Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
O velho Anacleto chegou pouco depois, e Cândido ficou ainda admirado ao vê-lo prazenteiro dirigir-se a todos, gracejando com as senhoras e animando a sociedade já um pouco fatigada.
Na alma de Cândido apareceu este pensamento; “Quem sabe se alguns dos que se estão aqui rindo alegremente, não terão ido chorar, às ocultas, como o velho Anacleto?”
Pela primeira vez em sua vida ele sentiu que, nas sociedades, o rosto se mascara com sorrisos... com olhares... e com palavras.
Henrique e Mariana separaram-se. Salustiano ia dirigindo-se ao primeiro, tendo porém os olhos fitos na filha de Anacleto, que, mal podendo conter um movimento de terror, foi direita ao lugar onde estava Cândido.
Salustiano voltou imediatamente à sua primeira posição.
Mariana falou a Cândido. Sua voz parecia comovida.
– Quer fazer-me obséquio de dar-me o braço?
– Oh! com sumo prazer.
Um homem pobre agradece com tanto reconhecimento qualquer pequenina prova de consideração!...
– Para onde quer que a acompanhe, minha senhora?... prefere passear nas salas, ou ir ao jardim?..
– Vamos ao jardim.
Cândido observou que o braço de Mariana tremia.
Quando chegaram ao jardim, a viúva e o mancebo entraram no caramanchão, e ela, sentando-se no banco da relva, disse:
– Sente-se ao pé de mim... conversemos.
Cândido sentou-se curioso; Mariana hesitava.
Aquela mulher, de caráter tão forte, ia cumprir as ordens de um homem que não era seu pai, nem seu marido, nem seu irmão. Agora fraca e humilde, desempenhava o papel de escrava, obedecendo ao aceno de seu senhor.
Esteve em silêncio por algum tempo a devorar seu cálice de amargura ali, naquele banco de torturas, onde pouco antes seu pai havia tanto chorado por causa dela.
Enfim, com esforço indizível tomou a mão de Cândido, apertou-a entre as suas, e disse:
– Este mundo... este mundo, senhor, é um inferno!...
– Para os infelizes, senhora.
– Oh! e onde estão os seus bem-aventurados?... ninguém julgue da paz do coração pelo sossego e prazer do semblante; quase sempre quando a alma chora lágrimas de sangue, os lábios sorriem e os olhos brilham!...
– Eu compreendo que às vezes sucede assim.
– Este mundo, sr. Cândido, é um tirano, um déspota inexorável, que todo ornado de prejuízos e de quimeras, impõe-nos o dever de respeitar seus prejuízos, e de adorar suas quimeras! e ai daquele que resiste!...
– É verdade... é verdade.
– Os homens curvam-se a idéias falsas e indignas deles, e as desenvolvem porque, enfim, força é ser escravo do mundo!
– Não, isso não, minha senhora; o mundo não pensa, são os homens que, pervertidos e desmoralizados, concebem essas idéias. O mundo não tem culpa de ser assim, os homens o vestem com essas roupas.
– E o remédio?...
– O remédio é instruir e moralizar o povo.
– E enquanto ele não se instrui nem se moraliza?...
– Deve-se bradar com força contra aqueles a quem compete moralizá-lo e instruí-lo.
– Sim, mas o primeiro que se erguer contra um prejuízo que reina, será vítima, e ganhará em vez de palma de vitória a coroa de martírio.
– Embora. Sócrates morreu, porém suas idéias vingaram.
– E quem quereria ser Sócrates?.
– Oh! minha senhora, perdoe-me; mas julgo melhor fazer de outro modo a pergunta.
– Como?...
– Quem poderia ser Sócrates?...
– Pois aceito: quem poderia sê-lo?...
– Um bom governo.
A viúva pensou alguns instantes; a conversação ia tomando caminho contrário ao que ela queria levar; finalmente, começou de novo:
– E enquanto a revolução moral não se faz, enquanto a sociedade não reforma os seus costumes, o que hão de fazer os homens, o que farão principalmente esses entes fracos, as mulheres, que desde que nascem até que morrem precisam sempre de um apoio na vida; o que hão de fazer, senão curvar-se a esses erros, a esses prejuízos?...
– Uma grande mulher responde por mim, senhora; Mme. de Stael – penso que foi ela – escreveu em um livro: “Os homens devem arrostar a opinião pública, e as mulheres curvar-se a ela”. Eu digo o mesmo dos prejuízos de que fala.
– Oh! mas é horrível!
– Eu o sinto, minha senhora.
– Às vezes ter uma mulher, para respeitar essas indignas quimeras, de quebrar uma corda sonora de seu coração... às vezes ir parecer má, sendo benigna... dizer uma mentira, tendo na alma a verdade; é muito é horrível!
– Mas não é tanto assim, minha senhora; a mulher deve curvar-se diante do juízo dos homens só e unicamente até o ponto donde pode começar a ser ofendido o juízo de Deus.
– Pobres mulheres! às vezes o dito de uma criança é de sobra para perdê-las na opinião do público; e depois o discurso de um sábio não basta para purificar seu nome dessa nódoa imaginária! pobres mulheres, que precisam pesar suas palavras de cada vez que falam, ter cuidado com seus olhos de cada vez que olham... porque fazem de suas palavras e de seus olhos provas de erro, e até às vezes de crime!
– Afeia demais a posição do seu sexo na sociedade, minha senhora.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.