Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)
Júlia levantou-se indignada ao novo ultraje daquela suspeita injuriosa à sua virtude, e adiantouse dois passos, evidentemente para retirar-se.
- Madame, não pode sair assim, disse a modista.
E Júlia, obrigada a estacar diante do espelho, viu nódoas de tinta preta em seu rosto, e ainda no corpinho de seu vestido branco.
Com efeito era impossível descer à loja e subir à sua carruagem, e mostrar-se ao público assim, como dissera a modista.
Finíssima esponja, odorífero sabonete e água límpida restituíram ao rosto de Júlia sua brancura imaculada, mas o corpinho do vestido a que tinha chegado a tinta de escrever?... era indispensável pelo menos uma e longa hora para regenerá-lo lavado, secado e engomado.
Júlia, ardendo por fugir da casa traiçoeira, sujeitou-se a extremo recurso, trocou seu rico vestido branco por uma das toilettes de fantasias que escolhera.
Mas quando ela atravessou a loja e foi tomar à porta o carro que a esperava, a mais maliciosa das costureiras ao vê-la já de costas e distanciada disse às companheiras:
- Que história foi essa?... ela entrou vestida à vestal e agora sai fantasiada?
Moralidade do romance: às senhoras honestas não basta sê-lo, é indispensável não parecer que deixam de sê-lo.
Júlia trocou a sua espécie de gratidão ao namorador Artur por desprezo profundo.
E depois do seu desmaio na casa da modista corrompida tomou gosto por caçadas de pacas e veados, aprendeu a atirar de espingarda, venceu nervosos estremecimentos de medo, tornou-se mestra na certeza e na prontidão do tiro, e com indizível e delirante paixão do seu Frederico fezse Diana caçadora e sócia constante do seu marido Nemrod.
CAPÍTULO 16
Como por fim chegamos em nossa viagem ao último quarteirão da Rua do Ouvidor, e logo encontramos em pequeno sobrado à mão direita a Chiquinha, tormosa e muito leviana ou imodesta rapariga, de quem foi ditoso apaixonado, em 1822, o ilustre e benemérito patriota Joaquim Gonçalves Ledo, mais feliz do que o poeta Bernardo Avelino, vizinho da Ziquinha, e que por pobre desmerecia os seus agrados; recordam-se notáveis acontecimentos, e a fuga de Ledo para Buenos Aires, entrando por capricho dele a Chiquinha na história. Como, enfim, se fazem notar a casa de sobrado do Visconde da Cachoeira, e deste se trata, e defronte a pequena casa térrea, onde em maio de 1869 se fundou a Reforma.
Adivinho que os meus companheiros de viagem sentem-se possuídos da mais doce consolação ao entrar no último quarteirão da Rua do Ouvidor, onde têm de receber as minhas despedidas e de respirar livres de mim.
A consolação realmente é pouco lisonjeira para o meu amor-próprio de memorista; é, porém, muito natural que desejem viajantes, e ainda mais viajantes obrigados, chegar ao termo de suas fadigas.
Podem crer que eu também estou cansado de tão longa viagem, e tanto mais que chega já a me parecer meu destino o ter de repetir o que disse o Lopez do Paraguai, quando fugia, subindo a serra: Il faut finir pour commencer.
Sigamos pois, mas preparem-se, armem-se de paciência os meus companheiros e leitores, porque, neste pequeno quarteirão, temos muito que ver e que lembrar.
Logo na quina da rua, então chamada da Vala e agora da Uruguaiana, a Rua do Ouvidor apresentava ao lado esquerdo a casa de três pavimentos, que ainda hoje se vê, e que abre porta e corredor de entrada para aquela tendo defronte na quina do lado direito casa de dois pavimentos ou sobrado de um só andar, como atualmente se conserva.
Ambos esses tetos devem guardar, senão importantes, ao menos curiosas recordações.
Foi no segundo desses sobrados, no de um só andar e ainda então mal-acabado, que em 181..., desembarcando na cidade do Rio de Janeiro, se abrigaram José Clemente Pereira, que tão elevada posição social tinha de ocupar no Império do Brasil, e o Macamboa, que ai começou a exercer modestamente a advocacia, e que em 1821 celebrizou seu nome na bernarda de fevereiro.
O outro, o sobrado de dois andares, gozou, em 1822, fama ocasional e efêmera, mas um pouco romanesca.
Habitava, não sei desde quando, em um dos pavimentos superiores dessa casa, ou ocupava ambos, moça de beleza tão notável, como de costumes fáceis e sem escrúpulos. Era, dizem, lindíssima de rosto, e seu corpo ostentava formas, contornos admiráveis, que um estatuário tomaria por modelo, mas infelizmente, pobre mulher sem recato, era anjo decaído, infeliz transviada.
Natural da província de Minas Gerais, tinha vindo para a cidade do Rio de Janeiro talvez muito recentemente, porque era ainda bem jovem, pouco mais de vinte anos contando; havia, porém, no seu passado de ontem, de menina, lá na província natal algum segredo de sinistro amor, como o da Perpétua Mineira, mas ao contrário desta nos primeiros tempos da saleta de pasto à mineira era tão alegre e parecia tão feliz no seu transviamento que se afigurava não ter consciência da sua degradação na sociedade.
Vivia só com uma escrava africana ou alugada ou própria.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor. Rio de Janeiro: [s.n.], 1878. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7544 . Acesso em: 4 jan. 2026.