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#Romances#Literatura Brasileira

Luzia-Homem

Por Domingos Olímpio (1903)

As sombras informes da penitenciária, das grandes paredes de andaimes complicados, se alastravam pela encosta do morro; o anilado perfil das serranias se esfumava em turva neblina de mormaço, e a viração, caída como um hálito de febre, revolvia o pó em torno das moitas mortas, rugia nas palhas dos alpendres e barracas, anunciando o pendor do sol para o ocaso flamejante.

Do alto do morro ela divisava a faixa de oiticicas seculares, marcando o contorno do leito do rio estanque, e a cidade, como um enorme crustáceo farto à sesta, as torres da matriz alvejando em plena luz, o vermelho, o vasto telhado da casa da Câmara, no qual, tanta vez, demorara o olhar saudoso e compadecido do homem querido, sofrendo, ali, aviltante prisão, e donde ela, enternecida, esperava, agora, ver alar-se o anjo da esperança triunfante. Mas, não partia de lá, nem o eco de uma voz de alvíssaras, nem um sinal auspicioso animava a paisagem, tocada de tons quentes de brasa, numa imobilidade de coisa morta, num silêncio triste de sítio desolado, quando ela desejava que a natureza, as coisas vivas, as coisas mortas participassem da sua ansiedade, do seu desejo quase raro, quase ignorado.

As meninas cosiam, diligentes, agrupadas em derredor da mestra, numa garrulice de passarada inquieta. Ranchos de operárias davam a última demão ao trabalho do dia; retirantes fatigados da derradeira caminhada se aliviavam das cargas de material, e os feitores contavam e notavam em cadernos apolegados, o pessoal que vinha chegando lentamente.

Apareceu por último, Raulino, rúbida figura de bretão, muito alto, muito magro, de músculos túmidos, os revoltos cabelos ruivos empoeirados, erguidos em trunfa sobre a fronte tostada.

— Então? – inquiriu Luzia, erguendo-se a encontrá-lo.

— Está solto. Não o vi, porque havia gente como formiga defronte do armazém. Teresinha saiu com ele. Estava desfigurado, dizem, como quem se levanta da cama de moléstia maligna. Credo! Parecia um defunto em pé.

— Não falou com ele?

— Fiz o possível; mas tinha pressa de chegar aqui antes do ponto.

— Está mesmo livre. Não é, seu Raulino?

— Tão livre como eu, que lhe estou falando. Também não foi sem tempo, porque se o pobre ficasse mais alguns dias na cadeia, talvez fosse desta para melhor. Saía dali para a cova.

— E agora?...

— Agora... é cuidar da saúde, e trabalhar. Pobre não tem direito de ficar doente. Barco parado não ganha frete...

— Acha que ficará bom?

— Alexandre é rijo e moço. Com alguns dias de ar livre, fica capaz de outra, do que Deus o livre. Aquilo é madeira de lei; o cupim da moléstia há de custar a roêla.

— Ainda bem.

Luzia voltou-se para as meninas, e ordenou-lhes que dobrassem as costuras, embora não soasse ainda a hora de terminar a tarefa. Pensou, então, em abandonar o trabalho, voar a casa, onde, talvez, a estivesse Alexandre esperando, ansioso. Mas, primeiro a obrigação, o cumprimento do dever remunerado pelo pão de cada dia. E ficou, aparentemente, calma, resignada à lentidão do tempo, porque o sol, que o governava, como que havia parado, desceu escandecido, na calma imensidade de oiro alastrado.

Dona Inacinha errava, rabujenta, entre as turmas de costureiras, resmoneando censuras graves, cheias de desgosto.

— Tudo muito mal feito, obra albardeira, mal-acabada e feita à pressa: não paga o pirão que custa.

— Vocês mesmo – continuava, com asperezas fanhosas de voz, traindo a irritarão incoerente de celibatária – não se emendam. O que lhes digo sobre o serviço entra por uma orelha, e sai pela outra. Estas costuras encardidas bem mostram que foram feitas por porcalhonas. Vejam as da Luzia. Dá gosto lidar com uma pessoa assim cuidadosa e cumpridora dos seus deveres. Os pospontos parecem feitos por máquina. Vocês me põem doida. Estou vendo a hora de perder a paciência e o juízo. Se vivem grazinando na conversa, em vez de olharem para o que estão fazendo.

E mais rubro se acendia, riscado de veiazinhas tensas, o grande nariz da beata, montado de grandes óculos cintilantes.

Quando chegou a turma de Luzia, estranhou que as peças costuradas já estivessem todas arrumadas em pilhas.

— Como? Tão cedo, e já acabada a tarefa?

— É que eu – observou Luzia, enleado – desejava sair hoje mais cedo...

Por que não me disse há mais tempo? Pode ir. Você merece contemplações. Dá conta do serviço, como uma moça de vergonha.

Acrescentou depois, sorrindo, com ironia, e cravando nela os pequeninos olhos maliciosos:

— Hoje é dia grande para você, sua sonsa. Já me disseram: sei tudo. Vá, ande, e seja bem sucedida. Como é para bom fim, não me importa de dar-lhe um suetozinho...

Luzia corou; agradeceu o favor, e partiu veloz, açoitada pela ventania morna e violenta que lhe relevava as formas, colando-lhe, como uma túnica de estátua, o vestido ao corpo, mal disfarçando os graciosos contornos, modelados por inspirado escopro.

(continua...)

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