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#Romances#Literatura Brasileira

A Moreninha

Por Joaquim Manuel de Macedo (1844)

Passados alguns instantes a sra.. d. Ana, como quem estava certa do resultado da meia hora de reflexão, e já por tal podia gracejar com os noivos, disse a Augusto:

— O sr. não quer refletir também no jardim?

— O estudante não esperou segundo conselho e para logo dirigiu-se à gruta.

D. Carolina estava sentada no banco de relva, e seu rosto, sem poder ocultar a comoção e o pelo que lhe produzia o objeto de que se tratava, tinha, contudo, retomado o antigo verniz do prazer e malícia. Vendo entrar o moço, disse:

— Eu creio que ainda se não passou meia hora.

— Ah! Podia eu esperar tanto tempo?...

— Acaso veio perguntar-me alguma coisa?...

— Não, minha senhora, eu só venho ouvir a minha sentença.

— Então... pede-me para sua esposa. A senhora o ouviu há pouco.

— Pois bem, sr. Augusto, veja como verificou—se o prognóstico que fiz do seu futuro! Não se lembra que aqui mesmo lhe disse que não longe estava o dia em que o sr. havia de esquecer sua mulher?

— Mas eu nunca fui casado... murmurou o estudante.

— Oh! Isso é uma recomendação contra a sua constância! E quem tem a culpa de tudo, senhora?

— Muito a tempo ainda me lança em rosto a parte que tenho na sua infidelidade; pois, eu emendarei a mão agora. O senhor há de cumprir a palavra que deu há sete anos!

Augusto recuou dois passos.

— O senhor é um moço honrado, continuou a cruel Moreninha, e, portanto, cumprirá a palavra que deu, e só casará com sua desposada antiga.

— Oh!... Agora já é impossível!

— Ela deve ser uma bonita moça! ... Teria razão de queixar-se contra mim, se eu roubasse um coração que lhe pertence… até por direito de antiguidade; ora, eu, apesar de ser travessa, não sou má, e, portanto, o senhor só será esposo dessa menina.

— Jamais!

— Juro-lhe que há de sê-lo.

— E quem me poderá obrigar?

— Eu, pedindo.

— A senhora?

— E a honra, mandando.

— Para que, pois, animou o amor que pela senhora sinto?...

— Para satisfazer a minha vaidade de moça, somente para isso. Eu o ouvi gabar-se de que nenhuma mulher seria capaz de conservá-lo em amoroso enleio por mais de três dias, e desejei vingar a injúria feita ao meu sexo. Trabalhei, confesso que trabalhei para prendê-lo; fiz talvez mais do que devia, só para ter a glória de perguntar-lhe uma vez, como agora o faço: "Então, senhor, quem venceu: o homem ou a mulher9

— Foi a beleza.

— Porém já passou o tempo do galanteio, e eu devo lembrar-lhe o dever que com a paixão esquece. Escute: de idade de treze anos o senhor amou uma linda e travessa menina, que contava apenas sete.

— Já a senhora em outra ocasião me disse isso mesmo.

— Junto ao leito de um moribundo jurou que havia de amá-la para sempre.

— Foi um juramento de criança.

— Embora, foi um juramento; trocou com ela aí mesmo prendas de amor, e quando a menina lhe apresentar a que recebeu e lhe pedir a que ofereceu e o senhor o aceitou?...

— Ah! Senhora...

— Quando o velho moribundo, dando-lhe o breve de cor branca disse: tomai este breve, cuja cor exprime a candura da alma daquela menina; ele contém vosso camafeu; se tendes bastante força para ser constante e amar para sempre aquele belo anjo, dai-lho, para que ela o guarde com desvelo. Por que deu o senhor o breve à menina?...

— Porque eu era um louco, uma criança!...

— E nem ao menos se lembra de que o velho disse com voz inspirada: "Deus paga sempre a esmola que se dá ao pobre!... Lá no futuro vós o sentíreis?" Não tem o senhor esperança de ver realizar-se essa bela profecia? Não se lembra de ouvi-la? Pois ela soou bem docemente no meu coração quando, às escondidas, a escutei repetida nesta gruta por seus lábios.

— Oh! Mas porque Deus não me prendeu a essa menina nos laços indissolúveis, antes que eu visse o lindo anjo desta ilha?

— E como, senhor, posso eu acreditar nos seus protestos de ternura e constância, se já o vejo faltar à fé de outra?…Senhor! Senhor! O que foi que prometeu há sete anos passados?...

— Então eu não pensava no que fazia. E agora pensa no que quer fazer?

— Penso que sou um desgraçado, um louco!... Penso que é uma barbaridade inqualificável que, enquanto eu padeço, sofro mil torturas, deixe a senhora brincar nos seus lábios o sorriso com que costuma encantar para matar; penso...

— Acabe!

— Penso que devo fugir para sempre desta ilha fatal, deixar aquela cidade detestável, abandonar esta terra de minha pátria, onde não posso ser outra vez feliz!... Penso que a lembrança do meu passado faz a minha desgraça, que o presente me enlouquece e me mata, que o futuro... Oh! Já não haverá futuro para mim! Adeus, senhora! — Então, parte?…

— E para sempre.

D. Carolina deixou cair uma lágrima e falou ainda, mas já com voz fraca e trêmula:

— Sim, deve partir... vá... Talvez encontre aquela a quem jurou amor eterno...

Ah! Senhor! Nunca lhe seja perjuro.

— Se eu a encontrasse!

— Então?... Que faria?...

— Atirar-me-ia a seus pés, abraçar-me-ia com eles e lhe diria:

"Perdoai-me, perdoai-me, senhora, eu já não posso ser vosso esposo! Tomai a prenda que me deste..."

E o infeliz amante arrancou debaixo da camisa um breve, que convulsivamente apertou na mão.

(continua...)

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