Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Til

Por José de Alencar (1872)

Já ele transpunha a distância, quando ouviu-se um grito dilacerante: o negro velho agitando convulsivamente os braços debateu-se no meio dos queixadas, como um náufrago no torvelinho das ondas, e estrebuchou.  

- Jão! exclamou Berta angustiada, mostrando o corpo do africano que tombava.  

- Não!  

Perseguido pelas feras, bem via o capanga que não tinha tempo a perder; a menor demora podia ser fatal. Os queixadas eram sanhudos e em numeroso bando. Se o envolvessem, tolhido como estava de um braço, corria grande risco Berta, a quem a morte dele Jão, longe de salvar, roubaria a última esperança.  

Por isso recusou-se ao pedido da menina.  

- Pois eu não o abandono! 

Retorquindo-lhe por esse modo, Berta soltou-se do braço do Bugre, para correr ao negro, como se ela, frágil menina, pudesse valer-lhe naquele transe.  

Preveniu-lhe Jão o impulso, e estreitando-a ao peito com força, atirou-se em um arranco de desespero para o lugar, onde o mísero Quicé acabava de cair às focinhadas dos porcos. Abarcando-lhe o crânio com a mão robusta, o capanga arremessou-o longe, de um boléu, como faria com uma pedra.  

- Foje, bruto! disse ele à ossada que varava pelos ares e que estalou entre os seus dedos.  

E com a faca de ponta que um instante segurava nos dentes para dispor da destra, começou a degolar e estripar os queixadas que o atacavam mais de perto e com sanha terrível. Era muitos, porém; e toda sua pasmosa agilidade não bastava para resistir ao aluvião de feras que sobre ele crescia, assaltando-o por qualquer lado com redobrado furor.  

Entretanto, pai Quicé, caindo a vinte passos, onde o pinchara Jão, embora meio desconjuntado com o tombo, tinha-se arrastado para a árvore, e pode a muito custo içarse pela rama a um galho mais rateiro, onde contudo estava a abrigo dos temíveis queixadas, que lhe tinham retalhado o couro relho das canelas.  

Aí refocilando na refocilando na egoística satisfação de se ver a salvo do perigo, que ameaçava a outros, o paizinho contemplava o combate de Jão Fera com os queixadas, como se fosse uma divertida caçada.  

Quando, porém, mais recobrado do abalo reparou na multidão dos animais bravios que envolviam o capanga, e na raiva com que investiam, o negro velho prevendo uma desgraça teve pena, e lançou os olhos ao redor com ânsia, buscando a esperança de um socorro que ele, débil e alquebrado, não podia dar.  

Com efeito, já o sangue de Jão corria dos golpes, que recebera nas pernas, e embora cada um tivesse custado a vida a muitos inimigos, outros sucediam-se, e outros, sem a menor intermitência. Era um ferir sem cessar.  

Por vezes quis o capanga servir-se da mão esquerda, recomendando a Berta que se agarrasse aos ombros; mas curvado como estava para alcançar o rasteiro inimigo, e com a menina atravessada aos ombros para subtraí-la ao furor de algum queixada, não se animara: temia que em momento de susto, ela escorregasse ao chão. 

- Nhazinha! disse Jão de chofre esfaqueando sempre. Tire na minha cintura a garrucha.  

Com a sua habitual vivacidade e petulância dobrou-se Berta pela espádua do capanga, para arrancar-lhe da cinta a pistola, que forcejou armar, porém não conseguiu.  

- Como é, Jão?  

- Ponha na minha boca, Nhazinha!  

Armou o capanga a pistola com os dentes; e arrebatando-a rapidamente da mão de 

Berta, desfechou sobre os queixadas um tiro à queima-roupa, que os fez recuar de terror.  

Aproveitou-se Jão desse momento para romper o círculo de navalhas que o ameaçava e precipitar-se pelo campo fora, em busca da árvore. 

Mas os queixadas, passado o primeiro estupor, arremeteram de novo na furiosa avançada.  

 

XI 

A furna 

 

Em meio da penha, que atravessava a mata virgem, por entre o embastido da folhagem, fendia-se a estreita boca de uma caverna.  

Era a furna de Jão Fera.  

Não tinha essa caverna traços de primitiva formação, quando o fogo subterrâneo vazara o esqueleto granítico daquele fraguedo; nem mesmo provinha de algum aleijão vulcânico, desses que às vezes subvertem as entranhas da terra.  

Antigamente o que havia ali era apenas uma grande laje, entalada na garganta do rochedo.  

Uma semente de jetaí, trazida pelo vento, caiu aí numa greta da pedra e brotou. Cresceu a vergôntea, mas encontrou a escarpa saliente da rocha que lhe ficava sobranceira, e foi insinuando-se por uma brecha do alcantil.  

Estorcendo-se como um cipó de umbê, para acompanhar as sinuosidades do estreito lisim, afinal surdiu fora no alto do penhasco. Apesar de comprimido entre a escacha da rocha, o cepo nutrido pelo humo exuberante que depositava sobre a laje o enxurro do monte, medrou, inseriu-se por todas as fisgas de pedra, e fez-se tronco.  

Um dia estalou o penhasco; e subitamente escalado, um estilhaço do alcantil rolou sobre a laje. Amparada de um lado pela curva do tronco, e do outro retida por uma aresta da fronteira escarpa, a grande lasca ficou suspensa na altura de alguns pés, formando assim a abóbada da gruta, fechada em torno pelos rochedos abruptos.  

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...5455565758...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →