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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

Mas, enfim, mudada a roupa e bebido o vinhozinho do Filipe do Ver-o-peso, ocuparia o tempo até a volta de padre Antônio de Morais, ouvindo o pedido do candidato a sacristão interino. Tratá-lo-ia bem, mas o iria desde já prevenindo que os deveres do cargo eram muito sérios, e era preciso medir bem as forças, antes de aceitar a responsabilidade da posição solicitada. Não pensasse que ser sacristão de Silves, e ainda com um sacerdote como Antônio de Morais, fosse alguma sinecura! Devia desde já habituar-se à idéia da importância das funções de acólito e de zelador do culto, de mestre-sala e ordenador do serviço divino. Em primeiro lugar era preciso saber latim. Não poderia ajudar a missa em português, isto estava claro. A ele, Macário, custara-lhe muito o aprender o latim, não fora biscoito, ouvira muita descompostura do defunto padre José, que Deus houvesse, e levara mesmo algumas palmatoadas! Depois era preciso conhecer o serviço, saber quando devia pronunciar os latinórios, quando devia ajoelhar-se, erguer-se, carregar o missal do lado da Epístola para o lado do evangelho, trazer as galhetas, servir o vinho e a água, enfim estar senhor de todos os detalhes do santo sacrifício. É verdade que estando padre Antônio ausente não se diriam missas em Silves... mas podia haver algum enterro, e para acompanhá-lo precisava o sacristão conhecer o seu ofício. Havia ainda as ladainhas, que não seriam interrompidas durante a missão à Mundurucânia. E finalmente requeria-se para sacristão um homem honrado e inteligente, incapaz de se deixar tentar pelo ouro do cálice, pela alvura das rendas da sobrepeliz ou pelo aroma delicado do vinho branco, mas que também soubesse cuidar disso tudo, tendo-o sempre em boa conservação e asseio. O afilhado do Valadão seria o homem necessário? Eis um problema que Macário não poderia resolver senão depois de ouvi-lo, de sondá-lo bem, estudar-lhe a fisionomia, os modos e o vestuário. Em todo o caso já o fato do pretendente ter procurado falar-lhe o preveniu em seu favor. Outro fosse ele e ter-se-ia dirigido diretamente a S. Rev.ma, sem fazer caso do sacristão, como no tempo do defunto padre José, em que Macário não tinha voz ativa. O afilhado do Valadão devia ser um rapaz cheio de tino, se por si resolvera aquele passo de pedir ao santo em vez de pedir a Deus, ou então, e era o mais provável, o tenente Valadão, o subdelegado de polícia, assim o aconselhara, reconhecendo a incontestável influência de que gozava Macário. Sim, provavelmente preferiria o protegido do subdelegado ao José do Lago, que era uma lesma, mas queria antes de comprometer-se por uma promessa formal, expor-lhe com franqueza o modo por que entendia as funções dum acólito pontual e zeloso. Chovia ainda. Tinha tempo. Padre Antônio, provavelmente, surpreendido pela chuva, entrara em alguma casa, e esperava a estiagem para voltar ao presbitério. O pobre pretendente já esperava muito tempo.

Macário atravessou o corredor, abriu a porta da sala, e recuou espantado, vendo sentado numa cadeira, com o chapéu entre os joelhos, um moço de dezoito anos, pálido e franzino.

— Uai! é o senhor que quer substituir-me! exclamou o sacristão, cheio de surpresa.

E logo fino e atilado, não querendo ser vítima duma mistificação evidente, acrescentou com um sorriso:

— Já sei, é uma pilhéria do Chico Fidêncio! Aquele tratante não descansa! Mas desta vez teve graça! O Sr. Totônio Bernardino feito sacristão da Matriz!

O moço ergueu-se, acanhado e sério. Macário notou que tinha emagrecido e estava muito triste. Nos olhos brilhava-lhe um relâmpago.

— Não sei de que fala, disse, nada tenho com o Chico Fidêncio, e nem desejo ser sacristão da Matriz.

Ora essa, não queria ser sacristão, e que diabo queria ele?

— Venho fazer-lhe um pedido, murmurou o Totônio Bernardino, pondo os olhos no chão.

Um pedido! Pois não, estava às suas ordens, contanto que fosse para bem. Não se negara nunca ao que exigiam dele para o bem, era da sua natureza, não poderia reformar-se. O Sr. Totônio podia falar que Macário o estava ouvindo, pronto ao seu serviço. Não se trata do lugar de sacristão interino, de algum batizado, de algum Nosso-pai a levar? Ah! Já sabia, a coisa era um casamento!

E Macário, feliz por ter achado afinal a explicação do caso, acrescentou com malícia:

— Invejas do mano, pois não é?

Uma contração fechou o rosto expansivo do jovem. Um profundo suspiro levantou-lhe o peito.

— Não, Sr. Macário, não se trata disso. Mas já me explico. Padre Antônio vai em missão à Mundurucânia...

— Vamos, pois não! interrompeu Macário.

— Pois é isso, tornou o Totônio, sei que S. Rev.ma tem demorado a viagem por falta de remeiros...

— Ah! Já sei, o Sr. Totônio sabe de alguns tapuios que se prestam a remar até o porto dos Mundurucus? Pois olhe, admira-me muito isso. Tenho procurado tanto! Quando sabem que é para ir até às tabas de selvagens que comem gente, todos fogem. E o senhor sabe de gente que se preste a isso?!

— Sei. Estou pronto a remar na canoa de padre Antônio, e tenho um companheiro.

(continua...)

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