dessa pertinaz constância com que o destino como que porfiava em prolongar-lhe a existência através de mil trabalhos e perigos, Gonçalo, esquecido de que se achava no meio de um caudaloso rio, em uma canoa que rodava à mercê da torrente, atirou-se sobre o assento da proa mergulhado em amarga e profunda meditação. Seqüestrado inteiramente do mundo, e vivendo só com seus merencórios pensamentos no meio do silêncio profundo da noite e da solidão, deixando boiar sem direção sua piroga ao capricho das ondas, que a levavam, Gonçalo era o emblema vivo do descrido, que percorre solitário as sendas áridas e desoladas de uma existência sem afeto no presente, sem saudades do passado, sem esperanças nem receios no futuro, e abandona sua sorte à torrente da fatalidade.

Que estranho fado o elevava assim alternativamente do último abatimento ao cúmulo da fortuna, da felicidade e da glória, para de novo arrojá-lo em abismo de desesperação e amargura? Que gênio amigo assim protegia tão visivelmente sua existência através de tantas e tão cruéis vicissitudes? Podia ele, que não era mais que um facínora, um bandido coberto de crimes, merecer tão assinalada proteção do céu? Entre estas e mil outras reflexões sua razão acalmava-se pouco a pouco com a paz profunda das solidões, e ao fresco bafejo das brisas da madrugada, que com as asas úmidas de orvalho lhe afagavam a fronte febricitante. Com a luz da consciência enfim ele pôde descer a perscrutar tranqüilamente os profundos abismos de sua alma, e a revolver um por um todos os monstruosos crimes e desatinos que constituíam a história de sua vida passada. Gonçalo então apareceu a seus próprios olhos como um monstro, que a humanidade devia repelir de seu seio com horror. O espectro do infeliz Reinaldo picado a facadas por suas mãos, as sombras errantes e chorosas da bela Guaraciaba e do esbelto Anhambira, cujo sangue ainda lhe tingia as mãos, e a desse mísero cacique, cujo cadáver rolava talvez a seu lado arrastado pela torrente, e de cuja desgraça era ele o único autor, ele os via a todos surgirem diante de seus olhos torvos e sangrentos, e com vozes lamentosas o cobrirem de pragas e maldições. Aquela alma de ferro caía enfim do fastígio do orgulho nos abismos da mais profunda humilhação. A flecha de Inimá não pôde penetrar naquele coração protegido por um escudo invisível e celeste, mas lá deixou para sempre gravada a farpa do remorso.

Este último acontecimento, que o salvava de uma morte quase inevitável e por ele mesmo procurada, foi como um brado do céu, que ecoou profundamente em sua alma obcecada pelo crime e obumbrada pelos fumos do orgulho humano. Compreendeu então que a Santa Virgem, que desde a infância venerara com especial devoção, não o tinha preservado em vão até ali de tantos e tamanhos perigos, e o reservava para algum santo e piedoso desígnio, que ainda lhe era oculto; mas reconhecendo-se indigno da assinalada e miraculosa proteção que do céu recebia, arrependia-se com sincera e amarga compunção de sua indesculpável ingratidão para com a sua celeste protetora, a cujos benefícios tão mal correspondera manchando sua vida com crimes e hediondos atentados.

Sua vocação estava enfim solenemente revelada. Só com uma vida de orações, de rudes penitências e de obras de piedade poderia expiar a longa série de seus crimes e de desvarios, e lavar as hediondas nódoas de sua vida passada. E quanto mais pensava e refletia, mais se fortalecia neste seu santo e inabalável propósito.

CAPÍTULO IV

O MUQUÉM

(continua...)

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